Dulce Maria Cardoso

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Amor confinado

Mantinham-se legalmente casados, moravam na mesma casa, mas ambos juravam que não se falavam há mais de dez anos

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Para a Cristina, com amor

Aprendemos a conviver com tudo. Até mesmo com os nossos inimigos. Adaptamo-nos a tudo e tudo domesticamos. Até mesmo a morte

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Correspondência #2:  cuidar, cuidou, cuidado

Ultimamente há uma imagem que não me larga, a imagem de uma batalha, da linha da frente de uma batalha. E eu estou lá. Quando temos de cuidar dos nossos pais, já estamos, também nós, a morrer

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Seis, eles eram seis

Com o indicador sobre os lábios, ele impôs silêncio e empurrou-a para dentro. Acendeu o isqueiro, queimou as teias de aranha e fechou a porta atrás de si

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Esperar. A crónica de Dulce Maria Cardoso sobre Annie Ernaux, Prémio Nobel da Literatura 2022

Passava a noite acordada, à espera do aviso sonoro do chat do Yahoo. Ainda hoje me arrepio se o ouço. Insone, tomada de uma febre juvenil, punha corretor de olheiras, testava que roupa ficava melhor na câmara, tinha atenção à iluminação e ao cenário como se fosse entrar num filme

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A passagem secreta

Será que não desliguei a luz do escritório? Ultimamente, tem-me custado adormecer. Com o cansaço a moer-me o corpo, a cabeça divaga entre assuntos insignificantes

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Espécies invasoras

Gosto de ouvir os nossos passos sobre o chão de caruma, do cheiro a aldeia, uma mistura de lareiras, hortas, pinhais, mato, capoeiras

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Férias, esse tempo adiário

Pego num dos livros que trouxe. Ando sempre com livros a mais, livros que, desarrumados em pilhas sobre a mesa, me culpam por não conseguir lê-los

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A sombra fugaz de um cavalo alado, ou de uma gaivota apenas

Em vez de me entregar desarmada ao desejado encontro, insisti em fazer coincidir o que estava a viver com o que durante tanto tempo imaginara

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Quem se lembrará do que me irei esquecer?

Quero contar que até há pouco tempo a minha mãe sabia de cor a morada da pensão, mas agora esqueceu-se, e por isso não poderei lá ir, nem chegar perto, sequer

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Foto #6: A menina do papá

O meu querido pai morreu há mais de 20 anos. Os anos de morte não se deviam contar da mesma maneira que os anos de vida

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Se isto é uma mulher

Nunca dei por mim a pensar, Ah, como gostava de ter um filho. O que há em mim que mereça ser continuado?

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Se alguém me puder resgatar

Houve momentos em que achei que a coisa não ia correr bem. Pelo meio, perdi o paladar e o olfato. Continuei sem me assustar: ainda não se associavam estes sintomas à Covid

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Correspondência #1: Com que direito?

Portávamo--nos como os que não têm tento na língua. E se os nossos pais demoraram a revelar--nos, a mim e à minha irmã, alguns factos da história familiar, isso deveu-se apenas a não ter calhado

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Afinal, desmonta-se

Apesar dos muitos anos que nos separavam, talvez tenha encontrado semelhanças entre nós, talvez tenha intuído que éramos feitas da mesma massa

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Querida Dóris

Sonhei com o anjinho azul da casa dos Anjos, um anjinho gordo desenhado num azulejo que o Luís e eu pendurámos junto à porta de entrada

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A de apaga

Escreve sobre o quê? Hesito. Perguntam-me isto desde sempre, Escrevo sobre o quê? Receio que quando souber a resposta certa nada mais tenha para escrever

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A céu aberto

Quando nos mergulham tempo demais nas mesmas palavras, as nossas apodrecem, as nossas palavras passam a ser as outras tornamo-nos altifalantes acéfalos, perros

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Os nossos rostos

A morte, cansada de andar sonsa pelas enfermarias dos hospitais, mais de dois anos a apoucar anónima secreta aborrecidamente o valor de cada vida, deseja a guerra

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Foto #6: Infância a grão grosso

Sempre que olhava para esta fotografia, a minha mãe lamentava que eu tivesse perdido o meu fio numa ida à Baixa. Agora, já não se lembra disso

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Flash

É rara a manhã em que não sinto o apelo da montanha, o empardecido gigante que se iça, solitário, sobre a paisagem urbana do outro lado da janela