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Radiografia à felicidade das empresas: porque estamos “quase-felizes?”

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Diana Tinoco

É o que procurou responder o Happiness Works deste ano, que vai na sua oitava edição e a que a EXAME se associa uma vez mais.

As empresas portuguesas preocupam-se mais com o bem-estar dos seus colaboradores e a forma como eles próprios encaram a sua vida profissional também mudou, mas há quatro anos que a felicidade na área empresarial está no mesmo patamar. Segundo as conclusões do estudo Happiness Works, dado a conhecer esta segunda-feira, o nível de felicidade nas empresas ficou uma vez mais nos 3,8 pontos, numa escala de 1 a 5, que revela um estado de “quase-felicidade” nestas organizações.

Para Georg Dutschke, fundador e partner do Happiness Works e um dos responsáveis pelo estudo que mede o nível de felicidade dos colaboradores na função e na organização, é tudo uma questão de criar uma cultura de felicidade organizacional. Para dar o passo em frente, defende, é preciso medidas mais estratégicas que táticas que tenham em vista melhorar o bem-estar e a satisfação dos colaboradores.

“Já não basta assegurar um pacote de condições e de benefícios atrativo. (...) Mas criar de facto uma maior consciência nas organizações para uma cultura da felicidade”, alerta por seu lado Guilhermina Vaz Monteiro, managing partner da consultora Lukkap, dedicada à transformação de pessoas e organizações.

A transformação constante do mundo do trabalho e o encurtamento dos ciclos laborais não só obriga os colaboradores a reverem os parâmetros de estabilidade do passado, como coloca desafios às empresas. E são cada vez mais os fatores intangíveis e emocionais a determinar a experiência do colaborador da empresa, mais do que o salário ou promoções.

“O propósito importa [na escolha do trabalho]. (…) A empresa ‘wow’ é aquela onde mais crescemos e nos divertimos,” definiu Rafael Vara, CEO da Lukkap Iberia, esta segunda-feira durante a apresentação das conclusões do estudo nas instalações da SRS Advogados, em Lisboa. O responsável elenca quatro desafios para as empresas neste novo ambiente: criar um modelo de relação entre empresa e o colaborador; antecipar as decisões de recrutamento (prever saídas para preparar as entradas), mudar o paradigma de hierarquia para organizações que fluam e trabalhar de forma diferenciada o conceito de experiência de empregado. “[Os colaboradores] querem respostas rápidas da empresa. E não só são os millennials que querem as coisas à distância de um clique: eles contaminaram-nos,” resume o responsável.

Mais e menos felizes

Este ano, as áreas da comunicação e da informação, da indústria e da construção e imobiliário voltaram a ser consideradas as três em que se regista maior felicidade entre os colaboradores, a nível nacional. Áreas como as indústrias criativas e o turismo e restauração registaram subidas de patamar, enquanto a maior descida (de 4.º para 10.º) coube à saúde e apoio social, depois de meses de notícias negativas sobre o setor. Em 11º lugar (e último na tabela) continua o Estado enquanto empregador.

Mais de 5 mil profissionais e 219 empresas participaram este ano no estudo Happiness Works existe, que mede o nível de felicidade organizacional dentro destas estruturas, avaliando esse bem-estar na organização e na função, o envolvimento dos colaboradores e o seu nível de fidelidade (a vontade de não sair da empresa). Na sua oitava edição anual consecutiva (o projeto existe desde 2011 e o modelo à escala nacional surgiu um ano depois, em 2012), a EXAME associa-se uma vez mais à divulgação desta iniciativa, publicando os resultados em primeira mão na edição de junho, que chegará nos próximos dias às bancas.

Saúde mental de mãos dadas com a felicidade no trabalho

Este ano as conclusões do Happiness Works foram ainda acompanhadas de um estudo que procurou identificar a correlação entre uma melhor saúde mental positiva e uma felicidade na função e na organização. O estudo, coordenado por Olga Valentim, professora adjunta da Escola Superior de Saúde Atlântica, concluiu a partir de uma amostra de 1 768 colaboradores que no geral estes elementos têm uma boa saúde mental, mas podem melhorar essa condição. Embora itens como a satisfação social e a atitude pro-social tenham boa classificação, já auto-controlo e habilidade na relação interpessoal foram identificados como pontos a melhorar.

Nesta missão de difundir os princípios da felicidade organizacional, “a partilha de experiências é boa, mas já não chega,” defendeu Natália Espírito Santo, diretora-geral da Universidade Atlântica. É preciso, argumentou, colocar estes conteúdos nos currículos de licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Um campo onde a Universidade Atlântica está a dar passos para suprir esta lacuna, com o lançamento de uma pós-graduação em Gestão de Pessoas e Felicidade Organizacional, que vai ajudar a medir e a promover a felicidade em contexto de trabalho.

Rui Nabeiro é o Happy Boss do ano

A par da divulgação das conclusões do estudo Happiness Works foram ainda atribuídas distinções às 20 empresas mais felizes de Portugal e o galardão de Happy Boss, que distingue capacidades de liderança e inspiração. O comendador Rui Nabeiro, fundador do grupo Delta Cafés, foi o agraciado deste ano. Mas razões de agenda impediram-no de estar presente na entrega.

“Quando lhe disse que era o vencedor, ele disse: “Ó rapaz! Patrão feliz, eu? Eu quero é que todos se sintam bem a trabalhar aqui na Delta!,” transmitiu Tiago Ferreira, responsável de comunicação da Delta Cafés, em representação de Rui Nabeiro na cerimónia.

“Somos 3 600 pessoas, todos os dias vamos sendo mais um, somos uma família. É inspirador trabalhar com o comendador Rui Nabeiro. Continua a acreditar que trabalhando em conjunto vamos não só conseguir uma empresa melhor mas um País melhor,” concluiu.