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Porque sentimos comichão?

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A sensação de toque tem um papel muito importante para o desempenho das tarefas diárias e para a proteção contra possíveis ameaças. A ciência descobriu agora o processo neuronal por detrás da sensação, que também é responsável pela comichão

Pedro Dias

Pedro Dias

Jornalista

Um grupo de investigadores do Salk Institute for Biological Studies, na Califórnia, EUA, descobriu a forma como os neurónios sensoriais da espinha dorsal ajudam a transmitir a sensação de comichão para o cérebro.

“O que podemos retirar daqui é que esta sensação mecânica de comichão é diferente de outras formas de toque e tem um caminho especializado dentro da medula espinhal”, refere Martyn Goulding, professor do instituto e principal autor do estudo.

Anteriormente, a equipa já tinha descoberto um conjunto de neurónios inibidores que atuam sobre este “caminho especializado” e mantém a sensação de comichão desativada a maior parte do tempo. Sem estes neurónios, que produzem a molécula neuropeptídeo Y (NPY), o caminho mecânico da comichão está sempre ativo, o que explica a comichão crónica sentida por várias pessoas. O que não sabiam era a forma exata de como o sinal de comichão era transmitido para o cérebro.

David Acton, pós-doutorado em neurobiologia molecular e coautor do estudo, avançou a hipótese de que quando um indivíduo não possui neurónios produtores de NPY, os neurónios da espinha dorsal que transmitem a sensação de toque agem como aceleradores e transmitem também a sensação de comichão espontaneamente. Depois, identificou um grupo de neurónios excitatórios que encaixavam no perfil dos “neurónios do toque”, ao serem recetivos a NPY. Chamou a este grupo de neurónios os neurónios espinhais Y1.

Para testar a sua teoria, Acton recorreu a ratos de laboratório, nos quais eliminou à vez o inibidor NPY e o acelerador Y1. Sem os neurónios Y1 a funcionar, os ratos não se coçavam, mesmo quando expostos a estímulos para o efeito. Mais, quando Acton deu aos ratos substâncias para ativar os neurónios Y1, os ratos coçaram-se espontaneamente, mesmo sem qualquer estímulo. O investigador e a sua equipa conseguiram depois provar que o nível de excitamento dos neurónios Y1 variava consoante os níveis de NPY que recebiam. Por outras palavras, o NPY age como um tipo de termostato que controla a sensibilidade ao toque.

Outros estudos demonstraram que algumas pessoas que sofrem de psoríase têm níveis de NPY inferiores ao normal. Tal pode significar que não têm tantos “travões” na transmissão de comichão ao cérebro, uma potencial causa para a comichão mais regular que sentem.

Enquanto os neurónios Y1 transmitem o sinal de comichão na espinha dorsal, os investigadores pensam existir outros neurónios responsáveis pela mediação da resposta do cérebro. No entanto, acreditam ser necessária mais investigação para que o caminho neuronal completo seja mapeado. Este estudo, tal como o seu aprofundamento, poderá ser útil para a criação de medicamentos contra a hipersensibilidade ao toque ou contra a comichão crónica.

“Ao entender os mecanismos pelos quais a comichão mecânica é sinalizada sob circunstâncias normais, poderemos então abordar o que acontece na comichão crónica”, conclui Acton.

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