Covid:19: Os perigos da “libertação” inglesa

À vontade Máscara na rua só se o Serviço Nacional de Saúde estiver a rebentar pelas costuras

A 19 de julho, os britânicos celebraram em massa o Dia da Liberdade, e os cerca de 40 mil casos diários não serviram de travão para o levantamento de algumas das medidas mais restritivas. A verdade é que a redução do número de novas infeções nas duas semanas seguintes parecia ser um indicador positivo da decisão tomada, mas o cenário mudou em agosto e poderá agravar-se muito em breve.

O alerta foi dado pelo Grupo Consultivo Científico para as Emergências (Sage, na sigla inglesa), que revelou que o outono e o inverno poderão ser catastróficos em Inglaterra. Segundo os conselheiros científicos do governo britânico, a média de novos casos diários – que ronda os 30 mil – poderá sobrecarregar os hospitais já em outubro, prevendo os especialistas um cenário de duas mil a sete mil hospitalizações por dia, só em Inglaterra, números acima dos 4 500 internamentos em todo o Reino Unido, no mesmo período do ano passado.

Segundo o Sage, há a possibilidade de o Rt (número de indivíduos que uma pessoa pode infetar) chegar a 1,5, se nada for feito entretanto. Os conselheiros científicos alertam ainda para que o relaxamento das medidas de mitigação contra a Covid-19 possa ser um gatilho para o aumento de casos de infeções respiratórias, incluindo a gripe.

O plano britânico contra a Covid-19
O governo britânico apresentou, no dia 14 de setembro, o plano outono-inverno para fazer frente à Covid-19, tendo-o separado em dois: o plano A, que começou já nesta semana e se centra na vacinação, prevendo a administração de uma dose da vacina a jovens entre os 12 e os 15 anos (são cerca de três milhões) e ainda um reforço vacinal a mais de 30 milhões de pessoas, incluindo-se maiores de 50 anos, pessoas com comorbilidades e profissionais de saúde; e o plano B, que foi desenhado caso a situação epidemiológica se agrave e comprometa o Serviço Nacional de Saúde, tal como os peritos preveem.

Apesar de o governo britânico apelar ao bom senso e à proteção individual (como o uso de máscaras sempre que se está com pessoas novas), e mesmo após os peritos terem pedido medidas urgentes antes do agravamento das hospitalizações, só num cenário mais catastrófico é que está previsto que as máscaras, o teletrabalho e o certificado digital possam voltar a ser obrigatórios.

Os números da Covid-19 em Inglaterra não são animadores

Contágios
1 207 879
(média de 40 mil por dia)

Hospitalizações
23 069
(média de 747 por dia)

Óbitos
2 651
(média de 85 por dia)

Atualmente, 81% dos maiores de 16 anos têm já a vacinação completa, mas o governo quer chegar a todos aqueles que ainda não foram inoculados (só em Inglaterra são 5,5 milhões), sendo este também um dos objetivos do plano A. Para Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular, o facto de o Reino Unido ter sido até agora “muito dependente da vacina da AstraZeneca” – foram compradas 100 milhões de doses desta marca, no início do ano – poderá justificar o foco na vacinação. “O tempo de espera entre a primeira dose e a segunda é muito grande, por isso é que eles começaram com uma vacinação muito acelerada e o ritmo em direção à vacinação completa desacelerou”, refere o especialista. Além disso, diz, a vacina da AstraZeneca “é também mais limitada em termos de eficácia contra a variante Delta”, podendo este ser um dos motivos por que os britânicos apostam agora na Pfizer, que será administrada tanto nos adolescentes como nas doses de reforço, independentemente da marca da última vacina.

Nos planos do Reino Unido está ainda a maior testagem e isolamento de casos positivos, com especial atenção para as escolas, sendo que as crianças e os jovens até ao Ensino Secundário irão ser vacinados contra a gripe.

Viagens com novas regras
Após um verão com um sistema de semáforos, o governo britânico apresentou um novo modelo para viagens internacionais, mais simples e que inclui apenas uma lista vermelha, em que se encontram os países de maior risco.

Neste novo sistema, que entra em vigor a 4 de outubro, os viajantes com a vacinação completa e oriundos de países considerados seguros (fora da lista vermelha) não necessitam de fazer teste PCR ou de ficar em quarentena. No entanto, o governo britânico mostra-se apreensivo face à possibilidade de surgirem novas variantes. Para a virologista Laura Brum, a questão das novas variantes pode mesmo ser o calcanhar de Aquiles nos próximos meses, pois “os países de África e da América do Sul, onde há muita infeção e baixas taxas de vacinação, são locais onde facilmente vão surgir variantes novas”.

“Temos de fazer um controlo de fronteiras rigoroso, ou então estas variantes, que vão surgir e viajar com toda a facilidade, têm de ser impedidas através da testagem e da quarentena das pessoas positivas; é a única forma de evitar a entrada de uma estirpe agressiva, com alta transmissibilidade nos países”, continua a especialista.

Responsáveis, nós?

Na reunião do Conselho de Ministros, agendada para esta quinta-feira, 23, o Governo irá discutir a próxima fase de desconfinamento, e poderão estar em cima da mesa a abertura de discotecas com a apresentação do certificado digital e o fim do limite de pessoas em casamentos, eventos culturais, lojas e por grupos em restaurantes. Para Miguel Castanho, faria sentido esperar “um tempo para ver se conseguiríamos manter a incidência [mais baixa] em condições de outono-inverno e, aí, sim, dar por terminada a fase pandémica com uma libertação mais generalizada de medidas”. Até porque, no “outono-inverno, pode haver, de facto, um retrocesso em termos de situação epidemiológica”. Após a última reunião do Infarmed, a palavra responsabilização fez eco, mas os dois especialistas consultados pela VISÃO defendem que não basta a população ser responsável, é preciso manter medidas de controlo. “O Governo não pode tentar libertar-se dessa responsabilidade”, diz Miguel Castanho, antes de dar como exemplo o “pacto de responsabilidade” ensaiado do Natal passado, e que “não resultou”, e o facto de termos assistido “a um incumprimento generalizado” no uso de máscara, quando esta ainda era obrigatória. Também para a virologista Laura Brum, “temos de ter sempre alguma medida a acompanhar” a responsabilização. Isto, além da máscara que, para a médica, “tem de ser um objeto nosso de uso quotidiano”.

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