IndieLisboa: O cinema português mostra a sua força

“A Viagem de Pedro”, o filme luso-brasileiro que encerra o Indie

IndieLisboa: O cinema português mostra a sua força

Dizem que santos da casa não fazem milagres, mas o que salta à vista na programação do IndieLisboa 2022, festival que nos tem mostrado alguns dos melhores filmes do mundo, é a quantidade, qualidade e variedade do cinema português. Depois do corte de produções devido à pandemia nos anos anteriores, sentido sobretudo em 2021, o Indie bate todos os recordes de participação nacional em competição e fora dela.

Começando pela Competição Nacional, que é sempre um dos pratos fortes, foram selecionadas nove longas-metragens de um total de 60 (!) propostas (há anos em que o total da produção nacional não chega a este número). Tal permite ao festival fazer uma escolha equilibrada e abrangente, alternando realizadores experientes com outros mais jovens, documentários com ficções. Entre outros, encontramos aqui Atrás dessas Paredes, de Manuel Mozos, sobre o enclausuramento; O Trio em Mi Bemol, de Rita Azevedo Gomes, no seu habitual estilo na fronteira com o teatro; ou Viagem ao Sol, de Ansgar Schaefer e Susana de Sousa Dias, um documentário sobre as crianças austríacas adotadas por famílias portuguesas no rescaldo da II Guerra Mundial. Isto para não falar de Supernatural, o filme híbrido de Jorge Jácome que se destacou em Berlim, ou Mato Seco em Chamas, a única longa portuguesa na Competição Internacional.

Nas curtas-metragens, também grandes destaques. O Indie mostra pela primeira vez em Portugal Tornar-se um Homem na Idade Média, o filme de Pedro Neves Marques que ganhou um leopardo em Roterdão. E também By Flávio, de Pedro Cabeleira, que esteve em Berlim, ou Um Caroço de Abacate, de Ary Zara, a primeira transgénero a ser selecionada para a competição portuguesa.

Os filmes portugueses espalham-se por todas as outras secções. Aliás, as sessões especiais são exclusivamente compostas por filmes lusos, incluindo dois de João Botelho: Um filme em Forma de Assim, a partir de Alexandre O’Neill, num registo livre próximo de Filme do Desassossego; e O Jovem Cunhal, documentário sobre o carismático líder do PCP. Também, na abertura, Albufeira, tesouro restaurado da Cinemateca de António de Macedo; seguido de Zéfiro, de José Álvaro Morais. No encerramento, A Viagem de Pedro, filme luso-brasileiro realizado por Laís Bodanzky. E, pelo caminho, a estreia dos filmes de Marta Pessoa, Margarida Cardoso e João Trabulo.

A “heroína” independente da edição deste ano é Doris Wishman, uma realizadora norte-americana que rasgou com convenções e se tornou uma figura de culto, com filmes de série B (para não dizer Z), que mistura sexo e ficção científica.

A secção Silvestre apresenta mudanças importantes. Alguns dos mais aguardados filmes estão na parte não competitiva da secção, que inclui os últimos de Joana Hogg, Ulrich Seidl, Andrea Arnold e Bertrand Bonello. Mas há também uma sessão competitiva, com apostas específicas do festival, em que se podem encontrar obras muito surpreendentes.

No IndieMusic, uma das mais concorridas secções, destacam-se filmes sobre Cesária Évora, Lou Reed e John Cale, Laurent Garnier, Patti Smith, Telectu ou Carlos Zíngaro.

Para os mais cinéfilos, o Director’s Cut oferece uma seleção de filmes à volta do próprio cinema. E no Boca do Inferno, programa noturno no Cinema Ideal, há filmes de género, entre o terror, o humor e o erotismo. Para os mais novos, como é habitual, o IndieJúnior conta com uma programação vasta, além de um conjunto de ateliers para escolas e famílias.

7 FILMES A NÃO PERDER

A Viagem de Pedro
O filme de encerramento do Indie é uma coprodução luso-brasileira, com atores de ambos os lados do Atlântico e de interesse histórico comum. Encontramos D. Pedro IV, o rei português que se tornou o primeiro imperador do Brasil, a regressar à pátria para salvar o País da tirania absolutista do seu irmão D. Miguel. Uma grande produção de época com assinatura da brasileira Laís Bodanzky.

Culturgest > 8 de maio, 21h30

O Jovem Cunhal
João Botelho vai estar em dose dupla no Indie. Por um lado, a antestreia de Um Filme em Forma de Assim, a partir de Alexandre O’Neill. Por outro, O Jovem Cunhal, criativo documentário que recorda e conta a história de uma das mais fascinantes personagens do século XX português. Com rigor e um ritmo empolgante, o filme cruza leituras da obra com momentos de ficção, e conta com as participações de Margarida Vila-Nova, João Pedro Vaz, entre outros. São Jorge > 1 de maio, 21h30

Rua dos Anjos
Uma das mais surpreendentes obras da Competição Nacional. O filme documenta o encontro entre a prostituta aposentada Maria Roxo e a realizadora e atriz brasileira residente em Portugal Renata Ferraz. A primeira ensina as artes do ofício à segunda, que pretende angariar clientes para um projeto sui generis, ao mesmo tempo que conta a fascinante história da sua vida e partilham as inquietações mais íntimas. Ambas assinam a autoria. Um autêntico óvni cinematográfico. Culturgest > 1 de maio, 21h30; São Jorge > 5 de maio, 21h45

Rimini
Depois da trilogia Paraíso, Ulrich Seidl, um dos mais ousados e perturbantes realizadores austríacos da atualidade, está de volta com Rimini. O filme centra-se na personagem de um cantor de salões decadente, com problemas de alcoolismo, numa estância balnear italiana. Sempre arriscando nos limites, o realizador oferece-nos uma obra pungente e inquietante. Cinema Ideal > 28 de abril, 22h

Mato Seco em Chamas
Realizado a meias pelo brasileiro Adirley Queirós e a portuguesa Joana Pimenta, é a única longa presente na secção nacional e internacional. Na essência, é um filme brasileiro, enquadrado nas melhores práticas do cinema independente do País, num estilo muito livre, que abrange temas atuais e fraturantes, como a criminalidade, as igrejas evangélicas, a determinação política ou questões de género e orientação sexual. São Jorge > 3 de maio, 21h30; Cinema Ideal > 7 de maio, 22h

Albufeira
É uma pequena pérola do cinema português restaurada pela Cinemateca, ao abrigo do programa FILMar. António de Macedo, um dos nomes do cinema novo português, fez um falso documentário com três jornalistas inglesas que vêm ao Algarve, ainda no tempo da ditadura, para fazer uma reportagem turística para uma revista de grande tiragem. O filme está cheio de momentos delirantes. São Jorge > 28 de abril, 19h00

Nude on the Moon
A insubmissa e desconcertante realizadora Doris Wishman tem direito a uma extensa retrospetiva no IndieLisboa. O seu trabalho, sempre de série B, vai da pornografia à ficção científica. Nude on the Moon é um objeto de culto kitsch, ao nível de um Ed Wood, em que um par de astronautas aterra numa Lua verdejante, povoada por uma tribo de sumptuosos homens e mulheres nus. Cinemateca Portuguesa > 29 de abril, 21h30, e 6 de maio, 21h30

IndieLisboa > Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa > 28 abril-8 maio > bilhetes a partir de €3,20 e vouchers a partir de €16

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