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'A Lisboa que Teria Sido': uma exposição para imaginar como seria a cidade

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Os projetos encomendados para a cidade que nunca saíram do papel mostram-se na exposição A Lisboa que Teria Sido. Para ver no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta até junho

Gravura, segundo desenho de François Marca, da (futura) grande praça de Lisboa, século XVIII (2ª metade)
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Gravura, segundo desenho de François Marca, da (futura) grande praça de Lisboa, século XVIII (2ª metade)

Museu de Lisboa

Maqueta em gesso, madeira e cartão do Parque da Liberdade, Raul Carapinha (historiador) e Luis Augusto Duarte Silva (maquetista), 1922. O Parque da Liberdade, atual Parque Eduardo VII, demorou muito tempo a sedimentar naquilo que é hoje, com os projetos a serem sucessivamente reformulados entre os finais de 1800 até à decada de 1930. O desenho que conhecemos é do arquiteto Keil do Amaral, não tendo chegado a ser construído o Palácio da Cidade, a coroar o topo
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Maqueta em gesso, madeira e cartão do Parque da Liberdade, Raul Carapinha (historiador) e Luis Augusto Duarte Silva (maquetista), 1922. O Parque da Liberdade, atual Parque Eduardo VII, demorou muito tempo a sedimentar naquilo que é hoje, com os projetos a serem sucessivamente reformulados entre os finais de 1800 até à decada de 1930. O desenho que conhecemos é do arquiteto Keil do Amaral, não tendo chegado a ser construído o Palácio da Cidade, a coroar o topo

Museu de Lisboa

Melhoramento estético ao Rossio, Cottineli Telmo, 1935 (tinta-da-china s/ papel). Em 1934 é lançado um concurso para reformular o Rossio, considerado desajustado à cidade-capital. A proposta mais radical de todas é a de Carlos Ramos que faz tábua rasa da praça, mas impressiona pela sua modernidade. O júri, esse, não se atreveu a declarar um vencedor e atribuiu um segundo prémio a Cottinelli Telmo que propunha a construção de uns arcos de passagem na extremidade dos edifícios. Ao projeto ainda se equacionou dar-lhe alguns “retoques”, mas não passou do papel
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Melhoramento estético ao Rossio, Cottineli Telmo, 1935 (tinta-da-china s/ papel). Em 1934 é lançado um concurso para reformular o Rossio, considerado desajustado à cidade-capital. A proposta mais radical de todas é a de Carlos Ramos que faz tábua rasa da praça, mas impressiona pela sua modernidade. O júri, esse, não se atreveu a declarar um vencedor e atribuiu um segundo prémio a Cottinelli Telmo que propunha a construção de uns arcos de passagem na extremidade dos edifícios. Ao projeto ainda se equacionou dar-lhe alguns “retoques”, mas não passou do papel

Museu de Lisboa

Hotel Hilton - perspectiva de localização em vista panorâmica a 180º, F. Guerra, 1962 (atrib.). A proposta para a construção de um hotel Hilton junto à Estação de Santa Apolónia, que incluía também uma linha de prédios de habitação ao longo da Rua dos Caminhos de Ferro, tapava toda a colina e "esmagava" o edifício do Museu Militar
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Hotel Hilton - perspectiva de localização em vista panorâmica a 180º, F. Guerra, 1962 (atrib.). A proposta para a construção de um hotel Hilton junto à Estação de Santa Apolónia, que incluía também uma linha de prédios de habitação ao longo da Rua dos Caminhos de Ferro, tapava toda a colina e "esmagava" o edifício do Museu Militar

Praça do Comércio da cidade de Lisboa, Gaspar Frois Machado (atribuído), século XVIII (2ª metade). A solução final para a Praça do Comércio, coordenada por Eugénio dos Santos, foi encontrada por fases, uma delas fixada nesta gravura de Gaspar Frois Machado onde o Arco da Rua Augusta teria uma torre sineira
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Praça do Comércio da cidade de Lisboa, Gaspar Frois Machado (atribuído), século XVIII (2ª metade). A solução final para a Praça do Comércio, coordenada por Eugénio dos Santos, foi encontrada por fases, uma delas fixada nesta gravura de Gaspar Frois Machado onde o Arco da Rua Augusta teria uma torre sineira

Projecto de ordenamento urbanístico do Martim Moniz, Eduardo Paiva Lopes e Aníbal Barros da Fonseca, 1967. Madeira, acrílico e cartão. No início da década de 1930, para ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio e sacrificando grande parte da Rua da Palma, cria-se um novo lugar denominado de Martim Moniz. Mais tarde, com o domínio do automóvel, havia que criar soluções para escoar o trânsito, com propostas a furar as colinas de Lisboa com túneis
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Projecto de ordenamento urbanístico do Martim Moniz, Eduardo Paiva Lopes e Aníbal Barros da Fonseca, 1967. Madeira, acrílico e cartão. No início da década de 1930, para ligar a Avenida Almirante Reis ao Rossio e sacrificando grande parte da Rua da Palma, cria-se um novo lugar denominado de Martim Moniz. Mais tarde, com o domínio do automóvel, havia que criar soluções para escoar o trânsito, com propostas a furar as colinas de Lisboa com túneis

Museu de Lisboa

Está transformado em atelier de arquiteto, o Pavilhão Preto do Museu da Lisboa – Palácio Pimenta. Nada de vitrinas convencionais, portanto, para mostrar desenhos, fotografias, projetos de urbanismo e arquitetura que propunham mudar a cidade, mas não chegaram a sair do papel. A exceção vai para a maqueta de 1922 do tão sonhado e desejado Parque da Liberdade, pertença do museu e restaurada para a exposição A Lisboa que Teria Sido, que abre ao público esta sexta-feira, 27.

O Parque da Liberdade (atual Parque Eduardo VII) é um dos núcleos em destaque, não só pela curiosa maqueta em gesso, madeira e cartão. Mas porque esta ideia de construir um grande parque urbano há de prolongar-se no tempo, com mil e uma propostas”, justifica António Miranda, comissário da exposição. O primeiro projeto é de H. Lusseau, vencedor do concurso internacional de 1887. “Implicava um investimento tremendo e, ainda que tenha sido reformulado, foi sendo sucessivamente adiado”. Uma dessas soluções passava por lotear a envolvente com moradias, à imagem do Parque Monceau, mas uma burguesia endinheirada era coisa que não abundava e Lisboa não era Paris. Em 1912, também Ventura Terra se inspiraria na capital francesa, ao propor, para o topo do parque, um Pavilhão de Exposições que é uma cópia do Petit Palais.

“Tornar Lisboa monumental era um desígnio”, diz o comissário. “À exceção da Praça do Comércio, a arquitetura pombalina era então – e até muito recentemente –, considerada soturna, aborrecida, para usar alguns dos epítetos da época, e pouco digna de uma capital”. Francisco de Holanda é o primeiro a levantar a questão, ainda no século XVI, num documento enviado a D. Sebastião, onde fala já da necessidade de trazer as águas para a cidade que jorrariam em fontes-monumentos em forma de elefantes, ali no Rossio e no Terreiro do Paço.

Além do chamado eixo central, a exposição foca outros pontos da cidade como o Martim Moniz, para falar do (sempre latente) problema do escoamento do trânsito – com propostas a esventrar as colinas com túneis – e ainda a (deficitária) ligação da Baixa à frente ribeirinha. Outro destaque é o projeto VALIS, do início de 1990, que pretendia valorizar as portas de Lisboa pois, à exceção da Ponte 25 de Abril, em que a cidade se abre a quem chega, todas as entradas se faziam pelas “traseiras”.

Para chegar aos cerca de 200 documentos expostos, em grande parte do espólio do museu, contribuíram a Câmara Municipal, a Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros arquivos municipais. Do atelier do arquiteto Manuel Graça Dias veio a maqueta da Manhattan de Cacilhas, e ainda um filme em 3D, pois importa também perceber a ligação de Lisboa à outra margem. “Tivéssemos nós capacidade financeira e logo no século XVIII tinha-se começado a deitar abaixo Lisboa”, nota António Miranda. Imaginar como seria a cidade é, pois, o exercício que se convida a fazer. Mas sem juízos de valor.

Para a exposição foi encomendado um levantamento fotográfico de Lisboa onde estão assinalados alguns projetos mais recentes, como as Torres do arquiteto Siza Vieira que, em 2003, propôs, para os terrenos da antiga fábrica Sidul, em Alcântara, a construção de três edifícios com 105 metros de altura, a ultrapassar o tabuleiro da Ponte 25 de Abril.

A Lisboa Que Teria Sido > Museu de Lisboa – Palácio Pimenta > Campo Grande, 245, Lisboa > T. 21 751 3200 > 27 jan-25 jun, ter-dom 10h-18h (última entrada às 17h30) > €3 (inclui entrada em todos os espaços do museu)