Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

'Tudo Por uma Boa História': Os cínicos não servem 
para este ofício

Livros e discos

Em plena crise, 24 jornalistas explicam, em textos breves, os encantos da sua profissão, cada vez mais em risco. Tudo Por uma Boa História – Confidências e Relatos de Jornalistas Portugueses já está à venda nas livrarias

“Empatia: forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com uma pessoa, uma ideia ou uma coisa.” Começamos por uma definição de dicionário (neste caso, o Priberam), porque este conceito é a chave para entender uma profissão que o jornalista polaco Ryszard Kapuściński descreveu como ofício para o qual os cínicos não servem. Se é difícil entender hoje a empatia, num mundo crivado de muros e interdições (políticas, religiosas, económicas), talvez também por isso se perceba porque a profissão de jornalista está em risco.

Sob a égide do Sindicato dos Jornalistas, que em janeiro organizou um congresso marcado por outros conceitos, como os de crise, desemprego, descrédito e desmotivação, este livro serve para que a profissão está viva e é mais necessária do que nunca. Jornalistas como Cândida Pinto e Carlos Daniel, ou de outra geração mais nova, como Tiago Carrasco – bom exemplo do repórter atual, preso numa precariedade permanente –, mostram, com base em experiências próprias, o encanto dessa empatia, da descoberta do Outro, privilégio dos jornalistas. O testemunho de José Pedro Castanheira, repórter do Expresso, sobre um dos seus trabalhos mais emblemáticos, o do português pioneiro da Al-Qaeda, é disso exemplo. Ou Catarina Gomes, que para o Público escreveu a história dos “filhos do vento”, crianças que resultavam dos encontros de soldados portugueses com as mulheres locais na Guerra Colonial.

Neste caminho acidentado, quase tudo é uma boa história. Até a que não se escreveu. Rui Cardoso Martins mortifica-se por não ter reportado a história de 30 homens que faziam a barba na rua, em Praga. Tinham prometido nunca mais a cortar enquanto houvesse um soldado soviético no país. O repórter testemunhou o momento histórico mas... estava de férias e cansado dos primeiros e alucinantes tempos do Público. Mais vale tarde do que nunca.

Tudo por uma Boa História – Confidências e Relatos de Jornalistas Portugueses (A Esfera dos Livros, 200 págs., €13,50), com coordenação de Anabela Natário, Isabel Nery e Sofia Branco, reúne textos de 24 jornalistas sobre a sua profissão