Como arranjar emprego lá fora e trabalhar cá dentro

Foto: Luís Barra

Um empresário de jogadores de futebol anda sempre à procura do próximo talento. À medida que a faturação aumenta, através das comissões recebidas nas transferências entre clubes, crescem a sua rede de informadores e a carteira de clientes. A atividade de gerir carreiras de futebolistas ganhou expressão a partir da década de 1990, e hoje qualquer jovem promissor aos 12 ou 13 anos já tem contrato com um representante. Só é assim porque impera na indústria uma feroz concorrência, com os melhores clubes sempre de olho nos mais capazes, venham eles de onde vierem. As fronteiras foram há muito abolidas: a base de recrutamento é o mundo inteiro.

Foto: Luís Barra

Rosanna Lopes
Freelancer marketing digital
38 anos

Quando lhe perguntam onde vive, a resposta sai-lhe na ponta da língua: “Não tenho casa.” Esta luso-holandesa costuma passar o verão em Portugal e o inverno na Ásia ou no continente americano, alternadamente, sem deixar de saltitar entre países pelo meio. Há seis anos que deixou Londres, onde vivia, para se assumir como nómada digital. É dona do seu tempo e do seu negócio, que lhe dá tudo o que deseja da vida. “Ganho mais do que nunca”, admite.

Esta realidade bem conhecida no desporto mais popular começa agora a replicar-se no mercado de trabalho remoto, cada vez mais competitivo, à escala planetária. No final de 2019, Filipe Lacerda, 31 anos, criou a HumanIT, uma consultora que gere carreiras ligadas às Tecnologias de Informação (TI), de longe a área mais requisitada internacionalmente. Tem uma equipa de caça-talentos, que os descobre nas empresas e na internet, presta aconselhamento a nível de formação tecnológica e de escolhas profissionais, e faz-lhes chegar propostas de trabalho. “Às vezes, na brincadeira, digo aos clientes que eles são o Ronaldo e eu o Jorge Mendes”, comenta Filipe, entre sorrisos.

No início deste ano, a HumanIT contava com 18 colaboradores. Nove meses depois, já vai em 70, para um total de mil clientes. Tal como no futebol, as receitas provêm das empresas que contratam, no caso o equivalente a 15% do valor do salário do trabalhador. “Noventa e cinco por cento das empresas que nos procuram são internacionais. Não sabem onde estão os melhores e precisam de ajuda”, explica o fundador da HumanIT, sublinhando que “a oferta é superior à procura” em TI. Tanto que, nos próximos anos, as empresas nacionais vão sentir “muitas dificuldades” para contratarem profissionais portugueses com experiência, antecipa Filipe. “Tinha um programador a ganhar 65 mil euros anuais, um valor que começa a ser normal em Portugal, e saiu porque uma empresa norte-americana lhe ofereceu 110 mil euros”, exemplifica. “Somos muito baratos lá fora. Um norte-americano com os mesmos conhecimentos, se calhar, custaria 200 mil euros por ano ou mais.”

Foto: Lucília Monteiro

Pedro Santos
Engenheiro informático
29 anos

Sabia bem o que queria ainda não tinha concluído o curso. Por informações de outros portugueses que lá trabalhavam, seduzia-o a filosofia da empresa internacional Doist, totalmente remota, mas aconselharam-no a ganhar experiência primeiro. Ao fim de um ano na Farfetch, o primeiro unicórnio nacional, deu o salto para o seu emprego de sonho e por lá se mantém – desde a sua casa em Gaia, a trabalhar nos produtos informáticos subscritos por utilizadores em todo o mundo.

O colaborador em causa não se mudou para os Estados Unidos da América. Na verdade, nem precisou de sair de casa, que na maior parte dos dias já era o seu local de trabalho. A nível profissional, é como se tivesse emigrado para o outro lado do Atlântico. Na prática, as malas e bagagens ficaram no mesmo sítio.

Tinha um programador a ganhar €65 mil anuais e saiu porque uma empresa norte-americana lhe ofereceu €110 mil

Filipe Lacerda
Fundador e diretor da HumanIT

Se o trabalho à distância já estava a desbravar o seu caminho, a pandemia veio dar-lhe forte impulso. Empresas que antes recusavam qualquer tipo de solução remota estão agora a recrutar nas mais variadas zonas do globo. E profissionais que não se viam a deixar Portugal em nome de uma carreira profissional mais proveitosa passaram a ter mais e melhores oportunidades para desfrutarem do melhor dos dois mundos. É o trabalho global a conquistar terreno, neste cantinho da Europa.

A vida pessoal primeiro
Assim que entrou na GitLab, uma empresa 100% remota, em 2018, André Luís marcou viagem para a Islândia. Na visita anterior, não tinha conseguido ver as cavernas de gelo e desta vez não ia perder a oportunidade. Cumprido o desejo numa segunda-feira de manhã, no regresso à capital, Reiquiavique, conduzido por um amigo, o então programador meteu mãos à obra em plena estrada. “Fui todo o caminho a trabalhar, inclusive a colaborar com a minha colega do México, e ela nem se apercebeu de que eu estava na Islândia”, conta, divertido. “Temos liberdade mas também responsabilidade. Não ficou trabalho pendente”, esclarece.

Natural das Caldas da Rainha, este residente em Lisboa, de 38 anos, considera a flexibilidade a principal vantagem do trabalho remoto: “Há uma inversão de prioridades, e a minha passou a ser a vida pessoal.” Costuma passar um mês por ano na neve, de manhã a deslizar na prancha de snowboard e daí em diante a trabalhar; já chegou a realizar uma entrevista de recrutamento para a GitLab num banco de jardim no Porto, enquanto “um quarteto muito simpático de senhores velhotes aguardava para jogar à sueca”; e diz ter sido “libertador” poder acompanhar o pai no hospital, “três horas por dia”, quando ele precisou. Também já experimentou trabalhar na praia, “mas não é tão bom como se pensa”. Prefere alguns cafés com rede wi-fi.

Foto: Luís Barra

Paulo Lopes
Consultor de Tecnologias de Informação
30 anos

As primeiras experiências profissionais fizeram-no concluir que só no estrangeiro conseguiria um salário compatível com as suas expectativas. Mas o ano e meio passado em Munique também lhe deu a certeza de que não queria deixar Portugal. O trabalho remoto era a solução ideal. Esteve primeiro ao serviço de uma empresa dos EUA e agora testa equipamentos de telecomunicação para uma empresa com sede em Hong Kong e fábricas na China e em Taiwan.

Contratado após candidatar-se através do site da empresa, André demorou poucos meses a ser promovido a gestor de engenheiros informáticos na GitLab, que emprega quase 1 500 trabalhadores (nove dos quais portugueses), espalhados por 66 países. Entre os clientes desta plataforma que facilita a criação de códigos para o desenvolvimento de websites, aplicações, software e afins encontram-se a NASA, a CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) ou a SpaceX, de Elon Musk.

André gere uma equipa de cinco elementos, que trabalham em países tão distintos como a República Checa, o Reino Unido, a África do Sul, o Canadá e os EUA. Uma vez por semana, têm uma reunião por videoconferência, de participação opcional, além de outra individual com o superior direto português. De resto, toda a comunicação é assíncrona, ou seja, ninguém espera respostas imediatas do outro lado do teclado. “Pode chegar num minuto ou dentro de três horas. Não há aquela expectativa de que a outra pessoa esteja online, e isso liberta”, salienta o caldense.

Como se evita a solidão
A flexibilidade de horários e a flexibilidade de local de trabalho são os dois maiores benefícios apontados ao trabalho remoto, segundo o mais recente estudo anual da Buffer sobre o tema. Entre 2 300 inquiridos, 32% deram a primeira resposta e 25% escolheram a segunda, enquanto 22% indicaram a ausência de deslocações casa-trabalho-casa como a principal vantagem e 11% contentaram-se acima de tudo com a possibilidade de passar mais tempo em família. Já quanto à maior dificuldade, nenhuma supera a de não conseguir desligar do trabalho (27 por cento).

“O burnout é um grande risco para aqueles que estão agora a ter a sua primeira experiência remota, sobretudo para as pessoas que participam em mais reuniões. Aconselho os líderes das empresas a encorajarem mais tempo de descanso e longe dos computadores”, observa Joel Gascoigne, diretor da Buffer, empresa especializada em potenciar as redes sociais das marcas e que desde maio de 2020 adotou um regime de quatro dias de trabalho por semana.

As empresas aperceberam-se de que podem contar com os melhores do mundo e, sim, há muita gente a ser recrutada em Portugal


Marcelo Lebre
Cofundador e diretor de operações da Remote

Apesar deste risco, a que se juntam problemas em colaborar e em comunicar (16%), solidão (16%) e distrações em casa (15%), um total de 97,6% de participantes no inquérito respondeu que gostaria de trabalhar remotamente, pelo menos alguma parte do tempo, até ao fim da carreira.

Raquel Silvestre ainda agora começou e já não quer outra coisa. Contratada pela consultora belga Avertim, que também tem escritórios em França, Alemanha e Holanda, foi colocada a trabalhar para um cliente bem conhecido, a farmacêutica Janssen, do grupo norte-americano Johnson & Johnson, como gestora de projetos. Começou em maio passado, no departamento de neurociência, numa missão que era suposto durar seis meses, mas já recebeu indicação de que vai continuar, por tempo indeterminado. Trabalha maioritariamente com equipas nos Estados Unidos da América, sempre à distância. O email e as reuniões por videoconferência fazem a ponte aérea.

Os melhores sites de trabalho remoto

Num mundo que não dispensa a internet, é na World Wide Web que se encontram mais ofertas de emprego. Saiba onde procurar

Para trabalhar em empresas remotas

We Work Remotely
É talvez o mais afamado de todos os sites dedicados exclusivamente ao trabalho remoto, com uma média próxima de mil novas ofertas publicadas por mês, em todo o tipo de áreas.

FlexJobs
Além dos anúncios de emprego 100% remotos, inclui ofertas em regime híbrido, com alguns dias de trabalho presencial.

Remote.co
Às ofertas de emprego junta informações para as empresas que adotaram ou ponderam adotar o trabalho remoto como sistema.

Remote Europe
Criado por portugueses, concentra as ofertas de trabalho remoto no continente europeu.

Angel List
Centrado no universo das startups nos EUA.

Para Freelancers

Freelancer
Plataforma que promove o “encontro” entre empresas e freelancers. As empresas publicam projetos para serem executados e os segundos oferecem o seu trabalho, em quase duas mil categorias.

Fiverr
Freelancers anunciam os seus serviços e as empresas recrutam consoante as suas necessidades.

99Designs
É dirigido a designers gráficos e faz a ponte com os clientes.

Aos 27 anos, é apenas a segunda experiência profissional desta engenheira biológica, formada no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, cidade onde vive e cresceu, apesar de ter nascido em Coimbra. No final do curso, o último semestre levou-a até à Holanda, através do programa ERASMUS, e foi ali ao lado, na Bélgica, que se estreou profissionalmente, em 2018. Na altura, em regime presencial, ao serviço da Baxter, outra farmacêutica. “Estive sempre aberta a Portugal, mas a verdade é que não havia assim tantas oportunidades e o mesmo aconteceu nesta segunda vez em que procurei trabalho”, lamenta.

Hoje, Raquel divide-se entre Lisboa e Bruxelas, mas só porque deixou muitas amizades na Bélgica. Cá ou lá, todo o seu trabalho é remoto. Uma vez que muitos dos contactos são com os EUA, tem aproveitado a diferença horária para tomar o pequeno-almoço “nas calmas” e fazer exercício físico de manhã ou surf quando está em Portugal. Com regularidade, instala-se a trabalhar em espaços de cowork, sobretudo um na Costa da Caparica, quando mais não seja para evitar as “muitas distrações” que diz ter em casa. Mas também para fintar a solidão. “Consigo perceber que haja muita gente que se sente sozinha, mas eu não. Tento sempre rodear-me de pessoas que estão no mesmo ambiente.”

Salários de outra dimensão
No mês passado, Catarina Loureiro trocou a Talkdesk, um dos cinco unicórnios (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares) com raízes portuguesas, pela germânica Marley Spoon, cotada em bolsa na Austrália, um dos maiores mercados desta distribuidora de receitas e respetivos ingredientes ao domicílio, por via de uma subscrição. Os outros grandes consumidores dos pratos prontos a cozinhar são os norte-americanos, até por causa da parceria com Martha Stewart. Já a sede da empresa é em Berlim, enquanto o posto de trabalho de Catarina se situa entre a sua casa, no Porto, e um espaço de cowork próximo, mesmo que a Marley Spoon esteja agora a iniciar a operação em Lisboa.

“A minha equipa está toda em Berlim, e em novembro faço questão de ir lá conhecê-la, por isso estou em modo 100% remoto”, diz a nova responsável pela área de recrutamento, que aos 27 anos foi convidada para o cargo através da recomendação de um ex-colega. De modo a estar sincronizada com a capital alemã, Catarina optou por cumprir o mesmo horário da equipa no escritório, das oito da manhã às cinco da tarde, hora portuguesa.

“A pandemia veio trazer às empresas um ‘abre olhos’ muito grande. Aperceberam-se de que podem contar com os melhores profissionais do mundo e, sim, há muita gente a ser recrutada em Portugal”, nota Marcelo Lebre, cofundador da Remote, que já estabelece contratos de trabalho em 50 países em nome das empresas nas quais o trabalhador remoto vai, efetivamente, desempenhar funções. “Por outro lado, as pessoas também se aperceberam de que podem trabalhar para empresas muito melhores, com condições muito melhores, a partir de onde quiserem”, acrescenta o atual diretor de operações do quinto e mais recente unicórnio com ADN nacional, que estima alargar a sua esfera de ação a mais 35 países até ao final deste ano e a outros 95 em 2022, num total de 180.

Ao abrir atividade e ter o equivalente ao Número de Identificação Fiscal em cada país, a Remote funciona como uma intermediária na contratação de profissionais residentes nesses países. Pelo serviço, as empresas destinatárias pagam entre 250 e 550 euros mensais por trabalhador, acrescidos do respetivo salário bruto, verba a partir da qual cabe à Remote processar os impostos, os descontos para a Segurança Social e outros encargos legais. Esta solução permite evitar o recurso aos recibos verdes na relação laboral, outra possibilidade para as empresas quando não têm presença fiscal no país onde recrutam, mas vista pelos trabalhadores como menos atrativa.

De qualquer maneira, os salários tendem sempre a compensar, no caso de Portugal. “Estamos a falar de diferenças que atingem o dobro, o triplo ou até o quádruplo do que se paga aqui”, faz saber Marcelo Lebre. “O salário mínimo na Remote, a nível mundial, é de 35 mil euros anuais, seja para alguém que acabou de sair da universidade ou para uma pessoa que nem curso tem, e para fazer seja o que for.” A título de comparação, o salário médio bruto em Portugal, em 2020, situou-se nos €1 314, pouco mais do que 18 mil euros anuais.

E os impostos?

Contratar trabalhadores em Portugal quando as empresas não estão registadas nas Finanças traz desafios fiscais que aconselham o recurso a um contabilista. Tiago Caiado Guerreiro, advogado especialista em Direito Fiscal, ajuda a perceber as opções em cima da mesa

Trabalhador independente/recibos verdes
Contrato de prestação de serviços que deixa a cargo do trabalhador as contribuições para o IRS e a Segurança Social. Quanto ao IVA, haverá isenção se o contrato for feito com empresa da União Europeia.

Contrato de trabalho através de empresa intermediária
Trata-se de um contrato de trabalho por conta de outrem, assinado com uma empresa com Número de Identificação Fiscal em Portugal, que processa o vencimento com os respetivos descontos para o IRS e a Segurança Social. Pelo serviço, recebe um valor negociado com a empresa para a qual o trabalhador vai, efetivamente, desempenhar funções, além da verba correspondente ao valor do seu salário bruto.

Abertura de empresa
No caso de o trabalhador abrir empresa em nome individual para receber o vencimento, o imposto a pagar será o IRS. Só poderá deduzir despesas se, no período de tributação anterior, os seus rendimentos tiverem ultrapassado um montante ilíquido de 200 mil euros. Já no caso de optar por abrir uma sociedade comercial, ficará sujeito ao regime de contabilidade organizada e pagará IRC, podendo deduzir despesas. O valor a descontar para a Segurança Social será sempre de 23,75% do lado da empresa e de 11% do lado do trabalhador, em relação ao valor do salário bruto.

Natural de Anadia, aos 35 anos Marcelo viu a Remote atingir praticamente a fasquia dos 500 trabalhadores, 200 dos quais portugueses, e somar já “bastantes milhares” de contratos de trabalho para servir outras empresas. O que começou por ser possível apenas em Portugal, Irlanda, Dinamarca, Reino Unido, Índia e Estados Unidos da América está em vias de se instalar em quase todo o mundo, quando se completarem quatro anos após o lançamento e sem um único escritório de apoio ao negócio, cada vez mais num ponto sem retorno. Como lembra Marcelo, até advogados, contabilistas, financeiros e assistentes pessoais já estão a aderir ao trabalho remoto.

Concorrência global
Paulo Lopes, 30 anos, preferia ter um desses contratos como os da Remote a ser trabalhador independente na HL Global, empresa de equipamentos eletrónicos e de telecomunicações sediada em Hong Kong e com fábricas em Taiwan e na China. Ainda assim, não se queixa. Está convicto de que recebe pelo menos o dobro do que lhe pagariam por cá. “A desvantagem é que não há subsídios de férias nem de Natal nem seguro de saúde”, ressalva.

Natural de Pataias, Leiria, o consultor de TI, formado em Telecomunicações pela Universidade de Aveiro, não esconde que a ambição de trabalhar numa empresa no estrangeiro esteve sempre ligada à questão salarial. Quando trabalhou na Alemanha, em 2015, percebeu depressa que os seus conhecimentos seriam mais valorizados no exterior. “Mas lá não temos este bom tempo, a comida portuguesa, a família e os amigos…” Ao longo do ano e meio em que viveu em Munique, diz nunca se ter sentido em casa. “Comecei a perceber que o cenário perfeito era estar cá com o vencimento lá de fora”, concluiu.

Comecei a perceber que a minha concorrência era o mundo inteiro


Paulo Lopes
Consultor de tecnologias de informação

Ainda demorou algum tempo até entrar nos eixos, depois do regresso Portugal. Chegou a desistir da informática, após experiências insatisfatórias, para lançar um negócio de street food, de comida mexicana. Não vingou e atirou-se de cabeça à procura de trabalho remoto na sua área, para o estrangeiro. Correu os sites dedicados, como o Indeed, pesquisou no LinkedIn, foi a entrevistas, levou negas. “Comecei a perceber que a minha concorrência era o mundo inteiro”, rebobina. Foi então que, ao acrescentar aos filtros de pesquisa a expressão “falar português”, abriram-se as portas de uma empresa norte-americana que tinha uma parceria em terras lusas.

Terminada essa missão, Paulo encontrou outra, desta vez ao serviço de uma empresa asiática que pretende expandir-se para o mercado europeu. Cabe-lhe executar testes comparativos de performance entre os routers e respetivas antenas fabricados pela HL Global e os disponibilizados pelas operadoras de telecomunicações no espaço europeu. Para o efeito, desloca-se de Odivelas, onde vive, até à Lourinhã, onde a empresa instalou um centro de testes. Nos restantes dias, Paulo fica em casa a escrever relatórios e a preparar novos testes, reportando a um chefe polaco radicado em Londres. Em Portugal, a HL Global é apenas ele.

Foto: Lucília Monteiro

Catarina Loureiro
Gestora de recrutamento
27 anos

Passou de um regime híbrido na Talkdesk para uma função 100% remota na germânica Marley Spoon, que “serve” refeições por cozinhar ao domicílio em mercados gigantes como o norte-americano ou o australiano. À frente da equipa de recrutamento, a portuguesa natural de Lamego mexe os cordelinhos no escritório em Berlim, onde estão os seus colaboradores próximos, a partir da cidade do Porto, onde vive.

Para Gonçalo Hall, 34 anos, considerado pela Remote um dos 25 maiores influenciadores de trabalho remoto no mundo, “os portugueses têm uma coisa mágica” que os faz sobressair na Europa. “Além de toda a competência, nós falamos um inglês excelente, um espanhol decente e ainda português, o que constitui uma grande mais-valia para quem está a contratar em qualquer parte do mundo”, enfatiza o mentor da vila nómada digital em Ponta do Sol, na Madeira, cofundador da Remote Portugal e da Remote Europe, e atual consultor do governo de Cabo Verde.

Além da facilidade de comunicação, Gonçalo destaca o baixo custo de vida como outra vantagem em relação “à maior parte do resto da Europa”, que permite às empresas contratar em Portugal por salários mais reduzidos. A procura é tanta que os melhores profissionais chegam a receber mais de dez abordagens por dia para mudarem de emprego, sobretudo através das suas contas pessoais no LinkedIn.

O perigo do deslumbramento
Aos 29 anos, Pedro Santos assume-se como um desses privilegiados. “Sou um felizardo por gostar de computadores desde pequeno e por trabalhar nesta área”, admite este portuense residente em Gaia, desde 2016 na Doist.

Apesar de aliciado, tem resistido à mudança. Afinal, trabalha na empresa que foi a sua primeira escolha desde que se formou em Engenharia Informática. “Gostava do desafio de ser uma empresa remota e de poder trabalhar com pessoas dos quatro cantos do mundo”, justifica. O contacto era facilitado pelo facto de haver trabalhadores portugueses na Doist, mas na altura, devido à falta de experiência, aconselharam-no a passar primeiro por outras empresas. Um ano mais tarde, porém, já o estavam a contratar à Farfetch, o primeiro unicórnio português, onde começou. Pedro especializou-se em desenvolver software para o sistema operacional móvel Android e é nisso que trabalha, “ao lado” de mais de 100 colegas, de 38 nacionalidades e localizados em 31 países.

A Doist comercializa dois produtos informáticos que facilitam a organização e a comunicação internas nas empresas e que sofrem atualizações constantes. Tem clientes em todo o mundo e uma forte projeção no mercado gigante dos Estados Unidos da América. A empresa incentiva os trabalhadores a não ultrapassarem as 40 horas de serviço semanais e a darem primazia à vida pessoal, patrocina mensalidades em espaços de cowork e custos com a educação, e cobre despesas com material e serviços relevantes para a execução das tarefas profissionais. Regalias em cima de salários aliciantes.

Foto: Luís Barra

André Luís
Gestor de engenheiros informáticos
38 anos

Contratado como programador, depressa foi promovido a gestor de equipa numa das maiores empresas do mundo de trabalho à distância, a GitLab. Habituado a liderar engenheiros informáticos nas várias latitudes do planeta, cada qual no seu fuso horário, admite ter a flexibilidade ideal para organizar o trabalho em função da vida pessoal, o que considera um grande privilégio. Chega a conciliar viagens à neve com o trabalho e pondera trocar Lisboa pela serenidade do Alentejo.

Pedro alerta, no entanto, que nem tudo é cor-de-rosa neste mundo do trabalho à distância, dando o exemplo de empresas que vigiam os funcionários através de câmaras para terem a certeza de que estão a trabalhar. No seu entender, sem confiança recíproca não há relação laboral que resista, e o barómetro para as empresas não pode ser outro senão o da apresentação de resultados pelo trabalhador. Embora ciente de que a Doist “não quer super-heróis”, o portuense diz que a maior dificuldade que sentiu neste seu percurso de cinco anos foi a incapacidade de desligar. Nos primeiros tempos, reconhece que teve de fazer “um esforço consciente” para conseguir separar o trabalho do descanso, um problema que acaba por ser bastante comum, como já se viu.

A experiência não se compra, ganha-se com o tempo, e é por isso que Filipe Lacerda, da consultora HumanIT, diz ser “importante não saltar etapas” na carreira e evitar um certo deslumbramento precoce. “Passado um ano, os miúdos querem logo dar o salto, mas o momento certo é quando as pessoas já têm o know how suficiente para serem autónomas”, aconselha. “Numa fase inicial, não se devem preocupar muito com o dinheiro mas sim em construírem boas bases tecnológicas, em boas empresas, caso contrário vai correr mal e depois têm de voltar ao início.”

Sempre em trânsito
O trabalho remoto convida a uma vida nómada – ou, pelo menos, não a impede – e há muita gente que aproveita para mudar de ares. André Luís, da GitLab, tem planos para trocar Lisboa pelo Alentejo; Raquel Silvestre, da Avertim, anda entre a capital portuguesa e Bruxelas; a HumanIT, além de ter escritórios em Lisboa e no Porto, abriu outro na Covilhã; e vários municípios de Portugal alimentam a expectativa de atrair mais pessoas para o Interior. Um estudo da consultora Bloom Consulting, que envolveu mais de mil perfis-chave nas 18 capitais de distrito nacionais, parece justificar alguma esperança por parte dos autarcas – 89% dos trabalhadores portugueses estão abertos a trabalhar remotamente a partir de um município diferente daquele em que vivem, se surgir uma boa oportunidade.

Tenho uma vida simples, não compro nada, alugo tudo, janto fora todos os dias. Em Inglaterra, ganhava bem, mas trabalhava 60 horas por semana


Rosanna Lopes
Nómada digital

Para a luso-holandesa Rosanna Lopes, nascida perto de Haia de pai português e mãe holandesa, trocar apenas de município é pouco ambicioso. Depois de quatro anos em Barcelona e de outros quatro em Londres, deixou de ter poiso fixo. Ou, por outras palavras, como gosta de dizer, há seis anos que não tem casa. Tornou-se cidadã do mundo. Literalmente. “Não estava feliz. Queria ir para outro lado e não sabia para onde, até que descobri os nómadas digitais. Como fazia marketing online, tinha uma dessas profissões que me permitiam trabalhar a partir de qualquer lado”, constata. Assim começou uma viagem sem freio. América do Sul, Ásia, Europa, pelas suas contas são já mais de 45 países visitados em 38 anos de existência, embora não faça coleção.

O verão é sempre passado em Portugal. Rosanna gosta dos Santos Populares. Por causa das condicionantes da pandemia, acabou por permanecer por cá de um ano para o outro, mas chegou a hora de partir. “Provavelmente vou a Amesterdão visitar a minha mãe e depois sigo para a Argentina”, adianta. Em novembro, organiza em Buenos Aires uma conferência para atrair nómadas digitais.

Foto: D.R.

Raquel Silvestre
Gestora de projetos
27 anos

Terminou o curso de Engenharia Biológica na Holanda e foi no centro da Europa, mais propriamente na Bélgica, que se lançou no mercado, ao serviço da farmacêutica Baxter. Com a pandemia, entrou em teletrabalho e apreciou o novo modo de vida. Ao ser contratada, na última primavera, por uma consultora belga, atribuíram-lhe como cliente a farmacêutica norte-americana Janssen, para a qual trabalha em regime 100% remoto, a partir de Lisboa ou Bruxelas, onde gosta de ir para visitar os amigos.

No inverno, ela prefere estar na Ásia ou do lado das Américas, e por isso vai alternando, ano sim, ano não. Por norma, ajusta o seu calendário às festividades locais, o Carnaval do Rio, a Feira de Sevilha, a Loy Krathong na Tailândia… “Gosto de ver como se festeja no mundo”, justifica.

O receio de não ter trabalho quando adotou este estilo de vida evaporou-se num ápice. Um antigo patrão contratou-a logo como freelancer e, desde então, a luso-holandesa garante que teve sempre clientes sem que tivesse de os procurar. “Enquanto estou a tomar um copo de vinho ou uma cerveja com alguém, aparece um cliente indiretamente”, exemplifica. O passa-palavra e socializar é o quanto lhe basta, assegura. O projeto Lisbon Digital Nomads, que criou com um grupo de oito amigos e junta mais de 11 mil membros na rede social Meetup, também é uma fonte de novos clientes.

Rosanna é dona do seu horário, mas avisa que é preciso disciplina. “Se eu não trabalhar, a empresa não tem resultados.” É uma questão de mentalidade, acredita, e ela não se tem dado mal. “Tenho uma vida simples, não compro nada, alugo tudo, janto fora todos os dias. Em Inglaterra ganhava bem, mas trabalhava 60 horas por semana e depois oferecia-me presentes desnecessários para compensar. Agora, há dias em que trabalho quatro horas, noutros sete ou oito, e ganho mais do que nunca.” Nem todos os jogadores de futebol podem gabar-se do mesmo ao fim de alguns anos de carreira.

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