Grande entrevista a Mário Ferreira: “O segredo de qualquer negócio é comprar barato”

Em casa É na Rua de Miragaia, no Porto, que Mário Ferreira tem os seus escritórios, de onde gere mais de 40 empresas Foto: Ricardo Castelo NFACTOS

Depois de se juntar à tentativa da Cofina de comprar a Media Capital, viu o grupo liderado por Paulo Fernandes recuar e avançou sozinho. Agora que está em curso uma OPA formal que fechará o processo, Mário Ferreira é o maior acionista individual da dona da TVI e abre o jogo sobre o caso e o futuro da sua televisão, num momento em que, no meio da pandemia, disparou o investimento nos barcos de cruzeiro para aproveitar a retoma que se aproxima.

Como carateriza este labirinto jurídico-mediático da Media Capital?
Não chamaria um labirinto. São formalidades, é o cumprimento da lei. Sendo este um dos maiores grupos de média, senão o maior do País, o processo da ERC tem todos os cuidados. O início foi turbulento, embora eu já estivesse alinhado e amplamente conhecido por todos os meios de comunicação, incluindo a ERC. Seria o segundo maior acionista naquela junção inicial, foi por isso que eu entrei neste negócio da Cofina para comprar o grupo Media Capital. Essa transição [depois da desistência da Cofina] não foi assim normal, nem pacífica…

Foi trapalhona…
Exatamente, foi uma trapalhada. Naquela altura o mundo parou, e as pessoas assustaram-se. E o que eu poderia dizer é que alguns assustaram-se e eu não me assustei, por isso é que continuei. Isso causou, não diria preocupação, mas surpresa – em alguns casos, para algumas pessoas. E no meio disso tudo, como houve ali uma mudança bastante abrupta de condições e de estratégia e de players até, percebe-se que as instituições tenham ficado um bocado de pé atrás a ver o que se estava a passar. Obviamente que isto demorou mais do que o normal. Houve um conjunto de forças que tentaram impedir que a operação se fizesse…

Quem foi?
Não pergunte… Comentários pouco abonatórios à transação que estava em causa, por parte da concorrência junto da CMVM e da ERC, que ficaram escritos e eu tive oportunidade de ler. E com os quais fiquei desapontando e até triste, porque eu não diria nem falaria de coisas que não sabia só pelo simples facto de, provavelmente, ter medo da concorrência que aí vinha. Mas isso aconteceu e está escrito, registado. Por grandes quadros da concorrência em geral. E depois penso que outra coisa que terá condicionado, de certa maneira, e que motivou a que o escrutínio – e ainda bem que assim foi – por parte da ERC e da CMVM fosse maior, foi uma determinada senhora ter decidido mandar cartas para todas as instituições em Portugal nas quais colocava ênfase em que fosse verificada a origem dos capitais. Inventaram sempre histórias no intuito de dificultar ao máximo e até de afetar a credibilidade, neste caso a minha, e, a seguir, também a de outras pessoas que tentaram participar na aquição de ações da Media Capital. Obviamente, a ERC demorou o seu tempo e deu os seus passos, deu a autorização. De seguida a CMVM deu os seus passos, fez uma análise que nós obviamente não vamos achar que é excessiva, mas também duvido que tenham feito isto a todas as pessoas que compraram grandes blocos de ações na bolsa. Mas, se fizerem, acho muito bem.

A arte da guerra À frente do quadro de Joe Black, em que a cara de Mao Tsé Tung é formada por nove mil soldadinhos de plástico, pintados à mão Foto: Ricardo Castelo\NFACTOS

Quando falou de uma senhora a mandar cartas, estava a referir-se a quem?
Eu preferia não dar mais palco a quem não o merece ter (ver caixa). De mim, não vai ouvir o nome dessa senhora. Só há uma senhora que tem andado a inventar histórias. Os estaleiros [de Viana] são uma história que ela inventou num processo que acabou por ser feito aos estaleiros e que a mim nunca sequer me quiseram ouvir. Mas agora, recentemente, quando a decisão da ERC estava para sair, pimba! Ana Gomes! Quando estávamos não sei quê da CMVM, pimba! Mas eu não quero estar a exagerar nisso.

Acha que esse escrutínio foi motivado pela pressão pública que foi criada, nomeadamente pela Cofina?
Não, acho que foi um conjunto de coisas. Não foi só Cofina. Aqueles comentários menos abonatórios que estão escritos lá de um alto quadro concorrente… não é da Cofina.

Está a falar da SIC?
Não vou dizer quem é. Quem foi lá fazer esses comentários menos abonatórios sabe quem foi e eles estão lá registados no relatório da CMVM. E sabe que eu li e não me esqueci.

O conflito com Ana Gomes

Sem querer dizer o seu nome, Mário Ferreira não esquece as acusações públicas de Ana Gomes, que tem questionado as intenções e as origens dos fundos do empresário. “Eu continuo a bater na questão da credibilidade e é por isso que às vezes não vejo de ânimo leve a tal senhora andar a dizer coisas infundadas que beliscam a credibilidade das pessoas. Eu podia ignorá-la, mas não ignoro e vai ter de assumir as consequências das asneiras que disse. Ainda lhe dei oportunidade de falarmos frente a frente, e que ela pusesse todas as dúvidas, com o advogado dela. Mas a senhora não me quis receber, não me quis ouvir. Infelizmente vai ter de ouvir em tribunal e pagar por isso, pelas asneiras que disse.”

Não se está a desresponsabilizar também um bocadinho disto?
Desresponsabilizar? Eu tenho toda a responsabilidade de um amigo, na altura, me pedir ajuda e dizer assim: “Gostava que me ajudasses a comprar o grupo Media Capital, os meus sócios atuais não estão para aí virados em aumentar as suas participações.” Aliás, a grande maioria deles até queria baixar a sua posição e estavam disponíveis para vender os direitos que tinham – como aconteceu, todos eles me venderam direitos para eu poder ficar com a segunda posição, a seguir ao Paulo Fernandes. Eu sou culpado de querer ajudar um amigo, a seguir sou culpado de ter sido a solução para um grande problema para 1 400 trabalhadores de um grupo detido pelos espanhóis que estava com problemas muito maiores para resolver em Espanha e na América Latina. Era já uma questão não estratégica. Na altura, já estavam com a cabeça noutro lado, já pensavam que o assunto estava entregue à Cofina e viram-se outra vez “com o menino nas mãos”. E eu, provavelmente, sou culpado de ter salvo o grupo, de não ter existido um problema maior, ordenados em atraso, e de ter garantido a viabilidade financeira de uma empresa que estava com resultados preocupantes naquele momento. Sou culpado disso.

A TVI e o grupo Media Capital não são a Cristina Ferreira. A Cristina Ferreira é um grande ativo, que estes investidores e este conselho de administração quer proteger e promover. Pelo facto de ela ser acionista, não deixa de ser tratada como o ativo importante que é e a diretora que é

Quando aquele aumento de capital da Cofina falhou, nas últimas horas, soube de imediato que “o meu passo vai ser chegar à frente e tratar disto”?
A CMVM aceitou como credível tudo o que estava feito, eu acho que deverão ter feito as diligências necessárias para ver se assim foi ou não. Não nos compete a nós, isso já é parte do passado. Para mim, a grande surpresa na altura foi a desistência do grupo, dos cinco acionistas principais da Cofina. Fiquei, na altura, bastante desapontado pelo facto de não terem dito nada formalmente e eu estar exposto, ter comprado já 2% de ações da Cofina para cumprir o percentual que tínhamos acordado. E ter ficado com as ações na mão e ter comprado a um preço médio de 40 e tal cêntimos e depois ter de as vender a menos de 20 cêntimos. Ninguém fica contente com uma coisa dessas. Isso que me fizeram… faz parte do passado, já enterrei esse assunto, já estou a olhar para a frente. O que se passou, passou. O que lhe posso dizer é que estou muito feliz por ter olhado para a frente imediatamente. O desafio que aconteceu foi que, com a desistência da Cofina, a administração da Prisa pediu-me para dar continuidade às negociações e ver de que forma podíamos arranjar uma solução.

Mas foi a administração da Prisa que pediu, ou foi o Mário que, perante aquela situação, se sentiu…
Não, não. Para mim, naquela manhã e naquela noite, quando me apercebi do que estava a acontecer, acabou. Foi pela insistência deles. No decurso desses dois dias, eles é que se meteram no avião e vieram cá nesse dia, de Madrid ao Porto. Foi aqui nesta mesa, sentaram-se aqui e disseram: “Não desista. Ajude-nos e nós ajudamo-lo.”

E por que razão a Prisa se dirige a si e não a um dos outros acionistas?
Porque eu era o segundo maior acionista. E os outros todos desistiram e deixaram-me pendurado. Quando eles perceberam que eu fui excluído do grupo – além de ter sido excluído do grupo, fui o único que os atendeu, porque eu até não sabia de nada –, eles ligaram-me para perceber o que se passou. E eu não sabia o que se tinha passado, eles perceberam que eu estava a dizer-lhes a verdade.

Mas por que motivo a Cofina o pôs de lado? Acha que o subestimou?
Vou ser sincero: não sei responder e já nem penso nisso. Houve uma altura em que isso me preocupava. Agora, quero olhar para a frente e que todos tenham saúde e muito sucesso. Acho que acabei por fazer um melhor negócio, um negócio espetacular, fruto das circunstâncias. E tive também sorte na altura porque, no meio daquela confusão toda, daquela tempestade perfeita, o Santander em Espanha fez uma reavaliação dos grupos de média – e tinha de fazer para a Prisa pela questão das participadas – e fez uma reavaliação do grupo Media Capital, naquela conjuntura, muito, muito baixa. E foi por essa nota de avaliação que fizeram o que eu disse: “Se são eles a dizer isto, eu não vou muito mais do que isto”, embora tenha pago um bocadinho acima daquilo que eles falavam.

Para fechar esse capítulo em relação ao passado, falou de um amigo que lhe pediu ajuda para resolver o problema. Como está essa amizade?
A amizade acabou naquele dia. Acabou. Você tem uma pessoa em quem confia e a quem se dispõe, num telefonema, a dizer “sim, senhor”, eu coloquei à disposição dele investir 25 milhões de euros – e, sinceramente, continuo a acreditar que ele teria feito um bom trabalho. Tem uma boa capacidade de trabalho, isso não está em causa. Acho que você não encontra assim muitas pessoas que digam que “sim” pelo telefone, confiando na pessoa. Foi uma quebra de confiança que, para mim, já não tem cura.

Tem imensos negócios, é conhecido como homem dos barcos. Porque, de repente, decide entrar na comunicação social numa altura destas, conturbada…
Já expliquei: porque o Paulo me pediu ajuda. Senão nem tinha entrado!

Mas, depois, podia ter desistido. Dá ideia que lhe dá mesmo gozo ser patrão de comunicação social.
Não use essa expressão porque não é verdade. Patrão de comunicação social, não sou nem é esse o meu objetivo. Eu tenho 42 empresas, entre as quais está a participação na Media Capital. Dentro da Media Capital, temos quatro núcleos importantíssimos: o digital, a produção (com a Plural), a televisão e as rádios. Eu entrei porque achei que o negócio estava muito barato e que se pode valorizar e ganhar dinheiro. Não tenho outra aspiração. Não tenho necessidade de vaidade, não tenho nenhum tipo de aspiração política, nenhuma necessidade de protagonismo exagerado nem de notoriedade. Foi uma boa oportunidade. Por mim, quando isto borregou, teria desistido. Pelo facto de a Prisa ter insistido comigo, percebi que a oportunidade poderia ser boa, que seria três ou quatro vezes melhor do que aquela em que eu estava a entrar inicialmente com o Paulo [Fernandes]. Mas percebi que o risco era cinco ou seis vezes maior. Eu não sou mentecapto, eu tinha a noção que inicialmente estava a entrar com um líder que estava a tratar de tudo porque sabia do negócio e sabia o que estava a fazer. Quando assumi esta fase em que estamos agora percebi que o desafio seria muito maior, o investimento seria muito menor, mas que os retornos – se aquilo funcionasse bem – seriam também exponencialmente maiores. Mas foi um risco de empresário e de empreendedor. Eu disse: “Bem, eu não percebo nada daquele negócio, mas hei de arranjar quem perceba. E assim foi.”

Há formas mais fáceis de ganhar dinheiro, não é? Ninguém ganha muito dinheiro com a comunicação social.
Acho que, até ao final do ano, ficarão bastante surpreendidos em relação a essa matéria. Acho que estamos a criar valor, desde já, pela gestão. Nos resultados nota-se uma melhoria, embora a altura ainda não seja a melhor, com esta questão dos confinamentos. Tivemos um junho que já compara em termos de faturação e negócio ao junho de 2019. Os indicadores são bons, acho que continuaremos a crescer até ao final do ano e que as notícias serão muito positivas, vamos esperar. O segredo de qualquer negócio, seja de pregos, sapatos, têxteis, tijolos, pratos, computadores, embarcações, televisão e rádio, é comprar barato. É que não há outro! Se você paga um valor exagerado pelas coisas, é óbvio que, num mercado pequeno como é o português, vai estar ali muitos anos para o recuperar.

Mas essa lógica de comprar barato para fazer dinheiro só faz sentido se a ideia for vender caro.
Não. Quando compra barato, terá rendimentos. Se comprar barato, a possibilidade de ficar satisfeito e ter um bom retorno, uma operação muito positiva e uma boa distribuição de dividendos é muito grande. Mas esta sua pergunta e alguns comentários que tenho visto aí pelos média portugueses estão um bocado desajustados, na realidade. Não é verdade que os grupos de média não tenham dado dinheiro em Portugal. A Media Capital, no seu histórico dos últimos dez anos, deu muito dinheiro! Sempre distribuiu entre 30 a 40 milhões de euros de dividendos. Não sei para que se criam estes mitos. Isso são conversas que temos visto aí de determinados blocos em que dizem estas patacoadas sem ir ver o que é o histórico. Deu muito dinheiro ou não, nos últimos dez anos? Então porque não há de dar agora, daqui para a frente? A própria Cofina continua com resultados positivos. É uma expressão que algumas pessoas e alguns comentadores usaram – e aquela senhora também usou: “Ah, os média em Portugal nunca dão dinheiro, eles querem isto é pelo poder, não é pelo dinheiro.” São coisas absurdas.

No final desta operação, como deverá ficar a estrutura acionista?
Eu estou disponível para comprar o que estiver disponível para ser vendido. O preço está fixado. O que aparecer apareceu e eu comprarei com todo o gosto, embora esta não tenha sido uma OPA voluntária. Somos bem-comportados e cá estaremos. Se a Abanca vender, eu fico contente. Em relação aos outros acionistas, irá manter-se a mesma estrutura, mas isto demonstra também a ironia desta situação. Muitos daqueles acionistas que entraram, eu não os conhecia de parte nenhuma; outros conhecia.

Não andou a fazer contactos?
A piada é que eu vi aí escrito em alguns sítios, até insinuado: “Epá, isso são mas é testas de ferro que estão a comprar, e depois passam.” Existiu, agora deixou de existir. A piada é que essas pessoas que compraram, obviamente compraram para elas – como viram ali uma boa oportunidade e muito bem – vão manter-se. E continuarão felizes e contentes.

Mas perdeu alguns desses parceiros iniciais? Até devido às questões públicas que existiam e algumas notícias difíceis, desagradáveis, que saíram, que visavam alguns desses parceiros? Houve gente a recuar por causa disso?
Um ou dois… Não aguentaram aquela pressão mediática que lhes foi feita na altura com a tentativa de os afastar. Essa tentativa foi feita a todos. Eu vi títulos em primeiras páginas sobre mim que, obviamente, não me deixaram nada contente. Mas eu tenho uma coisa: durmo muito bem com a minha vida, com o meu histórico e com o facto de ser um empreendedor português, com o livro totalmente aberto. É mesmo deixá-los falar e, no final, estaremos onde estamos hoje.

Os resultados semestrais da Media Capital saíram agora, continuam negativos mas bastante menos…
Sim, o primeiro semestre tinha de ser negativo, pelo confinamento. Mas os últimos meses geraram uma tendência, nesta continuidade, de que seja um ano já positivo. A evolução é muito positiva.

À descoberta No museu interativo World of Discoveries, dedicado aos Descobrimentos, que Mário Ferreira desenhou pessoalmente Foto: Ricardo Castelo\NFACTOS

E qual é o prazo, na sua cabeça, para fechar um exercício no verde?
Acho que os números estão a tender para resultados positivos. Gostaríamos que fossem positivos já no final do ano. Se não forem já no final deste ano, serão certamente no próximo. As previsões são muito otimistas.

A contratação da Cristina Ferreira, que é mais do que uma mera contratação, não está a ser o suficiente para as audiências terem dado aquele pulo. As pessoas achavam que era só juntar a Cristina Ferreira e…
Isso não é bem assim e nem nunca foi esse o nosso pensamento. Isso é o que se lê nas capas das revistas da especialidade, que inventam tudo o que é possível. Do género: “Cristina Ferreira despediu não sei quem; contratou não sei quem.” Na maior parte das vezes não é nada assim. A TVI e o grupo Media Capital não são a Cristina Ferreira. A Cristina Ferreira é um grande ativo, que estes investidores e este conselho de administração quer proteger e promover. Agora: é um ativo, como são os outros. Pode ser um ativo mais caro. Nós separamos as águas. Pelo facto de ela ser acionista não deixa de ser tratada como o ativo importante que é e a diretora que é. Ela, quando está nas reuniões do conselho de administração, tem de ouvir as críticas, se existirem. Se fizermos um balanço – e estamos a fazê-lo, como é óbvio –, o nosso prime time, que é onde está o dinheiro da publicidade, subiu muito! E é importante que continue a subir, porque as receitas de publicidade são aquilo que alimenta o negócio e a estação e continuarão bem. Nunca tivemos a expectativa de que fosse só entrar e já está. O facto de eu ter dito que este grupo de acionistas não é do setor e não percebe nada de televisão… mas tem bons conselheiros e boas empresas a fazerem estudos para ajudar nas decisões e na estratégia. Quando as pessoas escrevem nestas revistas: “A Cristina Ferreira fez assim, fez assado”, nós rimo-nos. A empresa é gerida por um conselho de administração que está muito bem assessorado.

O fim da amizade com Paulo Fernandes

A pedido de Paulo Fernandes, CEO, da Cofina, Mário Ferreira associou-se para a compra da Media Capital. Quando os acionistas da Cofina recuaram, o empresário não foi formalmente avisado e sentiu-se traído, acabando depois por avançar sozinho para a compra da dona da TVI. A amizade entre os dois homens terminou aí: “Foi uma quebra de confiança que, para mim, já não tem cura. A única coisa que lhe voltei a dizer, desde essa altura, foi há duas semanas… ele ia a passar e eu disse-lhe ‘boa tarde Paulo’, porque ele me disse ‘boa tarde Mário’ e continuou e mais nada.”

A contratação de Cristina Ferreira foi uma decisão sua?
Foi uma decisão arrojada, foi um investimento elevado, mas que se está a pagar muito bem e quando dizem: “Ah, o projeto não teve não sei o quê”, poderá acertar nuns e não acertar noutros. Faz parte da vida, como em tudo. Estamos contentes com a decisão.

Não está desiludido com a prestação da…
Claro que não. Estamos desiludidos é com a tentativa, que felizmente está a abrandar, do assassínio de caráter que foi feito à Cristina, pela sua mudança. Na altura havia dois grupos que se uniram contra nós também nesse sentido. Ela foi bastante injustiçada.

Em 2023/2024 era a altura ideal para entrarmos na bolsa de Nova Iorque

A liderança das audiências é crítica para o projeto?
O que é crítico para o projeto, em primeiro lugar, é que as audiências sejam boas. E que tenhamos uma audiência suficiente para que a receita cumpra aquilo que nós esperamos. Não temos um drama da liderança, queremos é fazer uma boa televisão. E sabemos que, ao fazer uma boa televisão, a liderança vem e as audiências e as estatísticas assim o revelarão. Nós não estamos assim tão longe. Será natural.

O que querem: abranger todos os cantinhos de Portugal? Porque isso é uma reação à televisão que existe hoje, que é mais centralizada, oficial?
Obviamente não podemos estar em todos os cantinhos de Portugal. Mas de certeza que quero estar em muito mais localizações de Portugal do que aquelas em que a televisão estava no passado. Portugal não é Lisboa. E não é Porto. Portugal é também Bragança, Olhão, Évora, Viseu. Temos de começar a dar voz a essas pessoas, perceber o que se passa no País. O investimento que estamos a fazer nos estúdios aqui do Porto também é sinal disso.

Vão ser onde?
Infelizmente não vamos ficar no Porto. Esta será a última televisão a sair do Porto. A SIC já está em Matosinhos, o Porto Canal também, a RTP está em Gaia e nós iremos para Gaia. Não foi bem visto por um determinado político da cidade do Porto que nós pudéssemos ficar e reabilitar o Silo Auto, como propusemos fazer de forma totalmente transparente. Está alí um edifício decadente, tínhamos um projeto muito interessante, mas não foi visto com bons olhos e nós também não quisemos perder tempo. Temos um terreno da TVI, de 20 mil metros quadrados, mesmo ao lado da RTP, onde está a antena, e será aí criado um núcleo de televisão na serra da Pilar, que tem a RTP e agora vai ter a TVI. E o Porto fica sem televisão, mas não há problema nenhum: quando quiserem entrevistas vão a Gaia, também é pertinho.

Foi o presidente da câmara quem não manifestou abertura?
Não, o presidente da Câmara do Porto esteve sensível, falou com as outras forças políticas. O investimento era grande, fizemos o anteprojeto e a proposta. Houve uma ou outra entidade que tinha dito que achava boa ideia, mas que mudou de ideias a meio do percurso. Nós não gostamos de nadar contra a corrente. Investimos em total transparência. Querem-nos, querem-nos; não nos querem, vamos para outro lado, não perdemos tempo.

Como chegou à CNN, como foi esse processo?
Ao longo dos anos, fiquei sempre muito amigo dos embaixadores norte-americanos que por cá passaram. A mulher de um desses embaixadores que tinha sido vice-presidente da Turner. E, na procura de uma marca forte, devo confessar que sempre tive a vontade de fazer uma aproximação à CNN. Portanto, falei com esses meus amigos em Washington, ele falou com o presidente da CNN global, pediu ao presidente da CNN Europa para me contactar. E eu disse-lhe que queria ter uma franchise, uma representação da CNN em Portugal. Montámos aquilo num mês.

Como funciona esse modelo de negócio, a Media Capital paga um fee?
Sim, paga. Mas a primeira coisa que é feita é o escrutínio das entidades envolvidas. O mais importante para eles não é o dinheiro, é a credibilidade, é a quem se estão a associar. A porta de entrada é importante, vir de alguém que me conhece mesmo.

Isso é mover a influência…
Não, é conhecer há algum tempo a pessoa que é o principal empreendedor, que sou eu. Conhecer o histórico de trabalho, as origens, onde ganhou o dinheiro, isso é importante. A estabilidade e a credibilidade do meu grupo, porque era eu quem estava a abrir a porta. Avançámos, pagámos um fee anual. É um fee muito justo, mas não é minimamente preocupante, porque o acesso aos conteúdos deles que nós temos quase que paga esse custo. Aquilo tem um modelo engraçado, os nossos jornalistas e os que entrarem vão fazer estágios em Atlanta e em Nova Iorque. Queremos fugir ao que é a rotina normal de dar informação em Portugal.

A TVI e a TVI 24 têm uma cultura. A CNN tem uma cultura muito própria. Vai ser uma mistura das duas culturas?
Será uma televisão feita para portugueses, com notícias portuguesas, mas muito diferente. Temos de fugir da repetição. A fábrica de notícias será muito a TVI, naturalmente, mas outra parte não, que terá um grupo específico a trabalhar para outro tipo de notícias. Mas o formato e a edição será diferente. Não é apenas uma mudança de logótipo, na essência, haverá a tal mistura entre o que é a TVI 24 hoje e o que é a CNN.

E como está a área da navegação, depois do negócio de venda de uma posição à Certares e com a pandemia?
Essa parceria está a correr muito bem. Ao contrário do que a malta possa pensar, nós somos muito resilientes. Na Mystic, onde temos 60% e a Certares o resto, em 2019, tivemos esta entrada de 250 milhões de euros, é muito dinheiro. E foi na altura certa. O que fez com que em 2019 ficássemos praticamente sem dívida, estava com muito dinheiro para ir às compras.

Desses 250 milhões, 75 milhões ficaram para si…
Na minha holding pessoal, sim.

Já esgotaram? Já gastou tudo?
Não [risos]. Eu não gasto, eu invisto. Eu não sou gastador. Temos bons investimentos, mas ainda sobra alguma coisa. Estávamos com uns crescimentos brutais e, com a pandemia, tivemos uma quebra abrupta nas receitas e decidimos usar o dinheiro para fazer uma coisa que a maior parte do mundo deixou de fazer: investir. A maior parte dos nossos parceiros começou a preocupar-se em abater navios e nós temos feito o contrário. O ano em que nós mais investimos em construção foi em 2020, 115 milhões de euros, só em navios. Em quatro anos estamos a falar de um investimento de 300 milhões. Conhece muitas pessoas que façam isso? Em 2020, em plena crise, ainda conseguimos faturar 63 milhões. Este ano já vamos faturar perto de 200 milhõezitos, mas ainda não chega, porque cresceu muito o número dos nossos ativos. Em Portugal ainda há pessoas que pensam que sou o rapazinho dos cruzeiros no Douro, não têm noção de que a nossa empresa não são os cruzeiros no Douro. A nossa maior empresa está em Estugarda e é de lá que vendemos para todo o mundo. Temos neste momento 46 navios, 16 no Douro, 26 estão por todos os rios do mundo, três navios de expedição já em movimento por todo o mundo e o que nós chamamos o Ocean Club, que é de 1 200 passageiros. Isto dá uma coisa curiosa: temos neste momento 6 667 camas, só que são camas que estão em movimento, não estou a contar com as que tenho aqui paradas, nos hotéis. Para colocar em perspetiva, o maior grupo hoteleiro português, que é o Grupo Pestana, tem pouco mais de oito mil camas. O segundo tem pouco mais de quatro mil.

A ida ao espaço com a Virgin

“Está previsto que seja para o ano, mas eu já não tenho 30 anos. Terei de estar em forma física. Na altura não tinha duas filhas novinhas como tenho agora, que não são nada a favor da situação. A minha mulher já foi a favor, agora não é tanto. Terei de ultrapassar esses obstáculos e terei de ter uma autorização dos meus parceiros e sócios. Neste momento, eu sou considerado uma pessoa-chave, se eles disserem que eu não posso ir a coisa fica complicada. Eles podem pensar que, se algo me acontecer, eu lhes farei falta ao negócio. Eu quero muito, mas será uma decisão racional.”

Mas acredita que tudo voltará ao normal?
Só não estamos já no normal porque as fronteiras não abriram quando precisámos. Ainda não temos ingleses. Já temos americanos há várias semanas, temos franceses, alemães, suíços, faltam os ingleses. Nós somos diferentes do setor hoteleiro em Portugal porque temos tudo pré-reservado com muita antecedência e as pessoas vêm. De acordo com os ativos que temos, enchendo-os não exageradamente aos preços que temos, vamos faturar 534 milhões já para o ano. Depois, no ano seguinte, 600, a seguir 700 e estabilizaremos em 743 milhões de euros. Esperamos chegar aos 200 milhões de EBITDA em 2023/2024. E porque é este um número importante? Porque era a altura ideal para entrarmos numa bolsa de Nova Iorque ou coisa do género.

Sempre os barcos Mário Ferreira ganhou mais visibilidade com a Media Capital, mas é na navegação turística que tem o seu grande negócio Foto: Ricardo Castelo\NFACTOS

Mantém a intenção de cotar em 2024?
Entre 2023 e 2024 acho que vai ser um ano fantástico porque estaremos no pico de utilização dos ativos nos quais investimos em plena pandemia.

Mas pretende manter o controlo?
Não me vou reformar, continuo a trabalhar. O controlo de uma empresa na bolsa de Nova Iorque não tem de ser 50% mais uma ação. O controlo é feito pelo maior acionista. Eu gosto muito da bolsa portuguesa, mas estamos a falar de um negócio que está avaliado em 2,2 mil milhões de euros.

Neste momento, sente-se uma grande desconfiança face aos empresários portugueses, devido aos casos de corrupção. Como olha para isso?
Vejo com muita preocupação e até tristeza que o País pareça aquilo que não é. Temos empresários e empreendedores muito bons, mas como isso é uma notícia pela positiva o jornalismo português tem uma parte de culpa de só dar eco ao que é negativo. O caso de alguém que comprou uma empresa no estrangeiro, que tem resultados muito positivos já não é notícia porque senão parece publicidade.

Mas acha que os casos não devem ser denunciados?
Todos os casos devem ser denunciados, como devem ser promovidos os bons. E neste país isso não acontece. Eu sou muitas vezes convidado a ir falar a universidades e vejo que há muito medo nos miúdos em serem empreendedores. Já pela sua natureza, o português é desenrascado mas não é muito empreendedor naquele sentido norte-americano. Vejo com muita preocupação que os miúdos vejam estas notícias e se possam retrair ainda mais e não se soltem no empreendedorismo, que Portugal precisa. Os portugueses têm de perceber que há muito mais para além disto que se vê nas televisões.

Eu quero lá saber disso, a mim podem escutar-me à vontade. Podem escutar-me todos os dias, abro as minhas contas todas, a minha casa, não tenho offshores, nunca tive

Alguma vez achou que estava a ser escutado ou vigiado?
Eu quero lá saber disso, a mim podem escutar à vontade. Podem escutar todos os dias, abro as minhas contas todas, a minha casa, não tenho offshores, nunca tive. Eu gosto de poder dizer, no meu IRS, que sou dos maiores contribuintes em Portugal. Por exemplo, nesta questão de ir ao Espaço, recebi alguns comentários que dizem “porque não usa esse dinheiro para ajudar quem precisa nestas alturas”. Mas então eu digo. É que, em Portugal, também parece que quando se fala do que se deu, parece que a pessoa se está a gabar e só deu para aparecer. E as pessoas retraem-se. E eu quero abrir uma exceção e dizer algumas coisas que faço. É verdade que comprei um bilhete para ir ao Espaço e já o comprei em 2005. Mas todos os anos eu e a minha mulher, a título pessoal e também das empresas, investimos em ações de solidariedade social muito mais do que custou o bilhete. Em 2020, uma das preocupações que tivemos foi ver que muitas pessoas, até de classe média, estavam a passar muito mal e havia realmente fome. Eu e a minha mulher, neste Natal, comprámos 80 toneladas de comida. E ainda angariei mais, foram 160 toneladas para o Banco Alimentar Contra a Fome, no Porto. Temos orgulho nisso. Não vamos andar a publicitar, estou a dizer isto pela primeira vez porque às vezes as pessoas falam sem perceber. Além disso, oferecemos milhares de testes rápidos à DGS, numa altura em que havia escassez. Distribuímos gratuitamente 100 mil máscaras quando não havia. Anualmente, distribuímos material escolar para determinados grupos, apoios financeiros a santuários, muita coisa. Só para as pessoas perceberem que estas coisas fazem-se, não se publicitam, e a título excecional estou a dizer-lhes que isto acontece. Se todos fizerem o que podem dentro das suas possibilidades certamente todos passarão melhor.

De vez em quando é dito que a sua empresa é próxima de pessoas do PS. Até por ter na administração o dr. Lacerda Machado, que sei que trabalha consigo há muitos anos.
Não tem nada a ver. O Alves Monteiro, o professor Alberto de Castro, são pessoas que pensam diferente e ajudam a pensar os negócios e têm cabeça internacional. São pessoas que estão num conjunto de outros boards. Nós não temos tendências nem clubísticas nem demasiado religiosas nem políticas. Tanto me dou bem com o Rui Rio, e admito que sou amigo dele, como me dou bem com algumas pessoas do PS, como falo mal de algumas pessoas do PS se tiver de falar, como foi o caso da Câmara do Porto, que por acaso era do PS. Se eu tivesse essas ligações aquilo tinha corrido tudo bem. Sou totalmente isento e não entro em tretas, por isso é que posso estar à vontade. Se eu tivesse algum tipo de ligação especial, certamente que não me tinham chumbado politicamente o resort que está aprovado e que anda ali há mais de 20 anos. Foi aprovado antes, a outro. Para mim já não foi. Se não foi, é porque não simpatizam demasiado comigo. E não simpatizam mais comigo porque eu quero as coisas todas direitinhas e corretas como devem ser.

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Autárquicas 2021

Autárquicas: Ao último dia de campanha, líderes percorrem País e apostam em autarquias-chave

No último dia de campanha para as eleições autárquicas, os líderes partidários estão hoje um pouco por todo o país, em autarquias-chave que querem reconquistar, manter ou nas quais esperam eleger representantes

Autárquicas 2021

Autárquicas: PAN diz que Lisboa não pode ser "postal ilustrado para milionários"

A candidata do PAN à câmara de Lisboa, Manuela Gonzaga, disse na quinta-feira que a cidade "está a ser sangrada de gente" e a tornar-se num "postal ilustrado para milionários" pelas dificuldades no acesso à habitação

Mundo

Covid-19: OMS inclui mais dois medicamentos nas recomendações para tratamento

A OMS acrescentou hoje dois medicamentos à lista de fármacos admitidos para tratamento da covid-19 e pediu à farmacêutica que os produz para baixar os preços e levantar as patentes

Exame Informática
Exame Informática

Dificuldade em encontrar trabalhadores agrava crise dos semicondutores

Indústria dos semicondutores continua a enfrentar dificuldades no fornecimento de componentes e novos dados mostram que a escassez de mão de obra pode contribuir para adiar o regresso à normalidade

Economia

"Nós ganhámos com a Covid". Declarações de secretário de Estado debaixo da fogo da oposição e já levaram a esclarecimento do MNE

O Ministério dos Negócios Estrangeiros lembra que o secretário de Estado da Internacionalização, muito criticado por declarações sobre a pandemia, lamentou as mortes por Covid-19 e salientou os efeitos "profundamente negativos" da doença na saúde

LD Linhas Direitas
Linhas Direitas

Os 85% já estão!

Não é adivinhação, informação privilegiada, ou faro apurado, mas se a vacinação completa, conhecida hoje, já está nos 84,19%, não parece difícil prever que os 0.81% estarão concluídos em poucas horas, ou num dia, ou em dois

António Guterres | Secretário-Geral da ONU Exame Informática
Exame Informática

Guterres arrasa Jeff Bezos e Richard Branson. "Divertem-se no espaço enquanto milhões passam fome na Terra"

O chefe das Nações Unidas criticou a atitude dos multimilionários face à corrida ao espaço