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Alexandre Soares dos Santos: o liberal que nunca deixava nada por dizer

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Morreu, aos 84 anos, o criador de um dos maiores impérios empresariais do País

Nunca foi parco em palavras, fosse entre família, amigos, jornalistas ou funcionários. “Chego a esta idade sem a mínima frustração. Tudo me correu bem. Fui feliz no casamento, fui feliz nos filhos, tenho netos. Os negócios correrem muito bem, gosto das pessoas e as pessoas gostam de mim. De maneira que sou um tipo feliz” afirmava ao Jornal de Negócios em 2013, quando decidiu abandonar as funções executivas na Jerónimo Martins, empresa que herdou de família, tendo assumido a sua liderança entre os seus 34 e os 79 anos. Transformou os maiores armazenistas do País na maior retalhista nacional, e entregou a gestão ao filho Pedro, aquando da reforma.

Alexandre Soares dos Santos afastar-se-ia da vida ativa empresarial para ganhar tempo para si e para os seus, há seis anos. Veria ainda o seu império continuar a crescer, com Pedro, José e Henrique Soares dos Santos, três dos seus sete filhos, com funções de gestão nos vários boards de empresas do grupo.

Fonte oficial da Sociedade Francisco Manuel dos Santos revelou à EXAME que, por vontade expressa de Alexandre Soares dos Santos, as cerimónias fúnebres do empresário serão reservadas à família mais próxima.

A saída de cena

Quando decidiu retirar-se, Soares dos Santos deixou para trás três décadas de crescimento da Jerónimo Martins: nos anos 1980 lançaria a cadeia de supermercados Pingo Doce com a belga Delhaize, uma história que nunca se cansou de contar. Depois de uma década de 1990 mais complexa, entrou nos anos 2000 com novo fôlego e nova imagem, e transformou a marca numa máquina que emprega mais de 30 mil pessoas e que, em 2018, em muito contribuiu para os lucros superiores a 400 milhões de euros reportados pela Jerónimo Martins.

É também a Alexandre Soares dos Santos que pertence o mérito da internacionalização da marca: a Jerónimo Martins tem supermercados na Colômbia (Ara) e na Polónia (Biedronka), depois de uma passagem falhada pelo Brasil. Uma experiência que, repetia praticamente a cada entrevista, “demonstrou que sem um balanço financeiro forte, e sem recursos humanos, não vale a pena. Fomos dois anos mais cedo para a América do Sul porque nos ofereceram uma companhia extraordinária e não muito cara. A posteriori, percebo que devíamos ter comprado aquela companhia e tê-la deixado quieta enquanto consolidávamos a Polónia. Não o fizemos”. Estas declarações foram feitas em entrevista ao Público em 2012, e constantemente repetidas na televisão, na rádio ou noutros meios.

Durante essas intervenções, Soares dos Santos foi várias vezes confrontado com críticas aos baixos salários praticados sobretudo no Pingo Doce e também ao facto de ter decidido transferir a sede da Sociedade Francisco Manuel dos Santos (a maior acionista da Jerónimo Martins) para a Holanda.

“Quem está na Holanda é a Sociedade Francisco Manuel dos Santos, não é nenhumas das outras", responderia, durante uma entrevista ao Público, em 2012. “E a razão principal é que era preciso acompanhar o crescimento do Jerónimo Martins, no qual a empresa tem uma posição maioritária. A Holanda dá-nos uma garantia de proteção do investimento no estrangeiro que Portugal não dá. Em segundo lugar, a burocracia na Holanda é muito menor”. E acrescentaria: “Já reparou que fui o único tipo acusado? E fui o último a ir para a Holanda. Os outros estão lá todos, inclusive o Estado — e não acontece nada. A mim, foi um ataque político. Aqui temos todos de nos benzer perante um primeiro-ministro. Os primeiros-ministros e os ministros estão ao serviço da nação, e têm de nos receber. A gente escreve uma carta a um ministro e o tipo não responde.”

Ready for the fight

Assumindo-se como católico e liberal, Soares dos Santos foi repetidamente uma voz crítica de governos e políticas nacionais. Insurgia-se contra decisões e era um acérrimo defensor da iniciativa privada. Reconhecia que nunca tinha passado dificuldades, mas tinha uma tolerância muito baixa para quem não entendesse que o trabalho e o esforço eram a base do sucesso. Recorde-se que Soares dos Santos decidiu abandonar o curso de Direito a meio para se dedicar ao trabalho, decisão que sempre afirmou nunca ter sido motivo de arrependimento. E sempre se recusou a entrar na política. Aliás, durante a mesma entrevista ao Público foi precisamente questionado sobre se algum dia tinha pensado em ter um projeto político, e a resposta não podia ter sido mais clara.

“Nunca. Nunca. Nunca. Nem tenho temperamento para isso. A minha participação é cívica. Quando um tipo passa por uma Alemanha em reconstrução, quando um tipo passa por um Brasil onde a classe alta tem um profundo desprezo pelo negro e pelo pobre, realiza que isto não pode ser assim. O mérito tem de ser premiado, a educação tem de ser dada. E liberdade não significa anarquia. Aqui, muitas vezes, confunde-se. Liberdade tem limites — o interesse comum.”

Mas acrescentaria ainda que a sua postura se devia ao facto de defender que “o empresário não tem de se meter em política. Há um conflito entre estar no Governo e estar no empresariado. A gente obedece a um objetivo: a defesa do interesse da empresa e dos que lá trabalham”.

O "senhor Soares dos Santos", como todos o tratavam no grupo, respondia aos jornalistas como a quem com ele se cruzava nos corredores das suas empresas. De forma clara e direta. Quando, no mesmo ano de 2012 estalou a grande polémica sobre as promoções-surpresa de 50% de dia 1 de maio, responderia assim à cobertura noticiosa do caso, uns meses depois: “Claro que uma pessoa fica irritada. Então admite-se que um telejornal abra com uma promoção do Pingo Doce?”

Retribuir à sociedade

Alexandre Soares dos Santos era um patriarca à moda antiga: gostava de ter a família à sua volta, falava dos filhos com honestidade e comandou com mão firme os negócios da família – que entretanto incluem também a Unilever FIMA e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), criada em 2009 e cujo projeto mais reconhecido terá sido a base de dados Pordata. Poucos anos depois, em 2015, a FFMS ganharia também a concessão do Oceanário de Lisboa, através da Fundação Oceano Azul, por um período de 30 anos.

Aquando da criação da FFMS – e mais recentemente, na cerimónia de 10.º aniversário da mesma, no Coliseu dos Recreios – Alexandre Soares dos Santos referiria que o seu objetivo era “dar à sociedade e ao nosso país o muito que ele” lhes deu. Era assim que respondia a quem perguntava por que tinha a família decidido investir um orçamento anual de milhões de euros numa organização sem fins lucrativos.

Com apenas 10 anos, a FFMS conseguiu afirmar-se como uma das maios relevantes organizações do País no que se refere à produção de conteúdos e ao convite ao debate, contando atualmente com programas televisivos, uma extensa coleção de ensaios e retratos e ainda vários estudos científicos.

Um ano depois da morte de Pedro Queiroz Pereira, que faleceu repentinamente a 20 de agosto de 2018, Soares dos Santos junta-se assim ao restrito grupo de empresários portugueses que deixam um grupo e marcas que perduram muito para além das suas vida.

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