Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Uma direita sem programa – Porquê?

Nessa aposta, a do discurso do medo, que é sempre um discurso de radicalização, a direita roubou espaço a si mesma. Não acertou uma. E por isso falhou no seu próprio papel

Já foi aprovado na generalidade o Orçamento do Estado (OE) para 2019 pelo PS, por todos os partidos da esquerda parlamentar e pelo PAN. Trata-se de uma maioria parlamentar alargada que corresponde ao apoio social também alargado que esta solução de governo merece.

O PSD e o CDS não têm verdadeiramente discurso alternativo, sendo que o primeiro, um grande partido do centro-direita, desce vertiginosamente nas sondagens e o segundo não descola.

Há, evidentemente, um concurso de fatores para o declínio da direita portuguesa, mas a aposta no discurso do medo relativamente a uma esquerda caracterizada com adjetivos com cheiro a purgas soviéticas tirou o tapete ao PSD e ao CDS.

Quando relemos a moção de rejeição que a direita apresentou ao programa do atual Governo, ou seja, quando lemos aquela que era a fundamentação para, no entender de PSD e CDS, fazer cair o atual Governo, encontramos um ensaio sobre “como aterrorizar as pessoas lá em casa”. Diziam, à época, e nisso apostaram as fichas todas, que esta solução teria consequências terríveis no aumento da despesa, na queda do investimento, no descontrolo do défice. Com todas as letras, PSD e CDS afirmavam que era preciso derrubar o Governo porque Portugal assistiria a um retrocesso estratégico, a um longo período de estagnação e de desemprego. Entre outras previsões de catástrofe, PSD e CDS amedrontavam o povo com a certeza de que assistiríamos a um radicalismo ideológico à grega que nos conduziria, imagine-se, a um segundo resgate.

Que programa pode ter quem põe as fichas todas no desastre alheio e no discurso populista do medo quando, para mais, não aconteceu nada, nada, do anunciado, mas exatamente o seu contrário?

Quando estamos a aprovar o quarto OE, sem orçamentos retificativos (coisa que em OE anteriores a direita jurava que aconteceria), com resultados muito positivos ao nível do crescimento, do emprego (380 mil postos de trabalho líquidos criados) ou dos números da Segurança Social; quando saímos do procedimento por défice excessivo; quando a confiança dos consumidores e empresários está nos níveis mais altos de há muitos, muitos, anos; quando é aumentado o salário mínimo e recuperada a concertação social; e quando, entre muitos outros indicadores que poderia escolher, o rendimento das famílias cresce, fica demonstrado que há um Governo diferente, uma política diferente e que essa política funciona.

A direita podia ter abandonado o discurso do medo, mas na discussão dos três OE anteriores insistiu na tecla, encheu-se de adjetivos e, ano após ano, anunciou que este Governo tinha previsões delirantes, que as suas contas eram ficção e que a sua estratégia falhara.

Nessa aposta, a do discurso do medo, que é sempre um discurso de radicalização, a direita roubou espaço a si mesma. Não acertou uma. E por isso falhou no seu próprio papel. Não admira, pois, que novas direitas, que nada têm que ver com a democracia-cristã ou com a social-democracia, vejam neste momento a hora exata para tentarem destruir o legado da direita moderada.

(Artigo publicado na VISÃO 1342, de 22 de novembro de 2018)