Make Terceira great again: A nova vida das Lajes

O que têm em comum Portugal, Marrocos, Guiné Equatorial e Uruguai? Para acertar na adivinha, é preciso ter o mapa-múndi em mente. Independentemente da dimensão, do regime político ou do PIB per capita, todos estes países são banhados pelas águas do Atlântico – o suficiente para alimentar uma relação que se quer pacífica e profícua, acredita-se nos corredores do Ministério da Defesa Nacional.

Sobre as águas serenas da baía da Praia da Vitória, na ilha Terceira, a dança entre o helicóptero Merlin, da Força Aérea Portuguesa, e uma corveta da Marinha, durante um exercício de simulação de resgate, marcou o lançamento do Atlantic Centre – a organização idealizada pelo Governo português para juntar todos os países tocados pelo Atlântico. Na foto que ficará para a posteridade, marcam presença os governantes nacionais, com o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, à cabeça. Mas também lá estão os representantes de algumas das primeiras nações a dizer “sim” ao apelo lançado pela diplomacia portuguesa, como é o caso dos EUA, Senegal, França e Cabo Verde.

Assinatura O Miradouro de Santa Rita, sobre a baía da Praia da Vitória, foi o local escolhido para a apresentação do Atlantic Centre

Uma imagem e um propósito bem diferentes dos que juntaram, há quase 20 anos, na mesma ilha e na mesma Base da Lajes (onde está sediado o novo organismo), os dirigentes dos Estados Unidos da América, Reino Unido, Espanha e Portugal, na famosa Cimeira das Lajes. Em 2003, assinava-se a guerra, quando as quatro nações se decidiram pela invasão do Iraque. A 14 de maio de 2021, prometeu-se a paz e a prosperidade, baseadas numa filosofia abrangente. Nela, inclui-se o combate às alterações climáticas, a investigação, a monitorização da Terra a partir do Espaço – daí a parceria com o AIR Centre (Centro de Investigação Internacional do Atlântico) –, a formação, além de, obviamente, estarem previstas ações relacionadas com questões de segurança (o primeiro curso ministrado nas Lajes será direcionado para o Golfo da Guiné, assolado por pirataria e sequestros).

“O objetivo é contribuir para a paz e a estabilidade na região do Atlântico, o que inclui questões como ciência, ambiente ou até pesca ilegal, que tem um enorme impacto, ao afetar a capacidade de pequenas comunidades se dedicarem a esta atividade, o que depois, mais cedo ou mais tarde, leva à prática de pirataria, como aconteceu na Somália”, exemplifica João Gomes Cravinho.

A reação dos potenciais aderentes – 66, ao todo – tem sido muito positiva. “Tradicionalmente, os países da América do Sul não gostam da ideia de ter países da América do Norte a trabalhar temas do Sul. Mas a visão, agora, é a de que o Atlântico é um só”, defende o ministro.

O objetivo é contribuir para a paz e a estabilidade na região do Atlântico”

João Gomes Cravinho
Ministro da Defesa

É no colo da diplomacia portuguesa que estes países, localizados nos quatro pontos cardeais, conseguirão conversar, trocar conhecimento e vigiar a saúde deste mar que nos alimenta. A casa de família não precisou de grandes obras – um investimento de dois milhões de euros para renovar e adaptar as instalações, deixadas quase ao abandono pela desmobilização do contingente norte-americano da Base das Lajes. Mas nem o ministro, nem o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, pretendem dar a entender que os novos postos de trabalho, alguns deles para pessoas altamente qualificadas, irão compensar o desemprego – com estimativas que oscilam entre 500 e mais de dois mil – criado pela saída dos militares norte-americanos, que viviam, na Terceira, numa espécie de “pequena América”.

“Sem azul não há verde”
O que está agora em causa é a reputação do País e a sua relevância na política internacional. “A partir dos Açores, será possível dar uma centralidade a Portugal, que de outra forma não teríamos. A posição geopolítica do arquipélago permite tratar o Atlântico como um todo. É a única organização que o faz”, observa o brigadeiro-general Nuno Lemos Pires, que está à frente do Atlantic Centre. “A NATO ocupa-se do Atlântico Norte, outras organizações dedicam-se ao Atlântico Sul, há muitas de cariz regional, especializadas. Mas só há uma organização que junta 66 países, de forma igual, em torno do mesmo projeto”, reforça.

No momento da assinatura, foram já 16 os subscritores: Alemanha, Angola, Brasil, Cabo Verde, Espanha, Estados Unidos da América, França, Gâmbia, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Marrocos, Reino Unido, Senegal, São Tomé e Príncipe, Uruguai e, claro, Portugal, numa contagem atualizada quase diariamente.
Com tão nobre missão na declaração de intenções, não há quem se atreva a contestar. Muito menos o social-democrata José Manuel Bolieiro, de um partido político de cor diferente do Governo da República. “O valor acrescentado destas medidas não se reduz aos valores do investimento”, diz o advogado, pelo que não faz qualquer sentido estabelecer comparações com os anos dourados da vida americana na ilha. “Esta não é uma resposta ao downsizing na Base das Lajes. É uma iniciativa própria”, reforça Bolieiro. Mesmo assim, os dividendos chegarão, acredita. “Seremos uma centralidade em vez de uma periferia”, acredita o açoriano. “Não será mensurável num dia, mas sim a longo prazo, pela notoriedade dos Açores e também de Portugal e da Europa.”

Apesar de estar na dependência do Ministério da Defesa, esta é uma estrutura que deverá juntar esforços – e recursos – de vários quadrantes, porque, como diz Lemos Pires, “o oceano tem de ser sustentável, bem gerido e seguro”. Sem vida no mar, não pode haver vida em terra. Ou, como afirma o brigadeiro: “Sem azul não há verde.”

Foto: Luís Coelho

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