Mia Couto

Mia Couto

Escritor
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Mapeador de Ilhas

A gota

Já não restam portas nem paredes, é verdade. Mas as pessoas têm artes mágicas de se enclausurar. Somos os mais competentes carcereiros de nós mesmos

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De reis mortos e águas vivas

Os presentes entreolharam-se, intrigados. Que houvesse um rei sepultado, isso não causava espanto. O que não falta por aí são reis cobertos de terra e esquecimento

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O parto póstumo

Ao princípio da tarde, encostou a canoa à margem e ajudou-me a retirar a minha bagagem. Apercebi-me de que iríamos pernoitar naquela clareira. O homem deu-me a beber um líquido escuro. Acreditei ser uma infusão, dessas que se usam para enganar a fome e o cansaço. É chá, tranquilizou-me, reparando na demora em levar a chávena aos lábios

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O observatório

Não se engane, senhor padre: o senhor também trabalha nos subterrâneos. Aliás, não há neste mundo trabalho que não seja de mineiro, seja ele executado por cima ou por baixo da terra

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O apeadeiro

Foi fazendo perguntas e anotando com letra de imprensa nos lugares certos do papel. – Agora, Gondaluai escreve-se com “w” – comentou o inspetor sem erguer a cabeça. – Africanizaram o teu apeadeiro. – Depois, já num outro tom: – Estás a cuidar bem daquela estação? Tens de manter aquilo direitinho. Aquilo é património do Estado

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Uma história quase infantil

Nessa noite, se o pai estivesse acordado, teria visto o seu filho e o seu amigo país a aproximarem-se do aparelho de televisão e a entrarem, um após o outro, no ecrã de plasma. Desapareceram como se fossem luzes engolidas pelo ávido retângulo negro

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A outra

Ntavase esperou que a mãe saísse para buscar água e suplicou por clemência: o homem que a engravidara era de fora. Começou por prometer. E acabou por ameaçar. Para o homem aquilo foi um momento. Para ela foi um tormento sem fim

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O vice-viajante

Foi assim, dizem, que a doença se espalhou. A pele das crianças ficou coberta de escamas, as mães coçavam o corpo dos filhos e as crostas saltavam como se estivessem a preparar peixe. Morreu muita gente, dizem mesmo que morreram todos os habitantes

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A culpa

Na verdade, o menino só tinha virtudes que não serviam para nada. Por exemplo: escutava mal a voz humana, mas tinha jeito para ouvir os bichos. Um dia começou a imitar o canto dos pássaros. E fazia-o com tanto aprumo, que o pai teve uma ideia: colocaria o filho a render. E assim sucedeu: o menino passou a gorjear por encomenda

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O caçador de elefantes invisíveis

Mudaram o tradutor e, de uma assentada, falaram de tudo: do vírus, da pandemia, dos assintomáticos, do achatamento da curva, do retardar do pico. Usaram todos estes termos em português. As mãos do tradutor, em apressado desespero, tentavam compensar a complexidade do discurso. Os olhos de Tsatso eram intermitentes faróis perdidos entre as curvas e as contracurvas do discurso

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A imortal quarentena

A angústia fica-lhe bem, é uma marca de distinção dos mais lúcidos, uma ruga na alma dos condenados a sentir a existência como uma doença

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Um gentil ladrão

A minha falecida mulher dizia que a culpa era nossa porque escolhemos viver longe dos lugares onde há hospitais. Ela, coitada, não sabia que era o inverso: os hospitais é que se instalam longe dos pobres. É uma mania deles, dos hospitais

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O filho perpétuo

A guerra carregou as pessoas, os seus próprios filhos desapareceram como se fossem ondas, nuvens, plumas sem peso. A guerra é um mar que se afoga sozinho. Foi pelo regresso do mar que Baraza pediu a Deus pelo dia de hoje

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O vestido vermelho

Na minha aldeia há um ditado: uma mulher que enfrenta sozinha a estrada é uma mulher que está despida. Os homens estão autorizados a fazer com ela o que quiserem. Essa mulher pede para ser castigada. E foi sob o presságio da punição que caminhei pela estrada deserta. Da areia que pisava soltava-se um fumo de miragem. Caminhei até o sol me engolir a sombra

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O chão do corpo

Contra todas as recomendações médicas, Vitória engravidou. Contra todas as previsões, teve uma gravidez feliz. O marido não suportava essa felicidade. E menos ainda sabia lidar com a suspeita: que filho seria aquele que ia nascer? Que cor da pele a criança exibiria como prova irrefutável e irreversível da sua condição de esposo traído?

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As pequenas doenças da eternidade

Era, então, que o seu menino a salvava. Penteava a mãe, dizia ele, para que ela nunca morresse. Nesses cuidados, a vizinha ficava curada das suas pequenas doenças. Mais do que curada: Margarida ficava eterna

Mapeador de Ilhas

Madeira preciosa

O pesadelo dos salteadores do mar não é a tempestade. É a calmaria que faz murchar as velas e imobiliza a viagem. Mais do que essa fatal bonança, o que verdadeiramente atormentava o nosso pirata era o caruncho

Guaparivás
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Guaparivás

A mãe senta-se no leito, bem próximo da filha. Juliana espreita o copo e pergunta: essa água é engarrafada? A mãe pousa o copo e observa a revista em cima da mesinha de cabeceira

Matar o mar
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Matar o mar

Afundando os pés na areia, desatou aos tiros. Disparava contra as ondas, contra as gaivotas, contra as nuvens. De repente, tombou desamparado

As cinzas
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As cinzas

Os reflexos da chama acendem luzes no pavimento que a mulher vai esfregando. Os joelhos de Laura apagam essas repentinas estrelas. Aos poucos, a mulher torna-se mais escura, mais funda que o próprio chão

As mãos, as mães
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As mãos, as mães

Nasço todos os dias e, assim, trago-a de volta, disse apontando uma fotografia pendurada na parede. Espreitei a imagem. Era uma bela mulher, mestiça, olhos escurecidos pela tristeza, cabelos sobre os ombros como uma cascata de lava