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O fim da linha no livro "Vida à Venda", de Yukio Mishima

Livros e discos

Obra crepuscular, encena, com humor negro, os fantasmas do autor japonês sobre morte e suicídio. Um dos últimos livros de Yukio Mishima, Vida à Venda, chegou às livrarias

Vida à Venda (Livros do Brasil, 216 págs., €16,60) é uma história originalmente publicada na edição japonesa da revista Playboy, durante o ano de 1968, e um dos últimos livros do autor. Mantém-se sem rugas

Vida à Venda (Livros do Brasil, 216 págs., €16,60) é uma história originalmente publicada na edição japonesa da revista Playboy, durante o ano de 1968, e um dos últimos livros do autor. Mantém-se sem rugas

Um dos efeitos do capitalismo moderno é ter fecundado a ideia de que tudo é transacionável. O protagonista de Vida à Venda testa esta premissa, transformando-a num teatro do absurdo em que ecoam Kafka e Raymond Chandler: Hanio Yamada, publicitário de 27 anos, decide matar-se após ler, indiferente, o jornal de 29 de novembro. Mas o gatilho para esse “capricho” funesto e definitivo é a visão de uma repugnante barata em cima das folhas caídas, que lhe suscita esta ideia tumular: “O mundo reduz-se a isto e a nada mais do que isto.” E Hanio empreende os ritos fúnebres: compra sedativos, assiste a uma sessão tripla de cinema, visita um bar de engate onde a sua decisão suicidária desperta apenas o sorriso de uma rapariga tola, apanha o “último comboio da sua vida”. Despertará dorido e, como “não é possível ter dores de cabeça no céu”, percebe que a tentativa de suicídio falhou.

Renasce, então, anunciando a venda da sua existência e esperando por clientes: um velho traído que deseja vingança sobre a jovem que o trocou por outro, uma idosa tentada pelo “mo-nee” norte-americano, um rapaz com uma mãe vampira... Em tudo reverbera a entrelinha existencial, o trocadilho negro. Deitado na cama com a volúvel Ruriko, à espera de ser assassinado pelo novo amante dela, Hanio prolonga a situação “com a perfeita consciência de que o seu destino era morrer”. E Hanio sobrevive, barata metafórica. Ao contrário de Yukio Mishima (1925-1970), que, aqui, aborda tudo o que o fez suicidar-se: a queda do Japão dos samurais, o fascínio pelo Ocidente, a sublimação da morte.