Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

Crónica por Lisboa: Lustre na padaria

Sair

Os lugares da cidade, as histórias escondidas e os pequenos prazeres. A crónica quinzenal Por Lisboa, pela jornalista Rosa Ruela

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Sempre ali se entrou pelo pão. É verdade que a certa altura também a doçaria e as refeições em modo “Pepe Rápido” começaram a atrair mais pessoas ao número 209 da Rua Silva Carvalho. Mas, para mim, por uma vez a frase “Eu é mais bolos”, do pasteleiro José Severino (obrigada, Herman!), não se aplica. Ir à Panificação Mecânica, ao virar da esquina dos Alunos de Apolo, na fronteira Campo de Ourique-Amoreiras, é muito querer encher os olhos de coisas bonitas.

Antes de entrar, há todo aquele ferro pintado de verde e as duas grandes montras a deixarem respirar a fachada ao nível do rés do chão. Uma vez lá dentro, a confusão visual criada pelos espelhos não consegue distrair-nos dos azulejos saídos da Fábrica Bordalo Pinheiro, cheios de flores coloridas, espigas de trigo, borboletas arregaladas e avezinhas apanhadas em voo. Juntos com o estuque trabalhado e as pinturas decorativas, eles fazem desta loja um arraial de Arte Nova.

Os fornos de pão apareceram ali em 1902, numa época em que a Silva Carvalho ainda se chamava Rua de São João dos Bem Casados, por causa da vizinha quinta com o mesmo nome. Um pouco mais tarde, seria uma das primeiras padarias da cidade com fabrico mecânico. Hoje, são também os seus lustres – anacrónicos e românticos – que ficam na memória de quem entra.