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"Luanda, Lisboa, Paraíso": A queda dos anjos no segundo romance de Djaimilia Pereira de Almeida

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Dita prova de fogo, o segundo livro da autora confirma uma voz singular, num romance que acerta contas com (des)ilusões pós-coloniais

DR

Aquiles foi batizado com “nome helénico” pelo pai, que assim tentou “resolver o destino com a tradição” perante o infortúnio genético da criança ter nascido com um calcanhar esquerdo avariado. É nesta circunstância fortuita que, com a força e o simbolismo do mito grego, se anunciará o desabamento da casa, futuro, afetos e dignidade, dos Cartola de Sousa. “Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar”, lança Djaimilia Pereira de Almeida às primeiras linhas deste romance pungente, lírico, contido, serzido com simbolismos e imagens poderosas, que, em 200 páginas, narra uma demanda sacrificial marcada pelos acidentes da vida e pelo desfazer das ilusões pós-colonialistas.

O pretexto da ida de Aquiles e do pai, Cartola, a Lisboa, dez anos após a independência de Angola, para que o então adolescente de 15 anos fosse operado ao pé e ressuscitasse, ágil como Lázaro, é o evento-âncora para uma viagem literária entre o passado e o futuro, entre o texto e os registos epistolares (as cartas trocadas entre Cartola e a mulher doente, Glória, a “única negra fula de luvas de renda e saltos-agulha admitida no Hotel da Ponte Branca”), entre sonho e realidade, chorinho e fado.

A Lisboa mitificada resvalará para fora do postal ilustrado: o protetor prometido, Barbosa da Cunha, médico branco encostado à vaidade e condescendência da elite dominadora, sacudirá responsabilidades; a pobreza sem documentos levá-los-á até às margens menos triunfantes da história (a periférica Quinta do Paraíso, a miséria e os canteiros da construção civil clandestina e mal paga, onde o galego Pepe será uma jangada emocional). Se O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, destapou as dores de regresso dos filhos pródigos, Luanda, Lisboa, Paraíso revela órfãos, inocentes e digníssimos, da História.

Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhia das Letras, 232 págs., €16,50), encimado por ilustração de Susa Monteiro, é o segundo livro da autora, após Esse Cabelo, estreia celebrada numa narrativa identitária que parte dos cabelos crespos para uma grande viagem literária