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E se houvesse um apocalipse de zombies no Teatro Nacional D. Maria?

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Ex-Zombies:uma conferência é a proposta do brasileiro Alex Cassal para pensar em palco a questão da higienização da sociedade. Para ver no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até 27 de março, Dia Mundial do Teatro

Nesta espécie de conferência à beira do abismo, quatro especialistas analisam a crise que nos rodeia em busca de estratégias de sobrevivência

Nesta espécie de conferência à beira do abismo, quatro especialistas analisam a crise que nos rodeia em busca de estratégias de sobrevivência

Filipe Ferreira

É o cenário do apocalipse. Imaginemos que num mundo de zombies restam apenas alguns humanos, que se barricaram no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. No Rossio, a tentar penetrar no edifício, estão hordas de mortos-vivos com uma vontade insaciável de comer humanos. Dentro de portas decorre uma conferência de imprensa dada por três atores residentes e um estagiário: “Bem-vindos a este oásis da ficção.” Ninguém está seguro.

“A porta está aberta para o caos. Todos podem virar zombie, inclusive o espectador”, diz à VISÃO Se7e, com sotaque do Brasil, o autor do texto e encenador da peça, Alex Cassal. “Se pensarmos em termos de metáfora, trata-se da forma como a gente se relaciona com o outro. Não é o outro fixo, o outro enquanto refugiado, preto, mulher, indígena... É mais o que é que o outro significa para mim. Trata-se de uma forma de tradução do mundo onde parece difícil o outro ser diferente de mim.”

“Os zombies são assim: eles comem tudo e não deixam nada.” “Eles não pensam, ponto.” “É um erro muito comum achar que se é imune a esta praga.” Ao longo da peça, ouvimos excertos de, entre muitos outros, autores como José Afonso, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir, Max Brooks, Chico Buarque, Luís de Camões, Lili Caneças ou Adolfo Luxúria Canibal e Miguel Pedro. A proposta é a de virar o bico à ideia de uma capa de ignorância que cobre o mundo – os miolos são os primeiros a ser comidos – e de tomar o destino nas próprias mãos. “Não deixa de ser curiosa a importância da ideia de extinção”, continua Cassal. “Se não fizermos alguma coisa, sim, vai acontecer.”

O estagiário foi o primeiro sacrificado. Depois de uma dança-luta de transformação, o corpo do estagiário (representado à vez pelos atores João Estima e Sara Inês Gigante) cai morto e jaz no chão. A respiração acelerada a fazer-se notar no tórax do ator é um dispositivo do teatro que, aqui, serve bem a história. Acaba por ser um toque de resiliência a lembrar-nos de que ainda estamos vivos, de que ainda vamos a tempo.

Teatro Nacional D. Maria II > Praça D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > até 27 mar, qua 21h30, qui-sáb, 19h > €6 a €12