Dulce Maria Cardoso

Dulce Maria Cardoso

Autobiografia Não Autorizada

Foto #1: Para além daqui, só palavras me contam

Logo que entrei na universidade, livrei-me das idas a Trás--os-Montes, desculpando-me com o estudo para os exames de setembro. Os dias de ausência dos meus pais eram dias de liberdade, ensaiava por minha conta e risco a vida adulta que ainda me parecia tão distante. Por isso, o mais certo seria nunca mais os ter acompanhado à festa da Nossa Senhora da Assunção

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Autobiografia Não Autorizada

O país onde nada muda

O Shane acompanhou-me ao comício local da campanha do Obama no Children’s Memorial Park e não conseguiu apequenar o orgulho com que coloquei na lapela o crachá, Change We Need, centenas de pessoas em uníssono, negros, hispânicos, índios, american white trash

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Sem legendas

Cresci com o Brasil a salvar-me da tristeza salazarenta, a desempoeirar-me a cabeça, as personagens do pequeno ecrã em que mais me reconhecia eram brasileiras, entre elas e eu não havia tradução

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O abismo

Há uns anos cruzei-me com o Professor Eduardo Lourenço nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Estava um belo dia, eu sentia-me bem. Como está, Senhor Professor?, cumprimentei-o animada, uma fiada de árvores atrás de nós a compor o cenário do prazeroso encontro. Ele esperou uns segundos para me responder com outra pergunta, Como acha que se sente um homem que fita o abismo que o levará?

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Isto que nos une

Nunca me senti tão próxima dos outros. O mundo era enorme, incontáveis os humanos e eu existia perdida dos que vivem no outro lado do planeta ou mesmo no meu país, na minha cidade, no meu bairro, na minha rua, na minha casa. Afinal é tão simples ligarmo-nos

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A vida anormal

Ligo de seguida à minha mãe, que me conta que o Tomás, o meu sobrinho-neto de quatro anos, ao ouvir na televisão a notícia de mais mortos, disse, Como é que cabem tantos mortos no céu? O Tomás gosta deste isolamento social porque não tem de ir à escola e brinca todo o dia com os pais e o irmão. Digo ao Pedro que hoje estou sem cabeça para aprender a fazer ioga. Culpo a chuva. E isto tudo, acrescento

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Aqui dentro

O meu corretor ortográfico continua a sinalizar a vermelho a palavra coronavírus, tratando-a como erro. A linguagem está quase sempre atrasada em relação à vida. Ou então adiantada. Isso pode ser perigoso

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A última sessão

Quando o filme começou e me submergiu num mundo tecnicolor, estremeci com o impacto violento do som, a brisa arrepiou--me, o Miramar não tinha paredes e usava o céu como teto, a Baía de Luanda ficava logo atrás do ecrã gigante, havia os jardins em socalcos, era tudo tão diferente, tão maior, tão mais bonito do que o África, o cinema do nosso bairro

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Chegar-me a ti

Os cobertores e panos que tapavam as janelas, filtravam o intenso branco do sol, lá fora, tingindo tudo de encarnado. Se, por um lado, aquela luz abrandava – tanto quanto se sabia – a agressividade do bicho do sarampo, por outro, facilitava – assim o senti – a sua passagem do corpo do Hélder para o meu. Dói?, consegui perguntar-lhe. Não, não dói nada, respondeu-me

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Jardi ou o jardim sem fim

À medida que vou envelhecendo, aprendo e desaprendo muitas coisas. Desaprendo mais do que aprendo. Não me angustio com isso, confio que a cabeça guardará o que é importante. A cabeça e o coração. Mas tenho pena de desaprender a esperança

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No fundo do armário escuro

O que seria uma atividade de rotina transformou-se numa descoberta surpreendente, já que num dos estúdios viu, no fundo de um armário, cuja porta estava aberta, a prótese de uma perna

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Mudar de vida

Queira deitar-se neste, se faz favor. Fi-lo, timidamente, deixando os pés de fora da cama para não sujar nada, É assim que dorme? perguntou-me com rispidez. Não era, mas não tinha coragem de me enrolar em posição fetal à frente dos outros clientes que passeavam pelas avenidas bordejadas de camas com o “Last Christmas, I gave you my heart” a servir de banda sonora. Levantei-me ao fim de alguns segundos, Tem de ficar deitada pelo menos cinco minutos, repreendeu--me a funcionária

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Uma casa com vista sobre a cidade

A casa, mergulhada numa penumbra de saguões sujos, escancarava-se, nas traseiras, para a cidade através de uma sala grande, cujo teto era o mais trabalhado. A travessia envergonhada que fizéramos por uma realidade escondida dentro de portas, despejou-nos, incrédulos, numa enorme varanda debruçada sobre a cidade, uma beleza que nos deixou sem fôlego

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Penas e anjos

Chegada a hora, a minha mãe apresentou-me de banho tomado, unhas cortadas e cabelo acachapado a pente. Tomei o meu lugar no coro, orgulhosa das minhas asas de anjo intermédio, mesmo atrás das penas de galinhas dos anjos mais importantes

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Inverno em Bamberg

Na volta, os pés com o vagar do cansaço, sentava-me por minutos no sítio do aluguer dos botes, depois entrava no pequeno coreto do jardim da música, mais à frente pedia a bênção ao santo que havia sido esculpido numa pedra negra, atrasando o regresso a casa, onde uma frase me esperava, Mas na metrópole há cerejas. Assim começaria o romance que eu queria escrever, inspirado no que vivera ao deixar Luanda

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Aos tropeções

O tempo da dor é outro, mas no tempo normal já passaram mais de duas horas desde que a cabeceira da maca em que me deitaram está encostada contra esta parede.

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Fugir
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Fugir

Os quase cinquenta anos que passaram desde esta revelação foram tornando tudo incerto. Menos o choro da minha irmã. Eu fiquei calada. Não por ser mais corajosa, mas por me faltar idade para perceber que aquelas palavras também significavam que a nossa mãe – que nos educava no temor a deus e ao pecado – tinha sido uma galdéria

Dulce Maria Cardoso
De mulher para mulher
Autobiografia Não Autorizada

De mulher para mulher

Agora tenho a certeza de que há um momento na vida das mulheres em que elas ficam sábias em relação aos homens: é o momento em que reconhecem que estão velhas. A partir de então não há regresso

Dulce Maria Cardoso
O desespero e a fábrica de histórias
Autobiografia Não Autorizada

O desespero e a fábrica de histórias

Percebi, então, que quanto mais era evidente ser mentira o que eu contava, mais a minha avó se deixava levar pelas minhas palavras. A minha avó foi a primeira leitora que tive, muito anos antes de ter começado a escrever. Eu fui a minha segunda leitora

Dulce Maria Cardoso
O canto inferior direito
Autobiografia Não Autorizada

O canto inferior direito

Eu tinha acabado de me divorciar e ainda não sabia o que fazer com a nova solidão. Falar com um desconhecido que estava do outro lado do mundo era semelhante a falar comigo mesma ou com deus. Dizia-lhe tudo o que me passava pela cabeça, já que nunca nos iríamos encontrar pessoalmente. O Shane era um deus imperfeito

Dulce Maria Cardoso
Líquida, esvaziando-me
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Líquida, esvaziando-me

Não tenho a certeza de quantos enfermeiros são. Dois, pelo menos. Não tenho a certeza de um deles ter acendido um cigarro. Talvez cantarole, também. Se conversam, não sei o que dizem. Mas uma coisa sei: a mulher que está deitada na maca é a minha irmã

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