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'Foco Deslocações': Cicatrizes em palco

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Dorotheé Munyaneza e Mithkal Alzghair deixam testemunhos sobre os cenários de guerra dos países de origem: o Ruanda e a Síria. E sobre a decisão de ficar ou de partir. Dois espetáculos incluídos no ciclo Foco Deslocações, para ver esta sexta-feira e sábado, dias 3 e 4, no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto

Em Displacement, o coreógrafo e bailarino sírio Mithkal Alzghair questiona a sua herança num contexto de exílio

Em Displacement, o coreógrafo e bailarino sírio Mithkal Alzghair questiona a sua herança num contexto de exílio

Como é possível inscrever artisticamente acontecimentos traumáticos, que deixam páginas de sangue na História? Como falar do indizível, do horror? É a partir destas questões que se constroem os dois espetáculos incluídos no Foco Deslocações, uma proposta do Teatro Municipal do Porto, que inclui ainda encontros com artistas, workshops e sessões de cinema.

Após 20 anos a viver longe do Ruanda, a refletir e a escrever sobre o que se passou no genocídio de 1994 (800 mil mortos em 100 dias), a cantora, autora e coreógrafa Dorotheé Munyaneza conseguiu expor os seus ferimentos de guerra em palco. Samedi Détente, apresentado esta sexta, 3, no Campo Alegre, foi o seu primeiro grande trabalho coreográfico, de projeção internacional, misturando dança, música e palavras, sempre com a preocupação de dar voz àqueles que morreram no seu país de origem. Falando também da sua própria experiência de vida, já que Munyaneza escapou, miraculosamente, à chacina, instalando-se em Inglaterra com os pais (tinha apenas 12 anos). A artista, que compôs a banda sonora original do filme Hotel Ruanda, também dará um concerto no sábado, 4, no Rivoli, entrelaçando música popular e experimental.

Natural da Síria, o coreógrafo e bailarino Mithkal Alzghair, por sua vez, traz ao Porto Displacement, um solo e um trio onde questiona a sua herança num contexto de exílio. A tradição folclórica síria é envolta no contexto do conflito, como se estes corpos passassem a carregar as marcas dos regimes autoritários, da revolução, da guerra e do deslocamento, confundindo-se a dança com uma marcha militar. A questão do exílio e o modo como mexe com a identidade, entre a cultura que se deixou para trás e a do país de acolhimento, é também alvo do trabalho de Alzghair, atualmente a viver em França.

Ambos os artistas participarão no encontro Registo e Refúgio, que terá lugar no sábado, 4, às 15 horas, no café-teatro do Campo Alegre, para falar sobre os atos de resistência dos deslocados.

Foco Deslocações > Teatro Municipal Campo Alegre > R. das Estrelas, Porto > T. 22 606 3000 > 3-4 mar, sex-sáb 21h30 > €10, €12 (blihete conjunto inclui entrada para os 2 espetáculos + Concerto + 2 sessões de cinema)