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Lavar do avesso

Nós lá fora

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA: A minha língua é a minha pátria, mas tenho três línguas

Os passarinhos não usam capacetes, nem têm luvas ou botas de protecção e – contudo - é isto que vivem. É útil ter penas. Os portugueses têm sempre muitas penas, por isso deviam voar mais. Alguns portugueses que voam muito têm peneiras, mas isso é diferente.
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Os passarinhos não usam capacetes, nem têm luvas ou botas de protecção e – contudo - é isto que vivem. É útil ter penas. Os portugueses têm sempre muitas penas, por isso deviam voar mais. Alguns portugueses que voam muito têm peneiras, mas isso é diferente.

As viagens de grupo são sempre menos interessantes, vê-se pouco, nunca há tempo para interagir com os locais, é tudo muito programado. As viagens das águias são mais giras que as dos patos.
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As viagens de grupo são sempre menos interessantes, vê-se pouco, nunca há tempo para interagir com os locais, é tudo muito programado. As viagens das águias são mais giras que as dos patos.

Enfim, nem todos os patos viajam como patos, alguns vivem vidas alternativas. Este pato apareceu disparado do fundo, com um peixinho na boca. Comeu o peixinho a olhar para mim. Muito desconfiado.
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Enfim, nem todos os patos viajam como patos, alguns vivem vidas alternativas. Este pato apareceu disparado do fundo, com um peixinho na boca. Comeu o peixinho a olhar para mim. Muito desconfiado.

Vasco Pinhol

Acho que esta foto nem merece comentários. Estava-se bem na água. Água de bacalhaus.
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Acho que esta foto nem merece comentários. Estava-se bem na água. Água de bacalhaus.

Nas cidades que são atravessadas por canais vindos do mar, que têm barcos, pontões, etc., há sempre uma sensação incontornável de que a natureza é feita de ciclos, como as marés, as ondas, etc. Hoje o vento está a soprar de fora, as ondas estão a entrar cidade adentro. Os barquinhos parecem yo-yo’s. Quando tudo à volta é terra-firme perde-se a sensação de terra-firme. À beira do mar a terra-firme faz sentido. À beira do mar tudo faz mais sentido, não percebo bem porquê.
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Nas cidades que são atravessadas por canais vindos do mar, que têm barcos, pontões, etc., há sempre uma sensação incontornável de que a natureza é feita de ciclos, como as marés, as ondas, etc. Hoje o vento está a soprar de fora, as ondas estão a entrar cidade adentro. Os barquinhos parecem yo-yo’s. Quando tudo à volta é terra-firme perde-se a sensação de terra-firme. À beira do mar a terra-firme faz sentido. À beira do mar tudo faz mais sentido, não percebo bem porquê.

Vasco Pinhol

Esta foto também não merece comentários. Vou tomar café com a minha mulher, que está ali ao fundo à minha espera. Com frio. E com saudades de Portugal.
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Esta foto também não merece comentários. Vou tomar café com a minha mulher, que está ali ao fundo à minha espera. Com frio. E com saudades de Portugal.

Vasco Pinhol

Segunda-feira: É que o frio solidifica tudo, excepto a minha vontade de navegar.

Terça-feira: O meu maior medo é que todos concordem com o que digo.

Quarta-feira: Das características humanas, a superficialidade é a mais universal.

Quinta-feira: Descubro mundo inesperado das máscaras para dormir.

Sexta-feira: Oiço falar de um amigo que está perdido, com a idade.

Sábado: Acordo como sou, porque não tenho alternativa viável. Optimista desde o primeiro berro que dei, à parteira. Tomo um café que põe magicamente tudo preto no branco. Batem à janela do meu escritório. Não oiço o mar, mesmo que feche os olhos. Anoitece a meio do dia.

Domingo: Domingo é o dia em que me assaltam as dúvidas. É o dia da família alargada, mas só tenho família nuclear. É o dia do descanso, mas só quero descansar depois de morrer. A minha língua é a minha pátria, mas tenho três línguas. O meu optimismo é confrontado, arranhado, arrastado até se ajoelhar. O meu optimismo levanta-se e esmurra os contrapontos. Serão estúpidos, os pessimistas? Ou estarão à frente do seu tempo? Saber é melhor que não saber, ou é melhor não saber? Não sei. Mas amanhã é segunda-feira.

E não consigo ser mais Knausgaardiano que isto.

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.