Cara empresa: Demito-me!

Foto: GettyImages

Os primeiros sinais de alarme surgiram em abril deste ano quando, nos EUA, 650 mil trabalhadores do setor do retalho se demitiram no espaço de um mês. Em julho, este número acumulado rondava os quatro milhões, segundo os dados do Departamento do Trabalho norte-americano. E isto “apenas” na maior economia do mundo, que entretanto encabeçou um movimento global que os especialistas apelidaram de “The Great Resignation” (o termo foi inventado por Anthony Klotz, da Texas A&M University). Algo como “A Grande Renúncia”, numa tradução muito livre para português. Que é como quem diz: as pessoas estão a demitir-se ou a considerar fazê-lo num curto espaço de tempo, porque as suas necessidades não estão a ser supridas pelas empresas onde trabalham.

Em Portugal não há dados específicos sobre demissões, mas a VISÃO fez alguns contactos junto de responsáveis da hotelaria e da restauração que deixam antever um sinal claro: este setor perdeu mão de obra e a grande maioria não vai voltar. Houve até empresários que confessaram que não voltam a abrir portas devido à falta de pessoal. A tendência é confirmada por Francisco Madelino, ex-presidente do IEFP, numa entrevista recente à VISÃO. “A hotelaria anda com falta de mão de obra. Recorre-se agora muito a trabalho temporário. A incerteza é tão grande… Não se consegue planear a três semanas”, justificava. No mesmo sentido, as empresas tecnológicas e de consultoria estão a braços com uma fuga de talentos, que procuram cada vez mais empresas alinhadas com os seus princípios, e não apenas boas condições monetárias, revelou recentemente à VISÃO Nuno Carvalho, da Deloitte, depois de ter analisado os mais recentes dados compilados no Human Capital Trends 2021. E há outro fator muito importante: com o trabalho à distância, abriu-se muito o universo de empresas onde as pessoas podem trabalhar, mesmo que morem noutro país ou até noutro continente.

As pessoas estão emocionalmente exaustas […] e a única cura para um esgotamento é fazer uma pausa e renovar quem se é

Anthony Klotz, Economista

“Este é um bom momento para falar sobre inclusão. Os funcionários querem trabalhar totalmente. Grande parte da razão pela qual não queremos voltar para o escritório é porque lá temos de  esconder parte de nós; temos de fingir quem somos. É desgastante. Pensar seriamente sobre inclusão significa garantir que os funcionários possam trazer tudo de si para o trabalho” – realça Klotz na página que dedica ao tema, ao mesmo tempo que reconhece que não quer funcionários para os quais trabalhar é a única coisa relevante nas suas vidas.

Tomas Chamorro-Premuzic, reconhecido psicólogo organizacional argentino, esclarecia numa entrevista à EXAME de outubro: este movimento de abandono do emprego sente-se “praticamente em todo o lado nos países desenvolvidos e nas economias do conhecimento. No início, o nível de despedimentos por iniciativa do trabalhador estava em baixa porque as pessoas que não tinham perdido o emprego estavam com medo de se despedir, porque a economia não estava a dar muitas oportunidades. Mas agora muitos trabalhadores tomaram consciência de que muitas empresas não merecem que eles fiquem. Talvez as pessoas também tenham refletido sobre quais são realmente as suas prioridades, se tiveram tempo para pensar e para reavaliar a sua carreira. Agora podem estar a mudar de ramo ou à procura de maior flexibilidade e de benefícios que, inicialmente, não sentiam que fossem tão importantes para a sua vida. Tal como trabalhar de qualquer lugar.”  

Klotz defende que um dos fatores que mais têm pesado neste movimento são os esgotamentos. “As pessoas estão emocionalmente exaustas. É um forte indicador de desistência, o que faz sentido, porque a única cura para um esgotamento é fazer uma pausa e renovar quem se é”, explica na página que dedica à sua teoria. No mesmo sentido, “trabalhar em casa também mudou a identidade das pessoas. Nós identificamo-nos muito com quem somos como funcionários, como trabalhadores. Durante a pandemia, muitos de nós dedicámos tempo a fazer coisas diferentes, à família ou a hobbies. E acho que muitas pessoas agora percebem: ‘Eu sou mais do que apenas o meu trabalho’”, defende.

4 000 000

Setores do retalho e serviços
Os EUA estão a enfrentar uma demissão em massa sem precedentes, sobretudo nestes dois setores. Empresas como a Target ou a Shake Shack têm-se dedicado a construir pacotes de benefícios cada vez mais apelativos para tentar evitar que os seus trabalhadores abandonem os postos, mas ainda não é claro que esteja a funcionar. 

41%

Pensar no futuro
Um estudo global da Microsoft, que incluiu mais de 30 mil pessoas em 31 países, revelava há uns meses que 41% dos trabalhadores pensam em despedir-se durante este ano. As razões: estão exaustos, sentem as lideranças desconectadas das suas necessidades e querem mais flexibilidade.

28%

Sem medo
O inquérito levado a cabo pela Limeade revelou que quase um terço dos inquiridos que se despediu este ano o fez sem ter qualquer outra perspetiva de emprego.

Vários inquéritos realizados nos EUA por diferentes consultoras revelam, precisamente, que o cuidado com a saúde mental, o respeito pelo tempo do trabalhador, a compreensão com as dificuldades que atravessa e o salário são outras das variáveis que estão a pesar na decisão. Segundo a Limeade, uma consultora estratégica de negócio, 28% dos trabalhadores demitiram-se mesmo sem ter outro emprego em vista. Entre aqueles que decidiram trocar um emprego por outro, 40% fizeram-no por lhes ser possível trabalhar remotamente, na nova posição, e 24% porque garantiram flexibilidade horária para desempenhar as suas funções. Já 22% afirmaram ter conseguido falar da sua saúde mental com o novo empregador, o que pesou na decisão.

No fundo, aquilo que se torna cada vez mais claro é que as prioridades dos empregados parecem ter mudado, e que eles não estão dispostos a resignar-se àquilo que os empregadores querem. E os especialistas acreditam que esse caminho já não tem retorno. “Neste momento, as pessoas estão à procura de significado e propósito. Nalguns casos, têm as respostas, mas noutros não. As organizações podem ajudar os seus trabalhadores a lembrarem-se de como o  seu trabalho contribui para o bem-estar do mundo. Acho que a liderança orientada por objetivos funciona”, realça Klotz. “Nos últimos 18 meses, muitas organizações têm lutado contra incêndios – com razão – mas esqueceram-se de lembrar aos funcionários como os seus trabalhos criam significado e propósito na vida de outras pessoas e nas suas próprias – a peça pró-social. Digo aos líderes: é hora de levar a sério a liderança orientada para o propósito, porque podem ajudar os funcionários a entender ‘O que estou a fazer oito horas por dia?’”

Sejam quais forem os motivos, certo é que o mercado de trabalho está a começar a sentir os efeitos da onda de choque provocada pela pandemia, e que ultrapassa largamente as variáveis económicas. A ideia de que regressaríamos aos modelos de 2019 está cada vez mais ultrapassada e, mais uma vez, cabe às lideranças descobrir como evitar perder os seus trabalhadores num cenário de crise.

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