Na primeira pessoa: “Durante os primeiros dias de internamento, fartei-me de chorar. Tinha medo do que pudesse vir da Monkeypox”

Na primeira pessoa: “Durante os primeiros dias de internamento, fartei-me de chorar. Tinha medo do que pudesse vir da Monkeypox”

Tenho 29 anos, vivo no Seixal, e sou gay. Não ando com um cartaz, mas se me perguntarem ou se surgir numa conversa, digo-o, sem problemas. A minha família e amigos lidam bem com isso. 

O meu contacto com a Monkeypox aconteceu em maio, quando ainda ninguém falava do assunto. Sou fotógrafo e tinha estado a trabalhar na praia, ao pôr do sol. Apanhei frio e, no dia seguinte, acordei com dores de garganta. Sempre que isso acontece, sei que, se não tratar logo, fico com uma amigdalite. E fui ao médico. Receitaram-me uma injeção de penicilina e disseram-me que, se não passasse, talvez fosse preciso levar outra.

No dia 12 de maio, o inchaço e as dores continuavam, não conseguia dormir e fiquei com febre, que chegou aos 39,4 ºC. Fiz um autoteste à Covid-19, mas deu negativo. Era fim de semana, o centro de saúde da Torre da Marinha estava fechado e fui ao da Amora, também no Seixal, que tinha a urgência aberta. Pelos sintomas, pensou-se que podia ser mononucleose, mas não tinham um teste rápido para confirmar e deram-me outra injeção, que não funcionou. Tinha a garganta toda lixada, dores, falta de ar…

Entrei em pânico e fui à urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Deram-me medicação e pediram que voltasse no dia seguinte, à Infeciologia, e fizesse exames mais extensos: podia ser uma infeção sexualmente transmissível ou um fungo.

“Foi assustador”

No ano passado, testei positivo para a sífilis e gonorreia, sem sintomas, e fui tratado com antibióticos. Faço a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao VIH) há dois anos e tenho outros amigos que também a fazem por ser mais uma proteção, que não dispensa o uso do preservativo, mas tive relações sexuais desprotegidas no período de incubação da Monkeypox.

Lembro-me de a médica olhar para o meu corpo e perguntar o que era aquela pequena borbulha, ou bolha, que eu tinha na perna. Já tinha reparado nela, mas na altura pensei que se tratava de um pelo encravado.

Estive a soro e cortisona, mas o inchaço das amígdalas não passava, nem a saliva conseguia engolir, tinha um recipiente ao meu lado para a deitar fora. Quando a médica otorrino viu, no ecrã, o que mostrava a sonda inserida na minha garganta, chamou a superior. Perguntou-me se eu tinha ingerido alguma substância ácida, porque estava tudo queimado. Foi assustador e eu estava aflito.

Fiquei triste com a reação de pessoas que sigo nas redes sociais, por associarem a doença aos homossexuais e à promiscuidade, como se nós fôssemos os culpados, como quando surgiu o VIH. É um preconceito gigante que tem que ver com ignorância.

Por outro lado, os casos estão a aparecer em saunas, discotecas e festas gay, frequentadas por homens que fazem sexo com homens. Temos de ser realistas, não podemos dizer apenas que “não é verdade

Precisei de ficar internado. Comecei a ter comichão e mais bolhas pequenas no corpo. Vi, então, pela televisão da enfermaria, as notícias dos primeiros casos de “varíola dos macacos”.

Isolaram-me de outros dois doentes com uma cortina e colocaram-me no canto da enfermaria. Os médicos usavam equipamentos de proteção quando iam ter comigo. Mais tarde, mudaram-me para um quarto com WC, onde eu podia estar mais confortável, sem usar sempre máscara. Quando deixei de ter febre, comecei a ingerir água, gelatina e gelados. Ao todo, perdi sete quilos.

Durante os primeiros dias de internamento, fartei-me de chorar. Tinha medo do que pudesse vir dali. Recebi a confirmação do diagnóstico com alívio. Deram-me alta ao fim de uma semana e a indicação para ficar isolado até as bolhas secarem e caírem, o que aconteceu duas semanas depois. Pediram-me para avisar as pessoas com quem tive contactos, principalmente sexuais. Não só o fiz como acabei por colocar um post no Instagram, mas ninguém me disse nada sobre uma eventual transmissão.

Estou grato pelo apoio das pessoas e nunca me senti discriminado. Alguns amigos e conhecidos perguntaram-me se tinha sido contagiado em saunas ou ginásios, para não irem lá. Não foi o caso. As pessoas com quem tive contactos íntimos na semana anterior não me comunicaram nada. Por isso, que eu saiba, não infetei ninguém.

Quando cheguei a casa, fartei-me de comer e facilmente recuperei o peso que perdi. Voltei a dedicar-me ao trabalho, retomei os meus autorretratos, que gosto muito de fazer, e regressei à normalidade.

Escolhi ser fotógrafo freelancer por ser uma paixão que já vem dos tempos do secundário. Antes de frequentar o IADE [Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia], fiz um gap year e fui desenvolvendo o meu estilo. Vivo com os meus pais e fiz um estúdio em casa, que é o meu local de trabalho.

Falar sem vergonha

Não havendo muitos estudos nem respostas médicas definitivas sobre a doença, resguardei-me, abstive-me de conviver com pessoas mais próximas até ter a certeza de que já não contagiava ninguém.

Fiquei triste com a reação de pessoas que sigo nas redes sociais, por associarem a doença aos homossexuais e à promiscuidade, como se nós fôssemos os culpados, como quando surgiu o VIH. É um preconceito gigante que tem que ver com ignorância. Por outro lado, os casos estão a aparecer em saunas, discotecas e festas gay, frequentadas por homens que fazem sexo com homens. Temos de ser realistas, não podemos dizer apenas que “não é verdade”.

Na altura do Pride [celebração de orgulho gay], em Madrid, vi comentários no Instagram sobre gente que estava a pensar não ir por causa da Monkeypox. Lembro-me de comentar com um amigo: “De certeza que haverá uma subida do número de casos depois do evento, sabendo que o contágio se dá pela via sexual, beijos, respiração próxima ou a tocar numa borbulha do corpo.”

Fui ao Pride em Lisboa, mas limitei-me os contactos sexuais. Ninguém pode garantir a 100% que não vai voltar a ficar infetado. Dei por mim mais alerta, a olhar os corpos antes de qualquer tipo de contacto, porque tive uma experiência traumática. É importante falar disto sem vergonha e estar atento. Por exemplo, numa altura em que há mais casos, pode-se fazer a PrEP e usar o preservativo. Desde então, evito ir a festas gay, se achar que é arriscado. Prefiro esperar, não tenho pressa. Depoimento recolhido por Clara Soares

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