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A época da lampreia está aí, para quem a chame de divina, como o poeta

Comer e beber

Afonso Lopes Vieira dedicou-lhe poemas e, por todo o País, não faltam apreciadores a organizar excursões para saborear o célebre ciclóstomo. Do Alto Minho a Lisboa, seleção de 10 restaurantes onde tem sempre garantido, até meados de abril, um prato de lampreia

O Gaveto, em Matosinhos, é um dos restaurantes onde não falta a especialidade

O Gaveto, em Matosinhos, é um dos restaurantes onde não falta a especialidade

Rui Duarte Silva

Das janelas do restaurante O Moinho, em Ponte da Barca, consegue-se assistir à agitação das águas límpidas do Vade, um afluente do Rio Lima. A localização do antigo moinho foi bem aproveitada pelos proprietários para manter a lampreia, uma especialidade da região, em condições excecionais. Após a pesca, o ciclóstomo é guardado durante cerca de uma semana em tanques cavados no próprio leito do rio. “Quanto mais bater na rocha, mais rija e saborosa fica a lampreia”, conta António Meireles, o proprietário, com previsão de casa cheia nos próximos fins de semana. “Somos dos restaurantes mais procurados da zona, ninguém tem estas condições”, sublinha. Há 40 anos que a mulher de António cozinha com mestria a espécie, em arroz ou à bordalesa, garantindo uma clientela fiel até meados de abril.

No Alto Minho, a lampreia tem história e tradição. A época (entre janeiro e, normalmente, a Páscoa, dependendo das temperaturas) é aguardada com fervor, em quase todas as localidades. É o caso de Ponte de Lima, em cozinhas regionais como a do restaurante A Carvalheira, onde a “rainha do inverno”, como também é conhecida, é servida à bordalesa, assada no forno ou em arroz. Também em Melgaço é protagonista, nomeadamente na Adega do Sossego, seja como prato principal (em arroz ou à bordalesa) ou como entrada, em versões patanisca, assada na brasa, enrolada com presunto e chouriço (uma inovação da casa, para quem resista ao seu sabor forte), ou seca (na verdade, defumada), uma receita antiga da região, usada para conservação do ciclóstomo. Ali, como é natural, só entra a lampreia capturada no Rio Minho.

Noutros pontos do País, os exemplares do Minho são igualmente privilegiados. “É dos rios portugueses com maior caudal e com águas mais cristalinas, que fazem a diferença”, assegura José Silva, responsável pelo restaurante O Gaveto, um dos locais em Matosinhos onde a lampreia é tratada com esmero, sobretudo à bordalesa, mas também em arroz. Em Lisboa, também se encontram lugares seguros para saborear a iguaria, fresca e bem cozinhada, como o Solar dos Presuntos ou o Tico Tico e Novo Rio, ambos dedicados à gastronomia de expressão minhota.

Um pouco mais a norte, em Samora Correia, nos terrenos da Companhia das Lezírias, na beira do Tejo, já são os exemplares deste rio a abastecer a cozinha do restaurante A Coudelaria, desde a sua abertura, há 23 anos. “Só sirvo quando há lampreia de boa qualidade no mercado de Vila Franca de Xira,”, assegura Carlos Samora, o cozinheiro e proprietário. Serve-a em arroz ou panada e, este ano, vai experimentar a versão fumada.

Já em Coimbra, no restaurante Nacional, não podia faltar a lampreia do Mondego, feita com arroz da região. “Faz toda a diferença, ao nível da goma”, sublinha Filipe Viseu, o responsável. Logo no início do ano, começam a receber os telefonemas dos apreciadores, a fazer marcação de mesas. O mesmo acontece na Quinta do Barco, em Sever do Vouga, onde são servidos ciclóstomos captados no Baixo Vouga. “Este ano temos bichinhos muito grandes”, garante Armando Mendes, o proprietário, preparados mais uma vez à bordalesa ou em arroz. Para saborear com a paisagem bucólica do rio Vouga à espreita. A vista é outra no Margem Douro, em Gondomar, mas a iguaria é uma das especialidades da casa e nunca falta nesta época. Aguardam-se as excursões.

No Solar dos Presuntos, em Lisboa, a lampreia serve-se como prato principal e também como entrada, de escabeche

No Solar dos Presuntos, em Lisboa, a lampreia serve-se como prato principal e também como entrada, de escabeche

Mário João

O Moinho > Campo do Corro, 1, Ponte da Barca > T. 258 452 035 e 91 943 4272 > qua-seg 12h-16h, 19h-24h > €90 (grande), €70 (pequena)

A Carvalheira > R. do Eido Velho, 73, Ponte de Lima > T. 258 742 316 > ter-sáb 12h30-15h, 19h30-22h, dom 12h30-15h > €65

Quinta do Barco> Av. Joaquim Martins, 151, Grela, Sever do Vouga > T. 234 556 246 > ter-qui 12h-14h30, sex-sáb 12h-14h30, 19h-22h > €70

O Gaveto > R. Roberto Ivens, 826, Matosinhos > T. 22 937 8796 > seg-dom 12h-24h > €100 (inteira)

Nacional > R. Mário Pais, 12, 1º, Coimbra > T. 239 829 420 e 917 570 856 > seg-sáb 12h-15h, 19h-22h30 > €28 a dose

Adega do Sossego > Peso, Melgaço > T. 251 404 308 > qui-ter 12h-15h, 19h-22h > €75 (inteira), €35 por pessoa menu semanal

Margem Douro > EN 108, km 4, S. Cosme, Gondomar > T. 22 454 1852 > ter-sáb 12h-15h, 19h30- 22h30, dom 12h-15h > € 90 inteira; meia lampreia € 55; dose, € 35

A Coudelaria > Monte de Braço de Prata, Porto Alto, Samora Correia > T. 263 654 985 > ter-dom 12h-15h > jantares por marcação para o mínimo de 20 pessoas > encerra nos feriados nacionais > €25 a dose

Novo Rio e Tico-Tico > Av. Rio de Janeiro, 19C-19D-21, Lisboa > T. 21 849 1495 e 21 849 2351 > seg-dom 12h-23h > €30 por pessoa

Solar dos Presuntos > R. das Portas de Santo Antão, 150, Lisboa > T. 21 342 4253 > seg-sáb 12h-15h30, 19h-23h > €28 dose, €79 inteira