Uma manhã de vacinação em Oeiras: Chegar antes de a porta abrir porque a pressa de voltar à vida normal é grande

Adelaide Pinto, 82 anos, viúva e sem filhos, não é pessoa para se isolar, mas confessa: “Reconheço que este confinamento está a mexer comigo, com a minha cabeça”. Ainda as portas do novo Centro de Vacinação, instalado dentro do Pavilhão Desportivo Carlos Queiroz, em Carnaxide, não estavam abertas e já a octogenária caminhava para a entrada. Apesar de ainda conduzir e de não ter graves problemas de saúde, desconhecia o local e vinda de Caxias preferiu ali chegar de táxi. A mensagem enviada pelo Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Lisboa Ocidental e Oeiras chegou na véspera ao seu telemóvel e Adelaide Pinto conseguiu responder que queria receber a primeira dose da vacina.

Logo a seguir, entra para a zona de espera Manuel Garcia, com 93 anos muito enxutos. Morador em Linda-a-Velha, costuma fazer ginástica, andar de bicicleta e fazer algumas tarefas da casa, pois da limpeza trata a sua mulher, Virgínia Branquinho, também com 93 anos. “Eu vim, mas ela tem medo e ficou no carro, não quer sair”, lamenta Manuel, na esperança que alguém a convença. Irredutível, Virgínia não saiu do carro, ninguém a conseguiu dissuadir, nem mesmo o presidente da câmara de Oeiras, Isaltino Morais, que à chegada para a inauguração do Centro de Vacinação passou pelo Mercedes antigo.

Onde há duas semanas estavam montadas mais de vinte secções de voto para acolher a eleição do Presidente da República, dá agora lugar a 12 gabinetes de vacinação. A Direção-Geral da Saúde requisitou seis gabinetes, mas dada a “dose de imprevisibilidade”, como disse Isaltino Morais na inauguração, a autarquia tratou de duplicar a lotação, num investimento total de 250 mil euros.

Neste concelho ainda considerado de risco muito elevado (com 2 004 novos casos por cem mil habitantes) e com o confinamento a não permitir a realização de noites de combate de boxe, nem aulas de fitness, o equipamento desportivo localizado na Outurela, em Carnaxide, torna-se o local ideal para dar prioridade à vacinação de 176 300 munícipes só das 13 unidades funcionais de saúde de Oeiras. O Centro de Saúde de Oeiras trata da vacinação dos profissionais prioritários e um pavilhão montado no bairro da Ajuda servirá a população de Lisboa Ocidental, com cerca de 70 mil utentes, mais envelhecidos do que os de Oeiras.

Na quinta-feira, 11, serão vacinados bombeiros, numa primeira lista de 150 e a semana continua com a administração da segunda dose dos idosos a morarem em lares.

Este dia de vacinação a 102 pessoas vai funcionar como um teste, para perceber o que funciona e qual a melhor maneira de fazer o circuito. Tendo feito as marcações para seis pessoas a cada dez minutos, batia tudo certo. Mas, a ansiedade e a grande vontade de ser vacinado levou a que muitas pessoas chegassem mais cedo do que a hora marcada. Abílio Trindade, 79 anos, foi um desses casos: estava marcado para as 11h25, mas chegou antes das nove.

O dia de Heloísa Gonçalves, 22 anos, adivinha-se quente e trabalhoso. Protegida da cabeça ao pés, com o equipamento de proteção individual, mais a máscara debaixo da viseira, faz parte da equipa de limpeza pronta a desinfetar todas as cadeiras. Assim que alguém se levanta e vaga um lugar, seja de tecido ou de plástico, é desinfetado com um detergente específico. Um grupo de 11 pessoas, da equipa Tempos Jovens da autarquia de Oeiras, tem a seu cargo a receção dos utentes. São jovens, na sua maioria, que têm de preencher o questionário inicial de quem chega para levar a vacina. É preciso saber entre outras coisas se a pessoa esteve ou está infetada pelo Sars-Cov 2, se tem tosse, febre ou perda de olfato e paladar, se recebeu alguma outra vacina nas últimas quatro semanas, se já teve algumas reações adversas a outras vacinas, se tem doença crónica, se toma anticoagulantes, se tem doença cancerígena ou se está grávida. Será também esta equipa a responsável por monitorizar a meia hora que as pessoas depois de serem inoculadas têm de esperar, na chamada Sala de Recobro, para ver se têm algum efeito secundário.

Abel Gravata, 79 anos, veio acompanhado por Lucinda, uma das quatro filhas. Depois de há quatro dias ter tido alta da Covid-19, está com dúvidas se pode ou deve receber a vacina. Depois de algumas hesitações no gabinete de vacinação, o médico Sérgio Amadeu esclarece que Abel pode receber a primeira dose. “Quem está contra-indicado a receber a vacina é quem está com o vírus ainda ativo”, explica o médico. E como existem ainda incertezas quanto à duração da imunidade após ter contraído o coronavírus, “e este senhor está há mais de dez dias assintomático, tem direito à vacina e não pode ficar desprotegido”, acrescenta.

Para lá e para cá, sempre no mesmo percurso, anda a enfermeira Lurdes Costa e Silva. Em conjunto com outra colega está a tratar da distribuição das doses em cada gabinete de vacinação, onde estão 15 enfermeiros (8 do ACES, mais 7 voluntários) a fazer as inoculações. As vacinas chegaram congeladas a Portugal e foram guardadas na Plataforma Logística em Coimbra. Já descongeladas viajaram para o ACES e têm de ser usadas no prazo máximo de 120 horas. As duas enfermeiras selecionam 1,8 mililitros de soro, mais 0,3 mililitros da dose da vacina – e sempre que as vacinas são multidoses são necessários quatro olhos para confirmar as dosagens. Não pode haver falhas e quanto menos sobras melhor. A lista de suplentes está feita e foi usada porque Virgínia Branquinho não saiu mesmo do carro. Pelas 10 e 20 da manhã, Adelaide Pinto preparava-se para ir embora. Regressa dia 3 de março para receber a segunda dose e quem sabe, a seguir, já pode ir às compras em Algés, estejam algumas lojas abertas.

Até esta quarta-feira, 10, Portugal tinha recebido 503 mil doses de vacinas, das quais 43 mil foram para as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Das restantes 460 mil, 415 mil já foram administradas desde 27 de dezembro de 2020 (298 mil primeiras doses; 116 mil segundas doses). Seguindo o atual Plano Nacional de Vacinação contra a Covid-19, agora coordenado pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, as previsões apontam para que Portugal atinja 70% de vacinados no final de agosto ou início de setembro.

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