“Muitos humanos preferem acreditar que somos a espécie mais inteligente, mas a única forma de obtermos uma avaliação realista disso seria procurar por outras”

Credit: Lotem Loeb

Avi Loeb, 59 anos, astrofísico de Harvard, é, atualmente, a voz mais proeminente na defesa da existência de vida extraterrestre inteligente, seguindo os passos de Stephen Hawking. Com um passado científico respeitável e largos anos dedicados ao estudo dos buracos negros e das origens do Universo, o israelo-americano foi catapultado para as bocas da opinião pública em 2017, quando, perante o avistamento do Oumuamua, o primeiro visitante interestelar conhecido do nosso Sistema Solar, pelo telescópio Pan-STARRS1, defendeu estarmos na presença de restos de tecnologia extraterrestre. Segundo Loeb, o objeto seria uma vela solar alienígena, um dispositivo extremamente fino, semelhante à vela de um barco de grandes dimensões, impulsionado pela luz do sol. Quatro anos após a polémica, surge Extraterrestres – O Primeiro Sinal de Vida Inteligente para Além da Terra (nas bancas em Portugal a 20 de abril, uma edição da Oficina do Livro, €15,5, 247 pág.), um livro inteiramente dedicado à defesa da sua tese. À VISÃO, Loeb justificou a teoria, assegurou que só uma maior investigação permitirá chegar a respostas mais conclusivas e confessou sentir-se frustrado pela falta de curiosidade demonstrada pela comunidade científica.

O que o levou um cientista de renome a enveredar pela procura de vida extraterrestre?
Comecei por estudar a formação das primeiras estrelas e os buracos negros até que, há cerca de cinco anos, aconteceram duas coisas que me levaram a pensar mais seriamente na procura de vida. Em primeiro lugar, pediram-me para liderar um projeto chamado Starshot, o qual tinha como objetivo chegar a um sistema solar vizinho, no prazo de uma geração, e descobrir se existia lá vida. A segunda coisa foi a descoberta do primeiro objeto vindo de fora do nosso Sistema Solar, o Oumuamua, em 2017. O acontecimento inspirou-me, quase como uma wake-up call, e levou-me a considerar seriamente a possibilidade de existir vida inteligente lá fora.

O que o leva a acreditar, de forma tão veemente, que possa existir vida inteligente noutros pontos do Universo?
O facto de que a maioria das estrelas se formaram milhares de milhões de anos antes do Sol e que metade das estrelas semelhantes a ele tenham um planeta do tamanho da Terra, desbastado na mesma separação. Se repetirmos as mesmas circunstâncias, é provável obtermos resultados semelhantes – é senso comum. Por esta razão, acredito que existiram muitas civilizações semelhantes à nossa, que possivelmente morreram há milhões de anos. Mas, se desenvolveram tecnologias como as nossas, terão, à semelhança daquilo que fizemos com as sondas Voyager 1, Voyager 2 ou New Horizons, lançado equipamentos para o Espaço, relíquias que podemos procurar. Nos últimos 70 anos temos tentado encontrar e usar sinais de rádio, mas isso pressupõe algo semelhante a ter uma conversa telefónica, o que implica que o interlocutor esteja vivo. O que eu defendo é que se comece a fazer arqueologia espacial, que procuremos relíquias de outras civilizações a flutuar no Espaço. Poderíamos aprender muito com elas, inclusive conhecer novas tecnologias que, de outra forma, levaríamos milhões de anos a desenvolver. Também poderíamos vir a descobrir a razão pela qual estas civilizações morreram e isso ajudar–nos-ia a evitar o mesmo destino.

Então não há civilizações extraterrestres vivas neste momento?
A maioria delas, muito provavelmente, não está viva. Quando uma civilização tecnológica evolui, é normal que, simultaneamente, desenvolva meios para a sua própria destruição, tal como nos está a acontecer na Terra com as alterações climáticas. Por esta razão, acredito que haja muitas coisas como nós que existiram e já não estão cá, mas das quais conseguimos ainda encontrar provas através das relíquias que deixaram no Espaço.

Parece mais focado em encontrar relíquias do que vida…
Sim, porque encontrar criaturas vivas não é fácil, a não ser que se visite o local pessoalmente ou se usem máquinas como a Perseverance, que temos em Marte. A questão é que, realisticamente, os únicos locais que conseguimos visitar são os que se encontram no Sistema Solar. Não é fácil aterrar na superfície de um planeta que gravite em torno de outra estrela e descobrir se lá existiu vida ou não. Temos então de confiar noutros métodos, como observar a composição da atmosfera. Se encontrarmos oxigénio, metano e vapor de água na atmosfera desses outros planetas, talvez a vida seja ou tenha sido possível. No entanto, não encontrar oxigénio num planeta não tem de ser sinónimo de inexistência de vida. Na primeira metade da sua existência, a Terra não tinha oxigénio na atmosfera e, ainda assim, existiam micróbios. Por outro lado, se em vez de moléculas naturais encontrarmos moléculas que não podem ser produzidas naturalmente, como os clorofluorocarbonetos (CFC’s), estamos perante assinaturas tecnológicas que indicam a existência de atividade industrial num dado planeta e, consequentemente, de uma forma muito mais conclusiva, a existência de vida.

Porque pressupõe que todas as civilizações extraterrestres são tão ou mais evoluídas do que a nossa?
Se há algo que a astronomia me ensinou nas últimas décadas foi a modéstia. Custa-me acreditar que a Terra tenha produzido as criaturas mais inteligentes que era possível criar, a partir da sopa química que existia inicialmente. Além disso, estamos apenas no início do nosso desenvolvimento tecnológico. Pode ser que, junto de estrelas mais velhas, existam civilizações que já passaram muito mais anos a desenvolverem-se tecnologicamente, assemelhando-se àquilo que seremos nós no futuro. Consigo facilmente imaginar coisas mais inteligentes do que nós e é precisamente por essa razão que devemos procurar. Claro que muitos humanos preferem acreditar que somos a espécie mais inteligente, mas a única forma de obtermos uma avaliação realista disso seria procurar por outras. É assim que percebemos que não somos os mais espertos do mundo.

Essa teoria tem mais de Filosofia do que Ciência, por agora?
É muito científica, na medida em que defende a procura de evidência e esse é o modo como a Ciência progride. O único modo de continuarmos a acreditar que somos especiais, únicos e muito inteligentes é continuarmos a não procurar evidência científica. Se não estivermos abertos a procurar coisas extraordinárias, nunca as descobriremos. Aristóteles defendia que éramos o centro do Universo e toda a gente queria acreditar nisso, até Galileu Galilei e Copérnico terem encontrado provas de que a Terra se movia em torno do Sol. Foi um choque, os filósofos nem queriam olhar através do telescópio de Galileu e colocaram-no em prisão domiciliária, mas, ao fazê-lo, limitaram-se a alimentar a própria ignorância. A minha ideia é simples: para que seja uma teoria científica temos de procurar provas; se não o fizermos, jamais chegaremos à verdade.

Foi isso que tentou fazer em 2017, quando avistou o Oumuamua?
Tanto quanto sabemos, este foi o primeiro objeto, vindo de fora do Sistema Solar, a passar junto da Terra. No início, os astrónomos pensaram que fosse um cometa ou um asteroide, mas, à medida que recolhemos mais informação e dados, percebemos que era algo diferente de tudo o que havíamos visto antes. Não tinha nenhuma cauda cometária; não havia gás à sua volta; à medida que ia caindo a sua luminosidade alterava-se, dando a entender que, muito provavelmente, tinha uma geometria plana; e foi também empurrado por uma força que pode apenas ser explicada como o resultado do reflexo da luz solar sobre a superfície.

Não acha uma grande coincidência esta sua teoria basear-se em velas solares, uma vez que esteve envolvido num projeto que visava precisamente criar uma?
Bem, normalmente a nossa imaginação está limitada por aquilo que conhecemos e experimentamos, mas isso não significa que não seja verdade. O que realizamos na Terra permite-nos expandir a nossa imaginação, mas, quando procuramos provas, devemos apenas perguntar quais são as explicações possíveis.

Por que razão considera a sua explicação menos exótica do que as restantes?
Porque as outras sugestões que estão em cima da mesa são menos plausíveis e têm grandes falhas. Houve quem sugerisse que o Oumuamua era uma nuvem volátil de partículas de poeira cem vezes menos densa do que o ar que, ao aproximar-se do Sol, seria aquecida por centenas de graus; ou então que era um icebergue de hidrogénio com uma cauda cometária invisível, porque o hidrogénio é transparente. O problema é que um icebergue de hidrogénio evaporaria demasiado rápido ao longo da sua viagem e não sobreviveria. Se existisse uma explicação clara, eu aceitá-la-ia, mas, neste momento, todas as sugestões propostas implicam coisas nunca antes vistas.

Quando uma civilização tecnológica evolui, é normal que, simultaneamente, desenvolva meios para a sua própria destruição, tal como nos está a acontecer na Terra com as alterações climáticas

Tal como extraterrestres…
Exato. O que quero dizer é que essa deveria ser uma hipótese a considerar, não devia ser automaticamente excluída. Dada a significância de ser uma tecnologia tão radicalmente boa, temos de explorá-la, arranjar mais provas.

Essa recolha de provas seria muito dispendiosa?
Não muito. O novo Vera Rubin Survey Telescope, no Chile, é muito mais sensível do que o telescópio que avistou o Oumuamua e poderia detetar objetos como este todos os meses. Se os descobrirmos a tempo, um ano antes de chegarem perto da Terra, podemos enviar uma nave espacial equipada com uma câmara, a fim de intersetar a trajetória dos objetos e fotografá-los em pormenor. Diz-se que uma imagem vale mil palavras. No meu caso, vale 66 mil, que é o número de palavras que tem o meu livro. A partir do momento que tiver fotografias ou outras provas que mostrem que um determinado objeto não é uma rocha, não haverá nenhuma pessoa minimamente razoável que ponha isso em discussão.

No livro, afirma que a beleza de uma teoria consiste no que dela resta após o seu confronto com os dados. O que resta da sua?
A minha sugestão de que se trata de uma vela solar é consistente com toda a informação que temos. Claro que não conseguimos obter todos os dados que queríamos. Não temos uma fotografia, portanto não consigo afirmar com toda a certeza que é a explicação correta. Tudo o que posso afirmar é que se trata de uma possibilidade que devemos contemplar e considerar. Só isto já tem levantado muita controvérsia. Algumas pessoas não querem sequer considerar esta possibilidade. Ao sair de um seminário, em Harvard, sobre o Oumuamua, e falando com um colega que há décadas estuda rochas, ele comentou: “O Oumuamua é tão estranho, quem me dera que nunca tivesse existido.” Quando algo não se enquadra naquilo que se estava à espera, não faz sentido ficarmos tristes, mas sim felizes e entusiasmados, procurar mais dados em vez de ignorar o acontecimento.

Por que motivo muitas pessoas da comunidade científica manifestaram este tipo de atitude?
Porque foi algo que as tirou da sua zona de conforto. É algo completamente novo que, se for verdade, será extremamente importante. Essas pessoas defendem que afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias, mas a questão é: se existem provas da presença de anomalias, devíamos estar a discuti-las, a recolher mais provas, em vez de dizer imediatamente que se trata apenas de uma rocha. Não existem quase fundos federais alocados à investigação de assinaturas tecnológicas, são quase mil vezes inferiores aos fundos destinados à investigação de matéria negra, que tem praticamente zero impacto na vida do dia a dia. Este assunto, pelo contrário, teria um grande impacto e o público está interessado. Como é possível que a comunidade científica continue a colocá-lo de lado?

Que tipo de questões encorajaria a próxima geração de astrónomos a fazer?
Escrevi o livro, sobretudo, para os jovens. Espero que pensem sem preconceito, explorem, tragam ideias frescas e construam sempre um futuro melhor para a Academia.

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