Da prisão do pai ao caso Selminho: A saga incrível da família de Rui Moreira

Rui Moreira estava sozinho no seu gabinete na Câmara do Porto, ao início da tarde de 18 de maio, quando o telemóvel tocou. O advogado Tiago Rodrigues Bastos tinha más notícias: a juíza de instrução do caso Selminho decidira que o autarca, acusado de “atuação criminosa” a favor da imobiliária da família e em prejuízo do interesse público, ia a julgamento. “Calhou no dia em que o meu pai faria 90 anos. Pensei: que mais me farão? Não é por mim, é pelos meus filhos, familiares e amigos.” Até ali, tivera “fundada esperança” de que nunca se sentaria no banco dos réus. Quando o tribunal recusou ouvir o advogado Pedro Neves de Sousa, representante do município à época dos factos e única testemunha que indicara, Moreira interpretou a nega como sinal de que tudo se esclarecera. Desapontado, preparou uma declaração pública. Mãos a tremer, voz embargada, escudou-se na memória do pai, que “sofreu na pele uma perseguição terrível e venceu sem nunca se ter vitimizado”. 

Ruy Höfle de Araújo Moreira, antigo dono do grupo Molaflex, falecido em 2000, é ainda o guardião afetivo das alegrias e agruras desta família da burguesia do Porto, pouco dada à frequência dos salões e aos formalismos, seguindo o exemplo do patriarca, rebelde por feitio e avesso às nomenclaturas. Visionário, com raízes germânicas maternas, fluente em cinco línguas, deixou gratas memórias entre operários e funcionários, apesar das opções políticas controversas do pós-revolução. O que de nebuloso houve talvez nunca se esclareça. As circunstâncias da prisão, a 12 de março de 1975, por suspeita de ligações ao Exército de Libertação de Portugal (ELP), organização clandestina de extrema-direita, continuam envoltas em conspirações, equívocos e narrativas políticas contraditórias. A acusação, essa, nunca veio.

Álbum de família Rui Moreira com os pais, os irmãos e um primo, memórias nas quais não faltam as cartas em que o pai relata a prisão no pós-25 de Abril

Para o filho, talvez haja coincidências a mais. Senão, vejamos: à cabeça da comissão administrativa militar que presidiu à Câmara do Porto de 28 de maio a 15 de setembro de 1975, esteve o capitão que prendeu o pai. Condecorado este ano pelo Presidente da República como grande-oficial da Ordem da Liberdade, Boaventura Ferreira tinha como vice-presidente na autarquia o então oficial miliciano e licenciado em Direito, José Afonso. O militar interrogou Ruy Moreira e foi por este considerado “um dos inquiridores mais ferozes” numa carta guardada no arquivo da família. Se quisesse explicações deste advogado que se cruzou na vida do pai, bastaria ao filho sair pelas traseiras do edifício camarário e, em duas penadas, estaria no seu escritório, na zona da Trindade. Dele talvez ouvisse algo assim: “O Ruy Moreira e outros foram presos porque havia suspeitas fundadas de colaboração com o ELP, que visava ações violentas e o assassínio político do comandante da Região Militar do Norte, Eurico Corvacho, entre outros”, explica José Afonso, desmentindo o recurso a ameaças e torturas. “Nunca aconteceram. Os detidos deviam ter sido interrogados na presença de advogados, é verdade, mas o ambiente era de guerra e se de alguma coisa podemos ser acusados é de puro amadorismo. Não estávamos preparados nem organizados e era preciso acudir a muitos fogos ateados pelos extremistas de direita e de esquerda. As provas em relação ao ELP eram avassaladoras, mas não houve tempo para fazer acusação porque a situação política mudou.”

Os militares que interrogaram e prenderam Ruy Moreira por suspeitas de ligações ao ELP foram depois presidir à Câmara do Porto

O império Moreira
Voltaremos a esse episódio quando a revolução irromper na história desta família, deixando marcas que o tempo não apagou.
Antes disso, o filho de Edith Höfle, alemã com raízes judias em Hamburgo, e de Eugénio Moreira, nascido numa família de comerciantes típicos do Porto, com origens em Milheirós de Poiares (Santa Maria da Feira), ficara famoso por impulsionar o negócio de molas para estofos, coxins e carcaças que o pai iniciara em 1951 na cave do café Eldorado, em São João da Madeira, com o sócio e judeu polaco Siegfried Weinberg.

Pela mão de Ruy Moreira, velejador exímio, várias vezes campeão na classe snipe, o grupo Molaflex solta amarras, estende-se às ilhas, Angola e Moçambique. O braço-direito é o irmão Mário Moreira, solteirão, deputado da ala liberal na Assembleia Nacional no final do regime, administrador e “homem do terreno” para os quase três mil trabalhadores, desaparecido num acidente de viação, em 1978. “Eu e o meu falecido irmão pensávamos que, com a evolução destas colónias, era possível caminhar para uma federação de estados”, dirá o industrial numa entrevista ao jornal Labor (1995).

Molaflex Ruy Moreira foi condecorado por Américo Tomás, mas não era considerado um dos industriais do regime

Além de colchões, a empresa fabrica almofadas, espumas, peças para a indústria metalúrgica, mobiliário escolar, tecidos e estofos para automóveis e comboios. Há ainda a empresa de navegação da família, mais tarde liderada por Rui Moreira. O ambiente social na fábrica fora coisa rara em ditadura, para mais em São João da Madeira, onde, com exceção da Molaflex e da mítica Oliva das máquinas de costura, se multiplicavam exemplos de escravatura laboral. Ruy Moreira ia além dos mínimos legais, embora os salários gerassem conflitos e os aumentos não fossem certos. “Num Natal, o engenheiro Oliveira Dias, diretor industrial, recusou-os. Mas a seguir à revolução aderiu ao PCP e foi vereador na Câmara do Porto”, recorda o então sindicalista Fernando Sousa. “Lá dentro, nem os patrões foram tão carrascos”.

A Molaflex tinha telescola, ação social extensiva às famílias, transporte ao domicílio por turnos, pagamento de propinas e material didático para frequência de cursos industriais, estágios no estrangeiro, pavilhão social, gratificações no final do ano (embrião de um ainda distante 14º mês), assistência médico-social, financiamento para construção de casa, prémios de produção e de assiduidade. “E ao lanche havia leite simples ou cacau da Toddy”, recorda António Alberto, que entrou na empresa em 1970 como paquete e saiu, 48 anos depois, responsável pela secção de compras. “Era muito difícil entrar para a Oliva e Molaflex porque davam regalias sociais que nenhuma das outras tinha”, lembraram ex-operários.

Selminho: no princípio, eram os porcos
A Selminho, pertencente ao clã Moreira, está no centro da polémica que levará o presidente da Câmara do Porto a ser julgado, acusado de ter tentado beneficiar a família em prejuízo do interesse público. Mas a história da sociedade começou em Caminha em 1978. Na versão do autarca, antigos trabalhadores do pai em Angola, retornados, pediram ajuda ao industrial da Molaflex para criarem um negócio. O local escolhido foi Vilarelho. “O meu pai comprou-lhes o terreno, ficou como sócio minoritário e construiu-se uma suinicultura. Ou seja, a Selminho começou por ser uma empresa que criava porcos, engordava-os e vendia-os, mas a família nunca geriu aquilo”, assegura Rui Moreira à VISÃO.

A certa altura, a Câmara de Caminha, incomodada com o facto de os esgotos serem lançados monte abaixo, numa zona de soberbas vistas de mar, informou a empresa e a família Moreira de que não queria a suinicultura no local. “Propuseram que a exploração fosse abandonada em troca de edificabilidade. O meu pai ficou com aquilo, fez-se um loteamento e vendeu-se. Por razões fiscais, era preciso reinvestir a mais-valia. E assim nasce a imobiliária”, explica Moreira. Seria ainda a Selminho – Unidade de Seleção e Testagem do Minho, Lda., enquanto suinicultura, a comprar, em 2001, os terrenos junto à Ponte da Arrábida a um casal que, segundo os tribunais superiores, não provou a aquisição dos mesmos. “O arquiteto Alcino Soutinho, grande amigo do meu pai, falou com o meu irmão Luís Miguel para adquiri-los por causa da capacidade construtiva.” Valor: 35 mil contos à época. “Foi o único negócio da Selminho”, assinala Moreira. Em 2016, a sociedade familiar gerida pelos irmãos Sebastião e Bárbara ainda apresentou um projeto para um aldeamento turístico na zona de Vilarelho (Caminha), mas o mesmo esbarrou no PDM e recebeu decisão desfavorável.

Condecorado pelo Estado Novo em 1966, o industrial não fora, contudo, um apaniguado da ditadura. Enquanto estudante na Universidade de Leeds (1948-1950), deslumbrara-se com o Partido Trabalhista de Clement Attlee, primeiro-ministro do pós-guerra que legou à Inglaterra o Estado social, o Serviço Nacional de Saúde e a prosperidade económica. “O meu pai não era um homem do regime. Estava entre a social-democracia tradicional e a democracia cristã. Com o tempo, foi ficando conservador”, refere o filho. Ruy Moreira criticava o condicionamento industrial e lamentara a entrega à família Mello do monopólio da navegação, obrigando-o a vender navios.

Família da burguesia do Porto com raízes germânicas, o clã Moreira nunca gostou de salões nem de formalismos

Na Molaflex, a PIDE não entra, a repressão fica à porta, confirmam antigos funcionários. Em casa, não faltam livros proibidos e amigos com opiniões desconfortáveis e irreverentes para a linha política da época. A referência de Ruy Moreira é Dom Sebastião de Resende, antigo bispo da Beira (Moçambique), natural de Milheirós de Poiares, que convertera a avó luterana do autarca do Porto ao catolicismo. Para quem pretendia afirmar-se em ditadura, o prelado, liberal, não era a melhor companhia. Vigiado pela polícia política, denuncia perseguições e injustiças que vitimam os negros na colónia. Para ele, Salazar é um “chefe manhoso e terrível” e a censura “cretina, abusiva e estúpida”. Estas e outras críticas fá-las nos seus diários, mas também nos agitados almoços da Quinta do Seixal, propriedade da família Moreira naquela freguesia de Santa Maria da Feira. A tanto não se atreverá Ruy Moreira, mas se um dos filhos se chama Sebastião é porque o padrinho foi uma boa influência.

Abril despedaçado 
Os negócios de Ruy Moreira chegaram ao 25 de Abril pujantes.
“Ao contrário da capital, o Porto nunca se apaixonou pelo Império. Estava muito à frente de Lisboa e olhou sempre para norte, relacionando-se com Hamburgo, Bristol ou a Flandres. O meu pai viajava muito, através da Molaflex e da empresa de navegação. Viveu na Holanda, na Bélgica…”, relata o filho.

No País, o período político conturbado, as greves, paralisações, exigências salariais e os plenários de trabalhadores despedaçam o clima de paz podre a que os patrões se habituaram, enquanto as esquerdas se engalfinham em lutas de protagonismo, a ver quem é mais revolucionário.

Pais Ruy Moreira e Maria João tiveram oito filhos, cujos matrimónios geraram, até ver, 19 netos. O industrial faleceu em 2000, viajou pelo mundo, mas nunca trocou a Foz nem Milheirós de Poiares por outras paragens

Na Molaflex não é diferente. O industrial sente o tapete a fugir e as opções políticas não ajudam. Alinha com a direita radical à volta do Movimento Federalista Português/Partido do Progresso. Discursa no primeiro comício no Porto, em julho de 1974 e, segundo Diogo Pacheco de Amorim, sobrinho do fundador, financia a formação política que guardava autênticos arsenais de armas nas sedes e seria ilegalizada por apoiar a tentativa de golpe spinolista da “maioria silenciosa”, a 28 de setembro de 1974. Ruy Moreira ainda será ouvido por um juiz de Santa Maria da Feira por causa do seu envolvimento na conspiração, mas sem males maiores. Por essa altura, o filho rumara a Londres para estudar Gestão na Universidade de Greenwich. Mas lembra que o pai “tinha a pior opinião possível do general Spínola. Amigo era o [Presidente da República] Costa Gomes, com quem jogava bridge”.  

“O meu pai nunca culpou o PCP pelo que lhe sucedeu. Foi mais canalhice do que ideologia”, diz o autarca do Porto

No início de 1975, Ruy Moreira recebe uma delegação do SPD alemão na Molaflex a pedido de Mário Soares. Mas são as movimentações na sombra a inspirar vigilâncias do novo poder revolucionário. O pai do presidente da Câmara do Porto é detetado em reuniões clandestinas do ELP em Espanha (Verín e Salamanca), nas quais participam, entre outros, Vieira de Carvalho, antigo presidente da Câmara da Maia, Azeredo Leme (irmão do general Carlos Azeredo) e dois estrangeiros, Morgan e Castor, com supostas ligações à CIA. João Pinto Ranito, dissidente do ELP, discordara de ações violentas e passara a infiltrado. É a chave para a identificação das pessoas envolvidas e para a denuncia de novo golpe, que viria a confirmar-se a 11 de março de 1975.

Rui, o “Molinhas” da TV

Para alguns, era uma lenda urbana. Outros, mesmo com muitos anos de empresa, nem sequer tinham ouvido falar. Na fábrica hoje sediada em Santa Maria da Feira e com donos estrangeiros não sobreviveu, aparentemente, qualquer registo. Mas a foto anexa, retirada do arquivo familiar, e o depoimento de Rui Moreira à VISÃO dissipam as dúvidas: sim, o agora presidente da Câmara do Porto foi, ainda criança, a estrela de um dos primeiros anúncios televisivos da Molaflex – Molas Flexíveis, Lda. – com traços vanguardistas. Na década de 1960, por decisão do pai, o pequeno Rucas, como era tratado na intimidade, andou aos saltos nos colchões da empresa paterna, e até a alcunha Molinhas pegou, ao ponto de Rui Moreira torcer o nariz quando o tratavam por esse nome nos tempos em que fazia vela. “Detestava.”

O Molinhas acabou por tornar-se desenho animado e mascote da empresa, com direito a boletim informativo interno, anúncio de TV e imagem gravada em porta-chaves e outros adereços. No fulgor desses tempos, em que se chegaram a fabricar mais de 200 colchões por dia, a empresa ainda patrocinou o single da efémera banda Os Nómadas (1968), da qual fizeram parte dois dos mais respeitados enólogos da atualidade: João Nicolau da Almeida (baixista) e António Agrellos (guitarrista). Nessa época, o marketing parecia ir de vento em popa, bem à frente do seu tempo, mas não sem nódoa: num anúncio publicado na Imprensa diária, antes do 25 de Abril, caiu a letra “c” na palavra colchões. Mas nem por isso o entusiasmo murchou. 

Dias antes, Ruy Moreira chamara ao escritório um funcionário da Molaflex da sua confiança. Fernando Sousa não sabe ao que vai, mas encontra-o receoso. Havia o boato de que circulava uma lista com 1 500 pessoas de direita a abater, mas a chamada Operação Matança da Páscoa nunca passará de fake news da época: na prática, foi um engodo para precipitar nova escorregadela spinolista. Temendo ser um dos visados, Ruy Moreira previne-se: “Pode levar-me no seu carro ao aeródromo de Paramos?”, perguntara o industrial ao seu funcionário. Fernando Sousa anuiu, sem pestanejar.

Seguiram ambos no Fiat 128 do sindicalista e dirigente do então Movimento de Esquerda Socialista (MES) rumo a Espinho. Na pista, uma avioneta aguardava Ruy Moreira para levantar voo. O “11 de Março” apanha-o em Paris, de onde telefona ao filho, para Londres, prometendo ir ao seu encontro. Depois desmarca. A Molaflex está que arde e dois militares aparecem à sua procura. Um militante comunista – cujo nome o filho mantém em segredo até hoje – avisa a família e sugere que o patrão da Molaflex se mantenha longe. No dia seguinte, o industrial apresenta-se na fábrica. “Andam à minha procura. Sabe o que eles querem?”, pergunta ao confidente Fernando Sousa. “Provavelmente é para o prender”, ouve. “Embora fosse de uma direita mais flexível, suspeitava-se de que ele financiava o ELP. O bombista Ramiro Moreira namorava uma rapariga ali perto, em Cucujães, e fora visto na receção da Molaflex duas vezes”, recorda o sindicalista. 

Cartas da prisão
A 12 de março, Ruy Moreira é detido por Boaventura Ferreira na fábrica. “Dei-lhe ordem de prisão e ele não disse nada. O que havia dizer? A malta apareceu-lhe num jipe, com G3, eu, o condutor e um aspirante, licenciado em Direito, por causa das legalidades. Quando cheguei ao Porto, entreguei-o no CICA1 [Centro de Instrução de Condução Auto].” Com os bens da família congelados, o filho sente um friozinho na espinha. Pelo pai, incontactável, e pelo facto de se sentir sem chão em Londres. Entre lavagens de pratos, trabalhos em bares e cozinhas, desenrasca-se, “à portuguesa”.

O industrial negará sempre as ligações ao ELP e a presença nos encontros em Espanha. Perante as fotografias, reage: “Não sou eu.” Até novembro, estará detido num quarto dos oficiais no CICA1, depois na cadeia de Custóias e, finalmente, em Caxias, onde acorda sem saber como viajou, admitindo ter sido drogado. Os advogados Artur Santos Silva (pai), Francisco Sousa Tavares e Daniel Proença de Carvalho defendem-no e, embora não seja nomeado no documento, é um dos protagonistas do Relatório das Sevícias, elaborado a propósito de alegadas violências exercidas sobre os presos pelos militares revolucionários, mas contestado por outros ilustres como Jorge Sampaio e Orlando de Carvalho. “Muitos exageraram o que lá é relatado, mas o meu pai passou coisas de enorme gravidade, incluindo simulacros de fuzilamento”, conta Rui Moreira que, por momentos, interrompe os estudos em Londres para estar perto da família.

Em Custóias, o pai fora colocado em celas com presos de delito comum e estivera 90 dias em isolamento, sem visitas. “Começa a ter problemas circulatórios graves, pede auxílio e não lhe é prestado. E nunca mais recuperou disso. Houve pressões inacreditáveis sobre a minha mãe e até uma tentativa de desafiar o meu pai a fugir durante uma saída precária para, provavelmente, lhe darem dois tiros.” Nas cartas da prisão, Ruy Moreira admite estar à beira do colapso. Perdera 14 quilos e assinala pressões para a sua libertação junto de Costa Gomes, do MFA (Rosa Coutinho e Otelo) e do PS (Lopes Cardoso e Mário Soares), além de diligências por parte do SPD alemão e da embaixada dinamarquesa. Entre os seus amigos, estão Pereira de Moura, ex-ministro dos governos provisórios, e Sousa e Castro, do Conselho da Revolução, que suspeitam de uma vendetta pessoal.

Centenas de trabalhadores promovem uma manifestação de apoio a Ruy Moreira junto do quartel-general no Porto, reivindicando a sua libertação num tempo em que as encomendas escasseavam e os salários estavam ameaçados. “Católica, apostólica, romana”, Maria do Carmo visitara-o em Custóias e prometera mobilizar colegas. Nas ruas, o protesto é reprimido e há pancadaria com militantes revolucionários. “A comissão de trabalhadores da Molaflex não estava unida e denunciaram-me aos militares. Fui interrogada durante horas, pois estavam convencidos de que eu tinha sido subornada pelos patrões. Não estava e não minto, que eu ainda tenho uma alma para salvar”, justifica.

Para os trabalhadores mais radicalizados, Ruy Moreira era o “reacionário” ligado “à alta burguesia financeira” que promovia “salários de miséria”. Os jornais Esquerda Socialista e Poder Popular, do MES, dedicam-lhe páginas no tom inflamado da época. Dois diretores desses tempos são Augusto Mateus, futuro ministro da Economia de Guterres, e Ferro Rodrigues. “Era o mais radical de todos. Agora até mete pena”, desabafa Fernando Sousa sobre o presidente da Assembleia da República. “Cometeram-se alguns exageros na fábrica, claro, era tudo muito ideológico”, reconhece.

Flashes Tempos de juventude de Rui Moreira em Montedor (de óculos escuros) e com o amigo João Álvares Ribeiro em Londres (1976), e já de barbas numa viagem a Macau e à China (1988)

Ruy Moreira seria libertado a 8 de novembro de 1975 sem nunca ter sido acusado e já com o brigadeiro Pires Veloso, de direita, no comando da Região Militar do Norte. O filho sempre culpou o antecessor no cargo, Eurico Corvacho, pelos “desmandos”. Mas não só. “A família ficou sempre mais ressentida do que o meu pai. Ele dizia que eram excessos revolucionários, mas nunca culpou o PCP pelo sucedido. Nem eu. Na Molaflex, o MES tinha mais poder, mas isto foi mais canalhice do que ideologia”, refere o autarca. A família fora alvo de tentativas de extorsão, vira a empresa ocupada e a casa atacada por bandos armados, mas defendida por trabalhadores da fábrica que se revezavam. Quando o patrão regressou, Fernando Sousa desencravou aquilo que o consumia há meses: “Porque me pediu para o levar ao aeródromo quando tinha motoristas e carros topo de gama ao dispor?”, perguntou. “Consigo, sabia que não era abatido”, respondeu Ruy Moreira. Segundo o antigo trabalhador, o industrial “nunca exerceu represálias por causa do que lhe sucedera”.

A arte da “não política”
Quando hoje vê Rui Moreira na TV, a propósito do caso Selminho, a antiga operária Maria do Carmo volta ao passado. “Estás a sofrer o que o teu pai sofreu”, reage, como se o autarca a escutasse. Descontado o exagero, a evocação paterna é amiúde trazida ao campo de batalha político.

Candidato independente pelo CDS à Câmara de São João da Madeira em 1976, nas primeiras autárquicas, o pai prometera uma maternidade, infantários e jardins de infância, habitações económicas e cantinas municipais. Perderá a eleição por 270 votos, mas fica vereador. Mais tarde, será presidente da assembleia municipal e eleito na freguesia de Milheirós de Poiares, onde é recordado como benemérito pelo atual presidente, Manuel Melo.

Regionalista, Ruy Moreira recusou quase toda a vida enveredar pelos “tortuosos caminhos” da política nacional. Em 1993, porém, filiou-se no CDS, do qual foi dirigente, sem mudar uma vírgula no autorretrato. “Considero-me um não político”, dizia, frase que o filho quase poderia decalcar. A dada altura, Rui Moreira fez da intervenção cívica a sua praia, talvez inspirado pelo exemplo. Recolocou a Associação Comercial do Porto no mapa enquanto lóbi local e regional e ajudou a impedir a construção do aeroporto da Ota.   

Seixal A quinta do clã Moreira em Milheirós de Poiares (Santa Maria da Feira), onde a família é conhecida desde 1510. Em cima, com a mãe e os irmãos

Aos poucos, a família libertou-se dos negócios, sociedades e propriedades do pai Moreira. “Morreu há mais de 20 anos e é natural que, aos poucos, a gente vá desmontando as coisas”, assume o autarca. A Selminho está parada há dois anos. A Morimor, holding familiar, foi extinta, e o palacete da Avenida Montevideu, na primeira linha de mar e na posse da família durante 110 anos, foi vendido em 2017 a um operador hoteleiro, gerando um encaixe, segundo o Expresso, de um milhão de euros para cada irmão (são oito). “Temos a nossa Quinta do Seixal, onde vendemos alguma madeira, e uma sociedade agrícola.”

A Molaflex dava regalias sociais num tempo em que a escravatura laboral era o quotidiano das fábricas em São João da Madeira

Com a recente decisão judicial a ensombrar Rui Moreira, a família não faltou à apresentação da recandidatura à câmara, no Super Bock Arena, sob o lema “Aqui há Porto”. Tomás, o mais próximo dos irmãos em idade, desde sempre ligado à indústria automóvel, é monárquico. Bárbara trabalha no imobiliário e no aluguer de alojamentos turísticos. “É totalmente liberal, à esquerda. Até já terá votado no Bloco!”, admite o irmão. “O Luís Miguel não quer saber de política, administra uma empresa internacional de logística que distribui vinhos para todo o mundo.” Nos intervalos, entretém-se a desancar Rui Rio e os socialistas nas redes sociais à boa maneira do Chega. Com o irmão Sebastião, arquiteto, há uma relação especial: graças a um rim doado por ele, Rui Moreira fintou uma insuficiência renal terminal. Tiago “trabalha numa empresa do Porto de Leixões”, enquanto Maria João é diretora da Riopele. Na política, é do Aliança. Rita é indefetível das opções políticas do mano, empresária do ramo imobiliário e administradora não executiva da SAD do FC Porto, onde Rui Moreira também faz uma perninha no conselho superior. O sonho de presidir ao clube passou-lhe pela cabeça, mas perdeu validade.

Numa família que idolatra o pai, mulheres à frente do seu tempo não faltaram. A avó Edith terá sido das primeiras a tirarem carta de condução no Porto. Maria João Carvalho, a mãe, “sempre foi muito liberal e é das pessoas mais tolerantes do mundo”. A maior referência de Rui Moreira é a avó materna, Maria Amélia: traduzia autores franceses para a livraria Tavares Martins e, por isso, havia sempre Simone de Beauvoir e Sartre escondidos, uma peça de teatro para ver, um filósofo e padre jesuíta para descobrir (Theilard de Chardin), “e muitas conversas interessantes”.

Diante da ideologia e da cultura, Rui Moreira não puxa da pistola, por contraste com o outro que puxava da calculadora. Mas tem os seus dias. “Quando ouço a direita a falar, sou profundamente de esquerda; quando ouço alguma esquerda, fico com uma vontade louca de ser de direita.” Deve ser de família. mbcarvalho@visao.pt

Rui Moreira, antifascista e pelo socialismo

No pós-25 de Abril, o liceu Garcia de Orta foi palco de contendas estudantis e eleições ganhas por uma lista em que o atual autarca do Porto se destacava. Memórias de um perfil desconhecido

UEDI Reunião da União de Estudantes Democratas Independentes, criada no liceu Garcia de Orta em 1974. Atrás de Rui Moreira (a falar) está José Pedro Aguiar Branco, advogado e ex-ministro do PSD


“Temos trabalhado e lutado para que o nosso liceu dê um passo decisivo em direção a uma democracia viva, permanente e duradoura (…). Que os fascistas, os provocadores e vira-casacas de todas as espécies e feitios, que se tentam esconder aos olhos dos outros, pensem bem antes de se darem a uma causa perdida.” O autor do editorial do número 1 (e único) do Estrutur, boletim datilografado da União de Estudantes Democratas Independentes (UEDI), não mastigava quando anunciava ao que vinha. Apoiado pelo CDS e pela IL na “corrida” à presidência da Câmara do Porto, Rui Moreira parecia então um produto saído das franjas revolucionárias da esquerda juvenil. “Se, pela sua natureza social, Portugal ainda não é socialista, poderá, dentro de determinadas condições, converter-se num país socialista, passando do sub-desenvolvimento ao socialismo, sem ser pela via capitalista de desenvolvimento”, escrevia, na edição em que condenava “o imperialismo e neo-colonialismo” e defendia a “participação ativa da classe operária na revolução económica”. 

A UEDI juntara jovens anticomunistas como o advogado e ex-ministro Aguiar Branco, a psicóloga Isabel Macedo Pinto ou o livreiro José Manuel Lello. O jornal, impresso na fábrica da Molaflex, do pai de Rui Moreira, incluía poesia de Eugénio de Andrade, Brecht e textos sobre educação sexual. Os estatutos foram redigidos em casa do patriarca da família Moreira, cujo primogénito deixara o Colégio Alemão na 3ª classe, passara pelo Brotero e liceu D. Manuel II, estreando-se no Garcia de Orta quando este abre portas (1969), liceu predileto das famílias das classes privilegiadas e médias da Foz e da Boavista. “Foi o primeiro liceu misto. Vivia-se um ambiente diferente, de grande liberdade”, recorda o autarca, que ali andou do antigo 3º ao 7º ano.

O temível 7º K
Os meses anteriores à revolução apanham-no no 7º K, “a turma mais radical do liceu”, segundo Moreira, cujos alunos foram suspensos durante semanas por impedirem a professora de Inglês de entrar na aula. “Não aprendíamos nada e queríamos uma avaliação à qualidade do ensino”, recorda. O pai não gostou. “Ainda vais para a tropa”, avisou-o. Ele até discordara da medida, mas submetera-se à vontade da maioria.

Conflitos com o reitor levaram à suspensão do estudante comunista Henrique Sá, cuja integridade gera solidariedades de colegas e docentes, diferenças políticas à margem. “Ele era muito querido por toda a gente”, diz Rui Moreira sobre o irmão de Rui Sá, ex-vereador da CDU no Porto. “A família Sá é de primeiríssima água”, atalha Aguiar Branco, amigo de infância de Henrique. “Ganhámos a associação de estudantes à UEC [União de Estudantes Comunistas], que tinha uns barbudos a organizarem as eleições e professores a apoiarem”, refere Moreira. “Éramos mais betinhos e atrativos para aquele universo”, ironiza Aguiar Branco. Henrique Sá não recorda tal coisa. “Eleições?! Como, se a seguir ao 25 de Abril, quase não houve aulas e depois veio o serviço cívico?” Isabel Macedo Pinto insiste: “Foi uma vitória épica, até porque a UEC era mais organizada. Mas nem sei se tomámos posse.” As narrativas do Garcia de Orta e as “sarrafuscas” ali vividas, essas, já ninguém lhes tira.

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