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'Quando as Girafas Baixam o Pescoço': O retrato do País em crise, por Sandro William Junqueira

Livros e discos

Buracos na urbanização, buracos na alma. Partindo de um bairro complicado, o livro Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira, é o retrato do País em crise, por dentro e por fora

Sandro William Junqueira escreveu um livro de capítulos curtos e líricos que quase funcionam como microcontos

Sandro William Junqueira escreveu um livro de capítulos curtos e líricos que quase funcionam como microcontos

Jorge Vaz Gomes

A Mulher dos Lábios Vermelhos atira limões pela janela para acertar em aves intrometidas, ou espreme-os, lascivamente, em partes do corpo. Há uma “luz cor de limão” na casa onde vivem a Irmã Móvel e a Irmã Quieta, onde o sol é um simples ovo estrelado. Há um envelope amarelo no apartamento da Mulher Gorda, que é uma memória, essa “ âncora que nos prende ao Inferno”. Há lombadas amarelecidas na casa do Homem que Gosta de Livros, com milhares de palavras que o separam da mulher.

Sob um toldo amarelo, está a retrosaria onde Cátia com C de Cão tem frio e lembra o seu país longínquo. O ouro de um fio rutila no peito de um pintas, dentro do elétrico. E há arboricídios nos jardins municipais feitos por funcionários de coletes cítricos. Tudo isto evoca o título do romance anterior de Sandro William Junqueira: No Céu Não Há Limões. Aqui, em Quando as Girafas Baixam o Pescoço, nem homens nem árvores morrem de pé, o paraíso prometido não chega, o coração apodrece de mágoa ou desistência.

A Rapariga Magra, cheia de rancores à família e às calorias, sabe-o bem, por causa dos programas sobre a Natureza que a mãe vê: “Na girafa, devido ao comprimento do seu intransigente pescoço, o coração situa-se demasiado longe da cabeça. Só quando a girafa se baixa para beber água é que a cabeça se aproxima do coração. E só devido a um excecional e complexo sistema vascular é que a cabeça não se lhe rebenta quando volta a erguer o pescoço.”

O lote 19, onde sobrevivem todos, é uma selva que retrata os esquecidos pela marcha triunfante do êxito, os alvos da crise − de todas as crises. Um negativo revelado em capítulos curtos e líricos que quase funcionam como microcontos, entradas em cena à medida dos destinos inacabados que ecoam a epígrafe de Manoel de Barros: “A gente é rascunho de pássaro/ não acabaram de fazer”. No início, o Velho atirará sementes para a caixa do futuro lote 17 com uma prece: “Que a chuva antiga chegue antes do novo empreiteiro.” Não será atendida.

Quando as Girafas Baixam o Pescoço (Caminho, 192 págs., €14,90) é o quarto romance do autor, após O Caderno do Algoz (2009), Um Piano para Cavalos Altos (2012) e No Céu Não Há Limões (2014).