Economia: Que força tem a retoma portuguesa?

Afinal, uma recuperação em V ainda é possível? O desconfinamento permitiu à economia dar um salto, ao mesmo tempo que a injeção de fundos públicos parece ter sido bem-sucedida na proteção do emprego. Os indicadores avançados também sugerem que a retoma continuará a bom ritmo, levando a revisões em alta das previsões de crescimento. O que explica este comportamento da economia portuguesa? E que riscos ainda existem?

O número mais comentado chegou há um mês, quando foi anunciado que a economia portuguesa cresceu uns históricos 15,5% entre abril e junho deste ano face aos mesmos meses de 2020. Um resultado conseguido porque se partia de uma base baixa e que nem sequer compensa totalmente a quebra do segundo trimestre do ano passado (-16,4%). Muito dependente do turismo, Portugal foi das economias mais afetadas pela crise e é um dos 14 países da UE que ainda não regressaram aos níveis de produção de riqueza de 2019.

No entanto, ele sinaliza que, à medida que as restrições desapareçam, a economia tem força para acelerar. Quando se compara com o trimestre anterior, depois da maior quebra em cadeia, Portugal dá o segundo maior salto da Europa (4,9%). Este dinamismo da primavera, conjugado com outros indicadores avançados, está a motivar um maior otimismo sobre o crescimento deste ano. O ISEG reviu recentemente em alta a sua previsão e o ministro das Finanças espera que as suas próprias estimativas sejam superadas em 2021 e 2022. Quanto mais o ano avança, mais otimistas as instituições têm ficado – Comissão Europeia e Banco de Portugal esperam uma variação do PIB acima de 5% no próximo ano.

No pico da crise, já tinha sido assim. Embora tenha sido a segunda maior recessão de sempre (-7,6%), a contração da economia foi inferior às previsões de todas as instituições, inclusivamente do Governo. Com apoios públicos ambiciosos, a atividade aguentou-se melhor do que muitos esperavam. Agora, na retoma, podemos estar a assistir ao mesmo. “O crescimento do segundo trimestre sugere que, em condições de controlo da crise sanitária e ausência de restrições, a economia tem potencial de crescimento e de regresso ao nível de atividade anterior à crise”, diz à VISÃO António da Ascensão Costa, professor do ISEG. “É de esperar que continue a crescer nos próximos trimestres a ritmos relativamente elevados.”

Ainda há poucos indicadores para o verão, mas eles também sugerem boas notícias. “Em julho e agosto a maior parte da informação aponta para a persistência de uma tendência favorável, de contínua recuperação, ainda que a um ritmo mais moderado”, aponta Paula Carvalho, economista-chefe do BPI, destacando “as vendas a retalho, os pagamentos eletrónicos ou as exportações de bens, todos eles já acima dos níveis de 2019”. Por outro lado, apesar de provavelmente ser um problema temporário, a produção industrial atravessa dificuldades devido aos “estrangulamentos nas cadeias de produção globais, a escassez de inputs ou produtos intermédios”.

João Borges de Assunção, coordenador do NECEP da Universidade Católica, pede alguma perspetiva. “Ainda estamos muito longe do PIB trimestral do final de 2019. 4,6% abaixo”, refere à VISÃO. “A melhor forma de interpretar os dados do segundo trimestre de 2021 e do terceiro trimestre de 2020 é que há um forte ressalto sempre que se reduz de forma significativa o grau de confinamento da sociedade.”

Isso é bastante claro quando falamos de consumo das famílias. Reprimidos durante meses devido à pandemia, os gastos dos portugueses saltaram 18,1%, com avanços em todas as componentes, mas em especial bens duradouros, como carros ou eletrodomésticos. Porém, no caso do investimento, a resiliência é anterior. Com um grande peso da construção – vale metade do total –, o investimento só caiu num trimestre desde o início da crise, tendo vindo a acelerar desde esse momento.

Segundo o BPI, esse bom desempenho é explicado pela intervenção pública. O Estado realizou “uma série de investimentos necessários para o combate à pandemia, nomeadamente equipamento médico, ou a aquisição de material informático” escolar. O banco nota também que outro tipo de gastos, como a compra de material circulante para o Metro de Lisboa, terá “limitado quedas mais fortes de algumas das componentes” do investimento, assinalando ainda a proximidade de eleições autárquicas como um empurrão importante. O investimento público cresce 2,5% ao ano desde 1996. Em ano de autárquicas? O ritmo médio é de 14,6%.

Na relação do País com o exterior, há duas histórias a contar. A primeira é de exportações de mercadorias que, até julho, já superam mesmo os valores vendidos em 2019, antes da pandemia. Por outro lado, as exportações de serviços – essencialmente os gastos dos turistas estrangeiros – continuam muito longe do pré-crise (-36% no segundo trimestre). Com as viagens e a circulação muito condicionadas, a normalidade pode demorar a chegar. Só no mês de julho, as dormidas de turistas estrangeiros estavam 3,9 milhões abaixo de 2019 (-68%).

O que se passa com o emprego?
Talvez a maior surpresa esteja no mercado de trabalho. A taxa de desemprego de julho desceu para 6,6%. O mesmo valor de fevereiro do ano passado, antes do primeiro confinamento. Os números do desemprego têm gerado frequentemente bastante ruído, mas se olharmos para a população empregada, a conclusão é ainda mais impressionante: 4,84 milhões de portugueses têm trabalho, um máximo pelo menos desde 1998. São mais 238 mil do que no mesmo mês de 2020 e mais 89 mil do que em 2019.

Como se explica que um país ainda em crise, com uma pandemia ativa e restrições no terreno, esteja a bater recordes no mercado de trabalho? Francisco Madelino, antigo diretor do IEFP, resume assim: “Políticas públicas de emprego, contratações na indústria, recuperação do turismo, muitos empregos apoiados e o facto de ainda não conseguirmos ver os efeitos negativos do fim das moratórias. São esses os motivos para o emprego estar a surpreender.”

À VISÃO, o atual diretor do INATEL coloca a atuação do Estado como fator central. “A crise mudou o contexto e levou os governos a colocarem mais funcionários públicos, principalmente na saúde”, explica. De facto, no último ano, foram contratados quase 26 mil funcionários públicos, que estão agora muito perto do nível mais elevado de sempre.

15,5%
PIB
A economia portuguesa cresceu a um ritmo recorde no segundo trimestre

Além disso, “há um conjunto de setores que não são considerados da Administração Pública, mas que estão correlacionados”. Madelino refere-se a quem está integrado em programas ocupacionais dos centros de emprego. Em julho, eram 114 mil. Bem mais do que os 80 mil do mesmo mês do ano passado. “O IEFP paga para essas pessoas estarem em lares ou IPSS. E essas pessoas respondem nos inquéritos do INE que estão empregadas.”

Do lado do setor privado, os dados do INE mostram uma indústria a contratar (mais 43 mil no segundo trimestre) e uma construção que não foi travada pela pandemia – é, aliás, com a banca e o imobiliário, o único setor que já cresce face a 2019. “O segmento industrial, principalmente a metalomecânica, tem continuado a exportar. E é ano de eleições – a construção tem até tido falta de mão de obra.”

Contudo, ainda é cedo para saber se são números sustentáveis. Os negócios vão reagindo à procura e muitos contratos são temporários. Alguns sinais de vida de certos setores, como o turismo, podem ser provisórios e, entre o layoff simplificado e o apoio à retoma, há ainda 44 mil trabalhadores abrangidos. “Além do apoio público, a reabertura de atividades parece ter sido acompanhada pela contratação de novos empregados pelas empresas para tentar ganhar o momento”, sublinha Ascensão Costa. “Mas esta situação pode ter sido pontual e pode vir a retroceder em alguns setores. Sem uma recuperação económica consolidada não há garantias de que a situação no mercado de emprego esteja estável.”

À espera que o furacão passe
Todos os economistas contactados pela VISÃO aconselham cautela na interpretação dos dados económicos. A natureza da crise pandémica arrasta a atividade por altos e baixos e, embora Portugal tenha uma das maiores taxas de vacinação do mundo, o aparecimento de uma nova variante pode ser suficiente para colocar em causa muito do progresso.

Mais: é necessário lembrar que o Governo só consegue manter a economia à tona porque tem um enquadramento europeu muito favorável. As regras orçamentais estão suspensas, pelo menos, até 2023; e o BCE continua muito ativo nos mercados de dívida, mantendo os juros controlados.

-3,4%
PIB
Mesmo com o crescimento recente, a economia ainda está 3,4% abaixo do mesmo trimestre de 2019

A continuação desta política europeia é uma das incógnitas. Mas há outras: qual será o impacto do final das moratórias de crédito? O PRR aumentará o potencial da criação de riqueza em Portugal? O turismo regressará à dimensão que tinha em 2019? Quantas empresas afundarão assim que os apoios públicos desaparecerem? “É claro que, uma vez resolvido o problema sanitário, algumas sequelas económicas irão permanecer ou levar mais tempo a resolver”, espera Ascensão Costa. 

A economia portuguesa está ainda no meio de uma tempestade. Só quando o furacão Covid-19 passar é que poderemos avaliar totalmente os estragos.

Palavras-chave:

Mais na Visão

LD Linhas Direitas
Linhas Direitas

O Rio que tardou

Rio calou-se, fechou-se, anunciou que estava a avaliar os dados da equação, e agora decidiu avançar. É o melhor que poderia acontecer para quem disputa o seu lugar

Visão Saúde
VISÃO Saúde

O que explica o abrupto aumento de novos casos de Covid-19 na Europa de Leste?

Nas últimas semanas, Rússia, Ucrânia, Bulgária, Polónia e República Checa têm registado alguns dos valores mais altos de infeções por Covid-19 desde o início da pandemia. A baixa cobertura vacinal acompanhada de um relaxamento das medidas de distanciamento são, segundo o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, uma combinação fatal

VISÃO VERDE
VISÃO Verde

Efeitos da covid-19 menos notados em Portugal em comparação com outros países, segundo um estudo

- Os efeitos da pandemia provocada pela covid-19 são menos notados pelos portugueses, em comparação com a média dos 30 países analisados no relatório 'Healthy & Sustainable Living', hoje divulgado

Mundo

Covid-19: Irlanda trava desconfinamento devido a aumento de casos e internamentos

O Governo irlandês confirmou hoje que vai travar o desconfinamento no país, devido ao aumento do número de casos de covid-19, não eliminando a maioria das restrições na sexta-feira, como estava previsto no plano apresentado em agosto

Mundo

Covid-19: Vacinar crianças abaixo dos 12 anos pode demorar "um pouco", avisa OMS

O diretor regional para a Europa da Organização Mundial da Saúde (OMS) admitiu hoje, em Lisboa, que a decisão de vacinar contra a covid-19 as crianças abaixo dos 12 anos ainda pode demorar "um pouco"

Política

Rui Rio recandidata-se à liderança do PSD

O presidente do PSD, Rui Rio, será recandidato à liderança do partido, refere um comunicado assinado pelo vice-presidente e agora diretor de campanha Salvador Malheiro. Rio evoca recentes "êxitos políticos" dos sociais-democratas para entrar na corrida contra Paulo Rangel

Economia

Aumento da receita do IVA será devolvido semanalmente em sede de ISP

O aumento extraordinário da receita de IVA decorrente da subida do preço dos combustíveis será devolvido semanalmente através de uma redução do imposto sobre os produtos petrolíferos

Política

Refugiados afegãos começam a trabalhar e as crianças estão na escola

A secretária de Estado para a Integração e as Migrações reafirmou hoje o compromisso de Portugal no acolhimento de refugiados, afirmando que alguns afegãos chegados recentemente ao país já estão a trabalhar e as crianças na escola

Opinião

Qual é, afinal, o lugar do cão?

Para a maioria das raças, incluindo muitos dos “rafeiros”, o seu lugar é em casa, connosco. Os cães também sentem frio, medo e necessidade de estar perto. Poder-me-ão dizer que sobrevivem na rua, é verdade. A isso respondo que um sem-abrigo também sobrevive na rua. No entanto, “sobrevive” é a palavra chave. Sobrevive sim, mas sem condições dignas e sem conforto. A opinião do veterinário João Seabra Catela

VOLT
Volt

Atraso nos elétricos pode custar 30 mil postos de trabalho, alerta Volkswagen

Diretor executivo da Volkswagen alertou a empresa que um atraso na transição para os veículos elétricos pode custar até 30 mil postos de emprego, principalmente devido à concorrência de outros fabricantes

Exame Informática
Exame Informática

Facebook quer contratar 10 mil funcionários na Europa para construir metaverso

Visão de Zuckerberg começa a tomar forma e a Facebook anunciou a intenção de contratar dez mil trabalhadores ao longo dos próximos cinco anos, na União Europeia, para construir o metaverso

Exame Informática
Exame Informática

Autoridades colombianas já esterilizaram 24 hipopótamos de Escobar

Há cerca de 80 animais à solta, nos rios à volta do complexo do barão da droga. Experiência piloto de castração está a ser feita com recurso a uma substância que bloqueia a fertilidade