Reportagem: Do Afeganistão para a Nazaré para verem o mar pela primeira vez

FOTO: Marcos Borga

Frishta Qasime faz hoje, precisamente, 16 anos. Poucas horas antes, na sexta-feira, 8, ao final da tarde, foi surpreendida – tal como todas as suas companheiras da equipa de futebol e respetivos familiares – com uma viagem de Lisboa até à Nazaré, para a partir do Sítio e do Forte de São Miguel Arcanjo contemplarem o mar bravo da região Oeste. Já o tinham visto em A Grande Onda da Nazaré, documentário da HBO sobre o surfista Garrett McNamara, mas ao vivo foi a primeira vez e estavam felizes.

Frishta Qasime

Os largos sorrisos acompanhavam as selfies em conjunto e as gargalhadas ouviam-se, apesar do restolhar dos vagalhões. Impressionante para nós, até por vezes assustador, mas muito “relaxing” para estas meninas resgatadas de Cabul na Missão Bolas de Futebol, liderada por Farkhunda Muhtaj, 23 anos, capitã de equipa e treinadora. Afegã a residir no Canadá desde os dois anos, onde é professora de Educação Física e jogadora de futebol, Farkhunda é responsável pelos treinos diários num campo cedido em Odivelas.

Ver o oceano Atlântico foi uma lufada de ar fresco e literalmente salgada na vida destas meninas, mas para Frishta Qasime o melhor presente de aniversário seria tirar do Afeganistão a mãe e mais quatro irmãos, todos mais novos, e receber boas notícias do pai, líder militar em Mazar-i-Sharif, desaparecido desde que os talibãs tomaram o poder. Caso nada aconteça antes, Frishta tem um plano a longo prazo: contar com a ajuda do governo português, receber e juntar todo o dinheiro que conseguir a jogar futebol para daqui a dois ou três anos trazer a família mais próxima para Portugal. Por agora, e três semanas após a vinda para Lisboa com os tios e uma prima, vai falando quase todos os dias com a mãe pelo WhatsApp. De lá, ouve sempre o mesmo conselho, “para não chorar”, mas deste lado da linha, a adolescente não contém as lágrimas de tristeza, mais do que de raiva.

Dos seus planos também fazem parte ser médica e para isso Frishta, a jogar a avançada na seleção afegã, sabe que quanto melhor falar português, mais hipóteses terá de entrar na universidade. Por estas noites, enquanto a maior parte do grupo canta e toca viola no hostel onde ainda está instalado, Frishta vai para a Internet à procura de palavras portuguesas e faz uma aula por noite. Já soletra o nosso alfabeto e sabe muitos cumprimentos, desde “como vai?” a “estou bem, obrigada”, até à palavra “chave”, que usa todos os dias para ir para o quarto, e o nome do ídolo Cristiano Ronaldo. Como lhe faltavam alguns números, ensinámos-lhe o simples “um, dois, três”.

Ser livre é isto

Nesta visita-relâmpago à Praia do Norte na Nazaré, num final de tarde ventoso e frio, a maioria do grupo, muito heterogéneo, com pessoas de várias idades e graus de parentesco, não usa máscara para se proteger da Covid-19. Assumem sorridentes os rostos destapados, com muitas das mulheres maquilhadas a preceito. Calçaram ténis, vestiram calças de ganga e t-shirts ou vestidos e lenços a proteger a cabeça.

Sara Hayen, 15 anos, tem uma fita a tirar-lhe o cabelo da cara. Traços finos que combinam com a doçura da voz e a delicadeza das mãos. Nascida na capital Cabul, a avançada da seleção de futebol afegã já tinha visto uma grande quantidade de água, em Qargha, por exemplo, um reservatório proveniente de uma barragem, mas nunca a imensidão de um oceano. Inspirando e expirando, fecha os olhos e diz:” Isto mostra-me como eu sou livre.”

Sara Hayen

A segurar o telemóvel e os óculos escuros vai gesticulando para explicar, num inglês muito compreensível, ensinado pelo pai, como gosta dos portugueses, por sermos um povo calmo, muito amável e amistoso. Sara chegou a Lisboa com os pais e a irmã de 13 anos e, por Portugal ser um destino turístico, já tinha ouvido falar do país de Cristiano Ronaldo. Segue o craque madeirense no Instagram e está a pensar mandar-lhe uma mensagem. Sonha ser uma “big business woman”, uma grande mulher de negócios designer de automóveis, criando mesmo novos modelos. Fazemos figas, pois tem o futuro todo à sua espera.

Solidariedade a rodos

Com o grupo a espalhar-se pela arriba como formigas, a descer até à beira-mar, cruzamo-nos com a mãe de Sara. Ironia do destino, em Cabul, Sabara Mirzaaiida, 39 anos, trabalhava na ARCS – Afghan Red Crescent Society, uma instituição de caridade que presta apoio humanitário a quem é afetado por desastres naturais e não naturais. Além disso, a ARCS funciona também como uma sucursal da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Agora, sem nenhum dinheiro, sem casa, nem trabalho, é Sabara quem necessita de ajuda. Mas, não quer baixar os braços e mesmo a partir de Portugal gostava de continuar a ajudar a sua comunidade.

Sabara Mirzaalida (à direita) com as filhas Sara Hayen (ao meio) e Sahar Hayen (à esquerda)

No Afeganistão deixou o irmão e os amigos e quando fixa o olhar cheio de lágrimas no pôr do sol questiona-se sobre o que o futuro lhe reserva, a ela, às duas filhas e ao marido que trabalhava no Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas (World Food Programme), providenciando comida para os mais pobres.

No Afeganistão, não eram ricos, mas também não eram pobres. Este casal de classe média trabalhava em escritórios, Sabara ia ao ginásio, tinha aulas de inglês, usava brincos e pulseiras e pintava os olhos e os lábios. Em Portugal, depois de todos estarem a receber cuidados de saúde e feito exames médicos, Sabara sente e sabe que está com uma depressão.

Farkhunda Muhtaj

Por agora, o pôr do sol sobre o mar da Nazaré, seguido de um intenso nevoeiro, chegou primeiro do que uma casa para cada família, em vez de um quarto num hostel para quatro pessoas; a escola para os mais novos e os empregos para os adultos. Mas, é uma questão de meses para um bom recomeço, como assegura Farkhunda Muhtaj. Parabéns Frishta Qasime, desejamos-te um dia muito feliz!

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