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'O Coração É um Caçador Solitário', de 
Carson McCullers: Pronúncia do Sul

Livros e discos

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Em ano de centenário, a obra que lançou a carreira, precoce e fugaz, da norte-americana Carson McCullers, aparece em nova tradução. O Coração É um Caçador Solitário já está à venda nas livrarias

Pela vida breve e pelos amores errantes, a norte-americana Carson McCullers (1917-1967) é ainda hoje autora de culto

Pela vida breve e pelos amores errantes, a norte-americana Carson McCullers (1917-1967) é ainda hoje autora de culto

Tudo estava preparado para uma carreira musical. Mas uma doença levou-a a mudar o rumo para as letras. Perdeu-se a pianista, ficou a escritora. Se dos sons pouco ou nada sabemos, da capacidade de entrar pelo seu sul natal adentro ficámos preenchidos. Carson McCullers (1917-1967) começou a publicar aos 17 anos, e aos 23 já dava à estampa este O Coração é um Caçador Solitário. Aí demonstra a verve da contadora de histórias que encontra, na esquina de uma qualquer cidade sulista dos Estados Unidos, a capacidade de destrinçar densas teias psicológicas.

No centro da trama está John Singer, um surdo-mudo que acaba por agregar quase toda a pequena comunidade à sua volta – um paradoxal ouvinte paciente que nada ouve e que nada diz em resposta aos que dele se aproximam. Há ainda uma adolescente fascinada pela música, filha dos donos da pensão que alberga Singer. E ainda um socialista alcoolizado, um dono de um pequeno café frequentado pelo protagonista com a cadência de um relógio suíço e um invulgar, para a época, médico negro.

A autora expõe esta comunidade pequena com minúcia e crueza. Alguns dos ingredientes do southern gothic que outros seus contemporâneos iriam seguir estão lá. A violência sobre a comunidade negra, por exemplo, percorre o romance em todas as suas contradições; a pobreza daquela sociedade pode ser extrapolada a muitas outras e todos vivem à margem, tal como se pode ver noutras obras de McCullers. No fim, o que conta é esse desenraizamento, “porque alguns homens optam por se distanciarem dos seus sentimentos, e assim evitam ser consumidos por eles”, diz a narradora em jeito de sentença.

Pela vida breve (os problemas de saúde sempre a acompanharam) e pelos amores errantes (foi casada, separou-se e apaixonou-se por várias mulheres), Carson McCullers é ainda hoje autora de culto. Muitos prestam-lhe homenagem. A mais recente é de Suzanne Vega, que lhe dedicou um álbum em 2016 (Lover, Beloved: Songs from an Evening with Carson McCullers), a partir de uma peça que escreveu e interpretou, Carson McCullers Talks About Love.

O Coração é um Caçador Solitário (Relógio D’Água, 328 págs., €17) marca a afirmação de Carson McCullers que ainda publicaria, entre outros romances, recolhas de contos e poemas, A Balada do Café Triste ou Frankie e o Casamento.