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"O Que Não Acontece": O movimento e a palavra dançam no Teatro Nacional D. Maria II

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“Tentámos perceber como é que o gesto consegue sublinhar, e até acrescentar, o discurso verbal”, diz Sofia Dias que assina e interpreta, com Vítor Roriz, esta coreografia

Filipe Ferreira

A vida é demasiado voraz, e nós somos, muitas vezes, limitados pela nossa capacidade de fixá-la, de nominá-la, através dos gestos que fazemos e dos discursos que proferimos. Sofia Dias e Vítor Roriz substituem, aqui, “vida” por “imaginários” – os imaginários que são construídos por cada espectador, cada indivíduo. É como se os movimentos e as palavras de cada um perdessem vontade própria e fossem apropriados por esse turbilhão – um descontrolo que começa por ser luminoso, próprio da descoberta, mas que, com a repetição, depressa cria no espectador uma sensação de falta. Como repete Vítor Roriz a certa altura em O Que Não Acontece, espetáculo integrado no Alkantara Festival: “Tudo a continuar como quem começa alguma coisa”; “Tudo a continuar ao mesmo tempo, sempre ao mesmo tempo.”

“Neste trabalho, tentámos perceber como é que o gesto consegue sublinhar, e até acrescentar, o discurso verbal; vai a favor do discurso, sugerindo outras narrativas, outros significados”, diz Sofia Dias. “Como se o imaginário fosse o fio condutor do gesto. Cada palavra tem um universo atrás dela, e cada palavra remete para algo no nosso imaginário”, complementa Vítor Roriz. “Quando sabemos antecipadamente o texto, o gesto tem a capacidade de antecipar, ou vir mais tarde, retirando a hegemonia à palavra.”

O escritor austríaco Peter Handke tem uma frase em que diz: “Vivo daquilo que os outros não sabem de mim.” É o que a coreografia de Sofia Dias e de Vítor Roriz encontra necessidade de introduzir a certa altura, por entre o abismo do excesso de significação das pequenas narrativas apresentadas em palco: introduz momentos de inanidade. “Queremos criar uma espécie de vazio e contrariar uma certa eficácia que as nossas peças têm sempre. Há, talvez, algum virtuosismo no gesto, mas estamos a tentar aplacar essa necessidade constante”, explica Vítor. “É quase um trânsito entre um gesto utilitário e outro abstrato”, diz Sofia. “É sempre esse trânsito entre o imaginário que é chamado pelo discurso e o imaginário que é reforçado pelo corpo...”

O que não acontece > Teatro Nacional D. Maria II > Pç D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > 31 mai-2 jun, qui 21h, sex-sáb 19h > €6-€12