Dulce Maria Cardoso

Dulce Maria Cardoso

Autobiografia Não Autorizada
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Se isto é uma mulher

Nunca dei por mim a pensar, Ah, como gostava de ter um filho. O que há em mim que mereça ser continuado?

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Se alguém me puder resgatar

Houve momentos em que achei que a coisa não ia correr bem. Pelo meio, perdi o paladar e o olfato. Continuei sem me assustar: ainda não se associavam estes sintomas à Covid

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Correspondência #1: Com que direito?

Portávamo--nos como os que não têm tento na língua. E se os nossos pais demoraram a revelar--nos, a mim e à minha irmã, alguns factos da história familiar, isso deveu-se apenas a não ter calhado

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Afinal, desmonta-se

Apesar dos muitos anos que nos separavam, talvez tenha encontrado semelhanças entre nós, talvez tenha intuído que éramos feitas da mesma massa

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Querida Dóris

Sonhei com o anjinho azul da casa dos Anjos, um anjinho gordo desenhado num azulejo que o Luís e eu pendurámos junto à porta de entrada

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A de apaga

Escreve sobre o quê? Hesito. Perguntam-me isto desde sempre, Escrevo sobre o quê? Receio que quando souber a resposta certa nada mais tenha para escrever

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A céu aberto

Quando nos mergulham tempo demais nas mesmas palavras, as nossas apodrecem, as nossas palavras passam a ser as outras tornamo-nos altifalantes acéfalos, perros

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Os nossos rostos

A morte, cansada de andar sonsa pelas enfermarias dos hospitais, mais de dois anos a apoucar anónima secreta aborrecidamente o valor de cada vida, deseja a guerra

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Foto #6: Infância a grão grosso

Sempre que olhava para esta fotografia, a minha mãe lamentava que eu tivesse perdido o meu fio numa ida à Baixa. Agora, já não se lembra disso

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Flash

É rara a manhã em que não sinto o apelo da montanha, o empardecido gigante que se iça, solitário, sobre a paisagem urbana do outro lado da janela

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A solitária aprendizagem da maldade

Ainda não sabia ler nem escrever, mas desde sempre tudo me ensinava que nós éramos brancos e eles não, nós éramos colonos e eles não

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Meia-noite, no jardim do Bem e do Mal

Mantive-me calada a maior parte do tempo e subitamente, Queres que te ofereça o meu colar?, perguntou-me a Adília Lopes, levando a mão quase infantil às contas do colar de madeira que trazia

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Parabéns, Shane

Ele sabia bem dessa outra dimensão. Os pais haviam-no iniciado no consumo de drogas ainda ele não tinha dez anos, Não tive escolha, declarava sem amargura, Vivi o que tive de viver. Aprendi com o Shane que tudo se pode contar. O absurdamente trágico e o desprezível banal. As palavras são o que nos resta para tentarmos tornar compreensível aquilo que não o é

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O deus das pequenas coisas (ca. 13:30-14:30)

Tive educação católica, fiz a primeira comunhão, cheguei a dar catequese, mas a fé em Deus de que falo não me foi ensinada pela religião católica ou por outra, e nada tem que ver com a fé por que se continua a matar todos os dias. Resulta da intimidade com uma ideia de Bem que me faz sentir não estar só nas decisões que tomo, nos falhanços em que tropeço, nos pequenos triunfos que calham acontecer-me

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Sonhei, a noite passada

Eu continuei a crescer, continuamos sempre a crescer, mesmo quando o corpo para e começamos a enrodilhar por dentro. Gostava de acreditar que foram as palavras da Nóemia e da Daphne du Maurier que me guiaram para o homem bom com quem me casei, mas hoje sei que nas coisas do amor é mais a sorte doque a lucidez que comanda

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Teremos sempre Veneza

Quando eu me criei nem frigorífico nem fogão, nem água nem luz nas casas, na maioria só frio e fome, fome e frio. Graças a deus, na minha nunca nos faltou o que comer e o lar estava sempre aceso, mas houve anos com tanta fome na aldeia que o meu pai abria o celeiro para que os mais necessitados fossem lá buscar alimento. O meu pai era tão bom para os de fora quanto mau para a família, chamavam-lhe o pai dos pobres

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Desconhecimento do céu

Tentara fazer amigos alemães fora da residência, mas desistira, não é simples ser-se estrangeiro. Na verdade, os amigos não se procuram, acontecem, como qualquer outro milagre. Naquele domingo, uma opressora cor de chumbo entristecia a cidade, por igual. Considerando as várias hipóteses de me entreter, decidi ir a Nuremberga

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Estar em mim

Continua a não ser fácil falar-se de ansiedade, depressão, obsessão, toxicodependência, compulsão, fomos convencidos de maneira mais ou menos subliminar de que sofrer de doença psiquiátrica é sinal de fraqueza

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Azar de principiante

Passei a adolescência a requisitar livros da biblioteca e a copiar à mão os romances de que mais gostava, conheço-os intimamente

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O homem em queda

Todos nos lembramos de como parámos perante a notícia que irmanou a Humanidade numa desacertada memória coletiva. Parecia importante sabermos o que estávamos a fazer àquela hora. Como se precisássemos de um álibi para nos inocentarmos

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O Ervilha de Setúbal ou Em busca do sabor perdido

Gosto de guardar as memórias dos que amo. Acarinho-ascomo se fossem minhas, talvez acredite que os meus amores se tornem mais meus se guardar pedaços dos seus passados