O que são os portugueses hoje, segundo Eduardo Lourenço

Tiago Miranda

Conversámos com Eduardo Lourenço no seu gabinete da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. O maior ensaísta do século XX português, que completará 95 anos no próximo mês de maio, mantém uma janela aberta sobre o mundo, permanecendo a par das grandes questões do nosso tempo. Apesar de, intelectualmente, se assumir como herdeiro da Geração de 70, Lourenço não se escusa a comentar os dias de hoje, artes, política, futebóis. Continua também a aceitar convites para ir falar a todo o lado, a acompanhar as notícias do dia, a escrever à mão em bocadinhos de papel. Sossegará, conforme nos conta, quando encontrar um sítio para deixar os seus livros. Leitor e colunista da VISÃO desde a primeira hora, ajuda-nos nesta edição especial a pensar o que são os portugueses hoje. Entrevista-ensaio à volta de perguntas.

Somos europeus?

Quer queiramos quer não, quer o sintamos quer não, nós somos europeus. Podíamos usar isto como uma espécie de slogan: a Europa nunca existiu. Enquanto nação, a Europa nunca existiu, é constituída por uma pluralidade de nações e, em última análise, isso é o que ela tem de melhor, porque, quando quis ser mais do que isso, a Europa tornou-se um fator de guerrilha interna perpétua, de guerra civil.

O autor de O Fascismo Nunca Existiu, de Nós e a Europa e de tantos outros livros que ajudaram o País a pensar a sua identidade mantém o sentido de humor, a fina ironia de quem, no fundo, se vê como herdeiro da Geração de 70. Nasceu em 1923, em São Pedro de Rio Seco, uma “aldeia-fantasma” do concelho de Almeida, na Beira Alta. “Sou da fronteira, mas quando se tem 14 ou 15 anos não se tem ideia nenhuma do que é ultrapassar os Pirenéus.” Eduardo Lourenço casou com uma francesa, viveu estrangeirado em Vence, na Provença, ao ponto de também se considerar francês: “Sou francês, uma parte de mim é francesa.”

Não temos outro horizonte que não seja o europeu. A própria Europa, provavelmente, é uma utopia, uma utopia credível, mas uma utopia. Durante quase um século, a Europa esteve dividida em duas, por razões geopolíticas e também por razões de utopismo. De um lado, o Leste. Do outro, a América, o nosso filho, que cresceu tanto que nem nos damos conta das suas tropelias. Achamos sempre que os nossos filhos são extraordinários ou, então, que são uns excêntricos que nunca chegamos a entender, como é o caso do atual Presidente dos EUA.

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Pertencemos à Europa. Depois do 25 de Abril, quando Portugal procurou redefinir-se, reencontrar-se, houve quem, gente mais consciencializada ideologicamente, tenha achado que a Europa nos dita as suas condições. São nações sem as quais nunca poderíamos subsistir, desde logo porque as nossas trocas são com esses países, a começar pela nossa vizinha Espanha. O que é que nos restaria se a Europa nos fechasse as suas portas? Ou se fechássemos nós as portas à Europa, o que era ainda mais tremendo? Não tem sentido: somos europeus e sê-lo-emos cada vez mais.

Na Universidade de Coimbra, Eduardo Lourenço escreveu um texto que, ainda hoje, gosta de citar, Europa ou o Diálogo que nos Falta. “Onde é que eu fui buscar isto? A lado nenhum, estava no ar, estava escrito.” Continua a falar desse “diálogo” quando quer falar do lugar que em sorte nos calhou, a Península Ibérica, “a cauda da Europa”.

Quando se atravessam os Pirenéus é que se percebe que a Península Ibérica é uma continuidade desde os tempos mais antigos. A Europa foi colonizada pelos gregos e pelos romanos, e depois houve uma Europa mais moderna, que antecipou várias conquistas na ordem política. Temos a ideia mítica de que a democracia veio da Grécia Antiga, mas a verdade é que se não houvesse uma Inglaterra ou uma França com as suas regras e leis avant la lettre não teríamos democracias tal como temos hoje.

Somos americanos?

Somos todos cada vez mais americanos. Os nossos hábitos, os nossos mitos, desde que o cinema foi inventado que somos todos americanos. E o cinema, fundamentalmente, quer dizer América. A Europa não sabe fazer aqueles filmes porque os problemas dos americanos, por conta de um passado sem nostalgias que nunca poderão sentir, são os americanos.

Sobre a internet, essa enorme máquina amplificadora, Eduardo Lourenço diz-se incapaz de falar: “Sou de outra época. Nunca entrarei nessa terra da promissão.” Acrescenta, contudo, que não pode ignorar “um instrumento que todos os jovens têm nas mãos, de manhã à noite”. E que continuamos implicados num sistema que, de um lado, tem a mítica Europa e, do outro lado, tem a América, os filhos do exílio da antiga pátria.

A América nasceu com o pior da Europa da altura, mas, neste momento, tem tendência para se lembrar dessas origens e reclamá-las mais do que nunca. A mensagem que Donald Trump, o atual Presidente dos Estados Unidos da América, evoca constantemente é a de que eles estão first. Mas são o first do mundo inteiro, não apenas deste continente ou daquele. É verdade que todos os povos, na medida do que podem, reclamam sempre os primeiros lugares. Mas a América não tem mais nada que reclamar: é a grande vencedora da II Guerra Mundial, ninguém pode esquecê-lo, isso condiciona todo o presente que continuamos a viver. A Inglaterra e os EUA, praticamente sozinhos, representaram o Ocidente na sua luta, com um personagem europeu, chamado Hitler, sintoma das contradições do espaço europeu daquela época.

Somos pequeninos?

Na cauda da Europa? É uma expressão de que gosto pouco. E que, além disso, também tem o sentido que Fernando Pessoa lhe deu: o que está na cauda da Europa é aquele que olha e que, no outro lado, vê o mundo que não existia. A Geração de 70, de Eça de Queirós a Antero de Quental, queria estar em Paris. Hoje, a nossa Paris já não é Paris. A nossa Paris é Nova Iorque. Ou é a Califórnia. Os locais de referência mudaram, mas nós continuamos a querer estar num lugar bonito, grandioso, de onde se veja tudo.

Para demonstrar o que quer dizer, Eduardo Lourenço vai buscar exemplos às artes, ao desporto, à História. Portugal e os seus feitos heroicos têm hoje, no seu entender, outra visibilidade. Cita Os Lusíadas, poema épico de um país pequeno, “que da Ocidental praia Lusitana”. E também o Le Monde do dia seguinte à vitória de seleção portuguesa no europeu de futebol, em 2016: “Ce petit pays”, escrevia-se no diário francês, esse pequeno país que, no fundo, “tinha roubado à França a vitória que era dela”, diz Lourenço.

Toda a cultura ocidental tem hoje uma visibilidade superior ao tempo em que cada um estava fechado na sua própria casa. E os portugueses também nunca deram tanto nas vistas: no desporto, no atletismo, nas artes. E isso, para mim, que pertenço a uma geração que ainda estava muito impregnada pelo exemplo da Geração de 70, é uma coisa completamente inesperada.”

As nossas perspetivas são modestas, mas o extraordinário na aventura foi esse contraste entre o que nós realmente somos enquanto país (pequeno, não muito rico.) e o nosso imaginário de gente que sai daqui e que vai à descoberta de novos mundos. Não haverá muitos povos com esta espécie de décalage entre aquilo que são e as utopias que nascem dessa consciência.

Volta à baila, o futebol. E o modo como este também é a manifestação da religiosidade que, segundo Eduardo Lourenço, é inata à natureza humana. “Aqui, o ato mais religioso é o futebol: um delírio e, ao mesmo tempo, uma loucura. Tudo aquilo são lutas, expressões violentas neste País que passa por ser um país suave.”

Ao selecionarmos as imagens do nosso passado, escolhemos as mais glorificantes, mais ternas, as nossas Rainhas Santas, as nossas Rainhas Leonor. Imagens que colocam Portugal na sua missão mais originária: este País nasceu no tempo em que a Europa era objeto da invasão árabe, do primeiro grande ataque que, paradoxalmente, tem algumas ressonâncias ainda no nosso presente.

Somos eternos marinheiros?

Eduardo Lourenço socorre-se da palavra “veleidade” para falar do contraste entre a “pequenez” do País e aquilo que o seu povo pretende alcançar. E também faz uso do romance A Jangada de Pedra, no qual José Saramago efabulou sobre a Península Ibérica transformada em jangada a flutuar no meio do Atlântico.

Como o nosso país é tão pequeno, temos veleidades de querer transformar a nossa pequena barca numa barca maior. Portugal é, em todo o caso, uma barca errante. Como aquela história de José Saramago: a jangada de pedra foi a jangada que nos levou até à Índia. Há uma passagem extraordinária nessa ficção que é muito divertida: quando esse bocado da ‘Europa à portuguesa’ se destaca, as pessoas chegam ao meio do Atlântico, não sabem para onde é que hão de ir e, então, andam às voltas com uma espécie de bússola doida à procura do Norte.

Jamais voltámos a sair para o mar. Como se, ainda agora, estivéssemos regressando sem cessar do mar para onde fomos. O mais extraordinário dessa nossa ida à Índia é que não sabíamos onde era a Índia, aliás, não sabíamos coisa nenhuma… E, mesmo assim, fomos.

No seu entender, os Descobrimentos explicam-se também pelo confronto entre os dois países da Península Ibérica, “um vizinho cinco vezes mais importante que nós”. E, para si, os portugueses continuam a regressar desses mares para onde partiram há cinco séculos.

Não se sabe bem porque o destino de Portugal não foi, por exemplo, o da Catalunha. Ou o que a Galiza reclama. A Galiza é um Portugal que nós pensamos sempre com muita ternura. A nossa raiz é, ao mesmo tempo, hispânica. A Europa só se pensa em termos mundiais e não esqueçamos que foi connosco que ela, pela primeira vez, se pensou desse modo. Cometemos uma proeza sem repetição. Somos o que somos porque fomos os primeiros a levar a Europa para fora da Europa.

Há coisas míticas com a nossa cidade, Lisboa. A cidade de Ulisses, onde no entanto Ulisses nunca pôs os pés. E, se por algum porto ele devia passar a caminho do Norte, era pelo de Lisboa. A ideia sempre foi sair do lago interior, o Mediterrâneo, em direção ao vasto mar que eles sabiam existir, pois os nórdicos já tinham exilado-se do seu frio glacial para procurarem temperaturas mais benignas.

As suas palavras mantêm o lirismo que sempre esteve presente na sua escrita. Fala, por exemplo, da “desolação” que os portugueses sentem pelo facto de nada de Portugal se ver a partir do Espaço. “Se ao menos fosse possível distinguir o Rio de Janeiro, esse nosso filho adorado.”, comenta. Na órbita da Terra, porém, ninguém dá por nós. “E o que mais queríamos era sermos vistos do alto dos céus. É essa a nossa vida, é essa a nossa loucura.”

(artigo publicado na VISÃO 1307 de 22 de março de 2018)

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