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Como é ser daltónico

VISÃO Saúde

Lucilia Monteiro

A incapacidade para distinguir as cores parece, para quem não a tem, um problema menor. Mas impede 10% dos homens de serem autónomos. Como se vive quando se acha que a banana é azul e as cerejas e os troncos das árvores são verdes?

Foi numa aula de História, na época em que andava na faculdade, que descobriu o que se passava consigo. “Durante um exame tive de pintar as rotas comerciais portuguesas da época medieval, mas não conseguia distinguir as cores pedidas pela professora”, recorda Tiago Santos, 35 anos. Perante a sua dificuldade, chamou a professora e explicou-lhe que não podia usar as cores castanho ou verde porque não conseguia identificá-las. Aí uma colega que estava a ouvir a conversa, disse-lhe: “Tu deves ser daltónico.” Tiago garante que nunca tinha ouvido falar desta expressão ou problema. Sempre pensou que apenas “não sabia as cores e que algo tinha falhado na sua aprendizagem”. A alteração visual já se tinha manifestado desde os primeiros tempos de escola, mas só naquele dia na faculdade suspeitou ser daltónico.

As pessoas que possuem esta alteração na visão não conseguem identificar uma ou mais cores. Um daltónico não vê o mundo com a mesma paleta cromática de alguém com visão normal. “Esta condição resulta de um deficiente funcionamento ou ausência das células que, na retina, são responsáveis pela deteção da cor: os cones. Dentro destes, existem cones especializados em detetar o verde, o vermelho e o azul” – cores primárias com as quais se fazem todas as outras –, explica o oftalmologista Luís Gouveia de Andrade.

Assim, em função do cone afetado, o impacto na visão cromática irá variar. Muitos daltónicos não distinguem o vermelho do verde. Outros não conseguem ver a cor azul ou o amarelo. Mais raros são os que veem o mundo a preto e branco ou não distinguem qualquer cor, tendo apenas uma visão gradeada de cinzento.
Estima-se que em Portugal existem 500 mil homens afetados por esta condição.

A culpa é da genética
O daltonismo é muito mais frequente no sexo masculino do que no feminino. Cerca de 10% dos homens têm dificuldade em ver corretamente as cores, contra apenas 0,5% das mulheres. A explicação para esta disparidade reside na genética, segundo revela Luís Gouveia de Andrade: “A diferença de incidência resulta do tipo de transmissão hereditária. Como o gene associado a esta doença se localiza no cromossoma X e os homens apenas possuem um desses cromossomas, o daltonismo manifesta-se mais facilmente nos homens. Já as mulheres possuem dois cromossomas X, pelo que, mesmo que um deles apresente o gene da doença, este será compensado pelo outro.”
Embora a perturbação seja geralmente genética, o problema pode ocasionalmente resultar “de doenças oculares, como degenerescência macular, catarata ou glaucoma, mas também do uso de alguns medicamentos, do consumo excessivo de álcool, alterações a nível cerebral, e doenças metabólicas ou vasculares”, afirma o oftalmologista, sublinhando que “nos diabetes, Alzheimer e Parkinson, o risco é mais elevado”.

No caso de Tiago, o agora consultor de vendas tinha 18 anos quando, depois daquela aula de História, procurou o oftalmologista e foi diagnosticado. Um processo que é simples e feito com recurso a testes de visão cromática.

Adaptação é a única solução
Uma vez identificada a anomalia, não há necessidade de qualquer vigilância particular, pois ainda não há cura para o problema. “Existem atualmente óculos especiais que facilitam a perceção dos contrastes entre cores, aumentando o conforto visual, mas não há nenhum tratamento que permita a sua cura”, esclarece o oftalmologista. Além disso, esta solução de lentes otimizadas não está disponível para todos, aplicando-se apenas “nos casos em que se conhece bem a deficiência”, complementa Sérgio Nascimento, que trabalha no único laboratório no País especializado em visão das cores, no Centro de Física da Universidade do Minho (UMinho).

Investigando em particular o daltonismo, Sérgio Nascimento já conseguiu, juntamente com a sua equipa, desenvolver lentes específicas para ajudar alguns daltónicos. “Um médico dermatologista que quer distinguir melhor alterações na cor da pele ou um pasteleiro que quer distinguir certos corantes. No entanto, essas lentes só vão funcionar para essas situações e não genericamente”, ressalva.

No seu laboratório, tenta-se perceber melhor como os daltónicos veem e procura-se desenvolver formas de ajudá-los em situações específicas. Mas, segundo o investigador, há várias coisas que se desconhecem. “Uma questão verdadeiramente interessante é a seguinte: um certo tipo de daltónicos só vê tons de amarelo e de azul, mas consegue dizer, quase como uma pessoa com visão normal, o nome de todas as cores.” Tudo indica que “o cérebro se adapta usando outras pistas que lhes permitem usar o nome das cores quase como uma pessoa normal”, esclarece ainda Sérgio Nascimento.

A cura do daltonismo só pode ocorrer, segundo o investigador, por via de terapia genética, na qual se geram os pigmentos que faltam aos daltónicos, porém, apesar da evolução dos estudos, ainda estamos longe de alcançar esse feito. Até lá, o que se pode fazer é incentivar o diagnóstico precoce do distúrbio e ajudar na adaptação e integração dos daltónicos, o que passa por educar a população para o daltonismo. “Infelizmente, muitos pais e educadores associam o daltonismo a uma limitação ligada à inteligência. É inacreditável o número de pessoas que tem esse preconceito”, alerta o investigador da UMinho.

Hoje, Tiago não tem qualquer problema em assumir que é daltónico, contudo, foi à conta do estigma social existente que só revelou o seu diagnóstico muitos anos depois. Além do preconceito social, Tiago Santos viu a sua vida condicionada, por exemplo, a andar de metro, a comprar roupa ou numa simples ida ao supermercado.

Nunca deixou de fazer nada por ser daltónico, nem mesmo a nível profissional, mas há casos em que o daltonismo pode ser um entrave, como na pilotagem de aviões, no controlo de tráfego aéreo, na navegação marítima ou na indústria gráfica.

Para ajudar os daltónicos, nasceu, em 2008, o ColorADD, um sistema de identificação de cores desenvolvido por Miguel Neiva. O designer gráfico pegou no conceito das cores primárias e criou um código que pretende minorar as limitações dos daltónicos: “O que fiz foi atribuir a cada cor primária um símbolo gráfico. E, tal como misturamos o amarelo com o vermelho para ter cor de laranja, misturamos o símbolo que representa o vermelho com o do amarelo, para termos o símbolo do cor de laranja. Assim, com três símbolos, o daltónico identifica todas as cores”.

Carla Mateus

Luis Barra

Tipos de daltonismo
As formas de daltonismo não são todas iguais. É possível fazer uma distinção entre a localização do defeito (ou seja, o cone da retina afetado) e o grau da deficiência visual (total ou parcial).


Visão normal
Uma pessoa não daltónica consegue visualizar todas as cores corretamente.


Deuteranopia
As cores no segmento verde-amarelo-vermelho são vistas como variações de castanho e bege.


Protanopia
A visão é composta por diferentes tons de bege, castanho, amarelo e azul.


Trinatopia
O amarelo é visto como cor de rosa e o azul é percecionado em tonalidades diferentes.


Monocromacia
O mundo é visto numa escala de preto, branco e cinzento.

Será que é daltónico? Faça o teste!

Um dos métodos de deteção do daltonismo mais conhecidos é o teste de Ishihara. Criado pelo oftalmologista japonês Shinobu Ishihara, em 1917, este teste consiste na exibição de uma série de cartões em que uma figura – normalmente um algarismo – é desenhada através de pontos de cores diferentes. As imagens são perfeitamente identificadas por uma pessoa com visão normal, no entanto, um daltónico terá dificuldade em visualizá-las.

Que números
consegue ver?

Respostas: 7 – 13 – 16 – 8

Fontes: American Academy of Ophthalmology

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