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"O meu pai costumava dizer: ‘O senso comum é uma outra forma de preconceito. Impede-nos de fazer perguntas’"

Sociedade

D.R.

A jornalista e autora Lucy Hawking, a quem coube organizar em livro os escritos deixado pelo pai, em entrevista à VISÃO

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

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A sua morte era esperada há 50 anos. No entanto, quando a notícia chegou, a 14 de março de 2018, o mundo surpreendeu-se. Afinal Stephen Hawking, o físico teórico, o divulgador de Ciência, o mais famoso paciente da terrível doença neurodegenerativa esclerose lateral amiotrófica, era mesmo mortal. Com o seu desaparecimento, aos 76 anos, não se perdem as suas descobertas em torno da natureza dos buracos negros, nem o esforço em explicar o Espaço e o Tempo em obras de divulgação científica. Também fica para a História a inacreditável vitória da sua mente brilhante, enclausurada num corpo que definhava desde os vinte anos, até o deixar incapaz de fazer qualquer movimento, excetuando uns subtis esgares da face, que manobrava para comunicar. Mesmo assim, extremamente limitado, Hawking levantava-se todos os dias, vestia um fato e punha-se a trabalhar. No último ano de vida dedicou-se a fazer uma espécie de resumo das suas descobertas e reflexões mais recentes, deixando esta obra (Breves Respostas às Grandes Perguntas, Editorial Planeta, €17,95) praticamente pronta. Coube à filha, Lucy Hawking, com quem já tinha escrito uma coleção de livros para crianças, e a um grupo de amigos e colaboradores reunir os escritos, juntando-os neste livro que acaba por ser um legado à humanidade. Lucy, que podemos ver nos vídeos do voo parabólico que pai e filha fizeram juntos, durante o qual Stephen pôde libertar-se por uns minutos da cadeira de rodas, admite que a obra tem um sabor agridoce. “É como se ele estivesse vivo. Só que não está.” Ao longo da entrevista, a escritora chega mesmo, sem se dar conta, a usar o presente para se referir ao físico. É que nós perdemos um cientista superstar. Ela perdeu um pai.

Esta obra é uma espécie de testamento. Percebe-se que o seu pai tinha noção de que o fim estaria próximo.

O livro foi todo escrito por ele, apesar de não estar totalmente acabado quando morreu. Estas páginas são ele, o ele que pensou, o ele que foi. Mas a dada altura o assunto é a preciosidade do tempo. O diagnóstico [da esclerose lateral amiotrófica] chegou quando ele fez 20 anos. Acabou por viver até aos 76, mas ele não sabia que isso viria a acontecer. Como teria sido a sua vida se tivesse sabido?

Isto quer dizer que viveu cada dia como se fosse o último?

Exatamente!

Conseguia separar o pai do cientista?

Bem, ser cientista era a sua identidade. Às vezes olhava para ele, enquanto conversávamos, e percebia, pelo seu olhar, que não me estava a prestar atenção nenhuma, já nem me estava a ouvir. A sua cabeça estava já na Física.

Mas falavam de questões de pai e filha?

Sim, sim. A dada altura fomos muito próximos. Ele era o meu pai! Tem sido difícil adaptar-me ao facto de ter morrido. Até porque, com o livro e as entrevistas que tenho dado, parece que ainda está por cá. Só que não está. Continua muito vivo para mim. Até mais do que eu imaginava.

Havia conversas sobre Ciência em casa, quando eram pequenos [Lucy tem mais dois irmãos]?

Sim. Falávamos muito sobre este tipo de temas à hora de jantar: podemos ir para o Espaço? Como serão os buracos negros? Era comum termos amigos cientistas a jantar lá em casa e era normal abordarmos este tipo de tópicos.

Apesar disso, seguiu uma carreira na literatura. O seu pai não tentou influenciá-la no sentido de a levar para a Ciência?

Tentou, tentou. Ele queria que eu estudasse Ciência e Matemática. Mas eu não queria, de forma nenhuma. Interessava-me por arte e literatura. Na verdade, tive de ir contra a opinião dele. Segui línguas e literatura, com especialização no russo. Sempre quis escrever, fazer comunicação.

Sentiu que ele ficou dececionado?

Sim. Na verdade, ele disse-me: se não estudares Ciência, nunca estarás na linha da frente.

Nas entrevistas, nos livros, nas interações com os alunos, Stephen Hawking sempre se mostrou grato pela vida, apesar das atrozes dificuldades impostas pela doença. Era um sentimento genuíno ou uma máscara?

Era genuíno, sim. Ele nunca se queixava da sua sorte. Sentia-se grato por, apesar da doença, ter conseguido ultrapassar as dificuldades e fazer investigação e escrever livros. No entanto, também não é como se diz por aí, como ouvi recentemente durante uma entrevista, que ele agradecia à doença, por assim poder dedicar-se mais à Física. É claro que ninguém vai pensar uma coisa dessas. A questão é que, graças a uma enorme força de vontade e a uma forte determinação, conseguiu ver o lado bom de estar limitado, concentrando-se nos aspetos positivos, como o facto de ter mais tempo disponível para pensar.

Qual foi a motivação para escreverem, juntos, uma coleção de livros para crianças?

Essa ideia surgiu durante uma festa de aniversário do meu filho, em que uma criança, amiga dele, perguntou ao meu pai: o que me aconteceria se eu caísse num buraco negro? Ao que ele respondeu: “Transformavas-te em esparguete.” É uma resposta brilhante, porque todas as crianças sabem o que é esparguete e não deixa de ser uma resposta correta do ponto de vista científico [as forças da gravidade iriam destruir o corpo da criança].

Para o seu pai, a curiosidade, inata nas crianças, é uma característica essencial. Os adultos tendem a perdê-la. Porque será?

Uma das razões para termos escrito estes livros juntos foi para responder às perguntas que as crianças lhe faziam. Os cientistas mantêm, de certo modo, estas características – o encantamento perante o mundo e o permanente questionar. E isto é uma bênção. “As pessoas querem respostas às grandes perguntas”, diz ele no livro. Apesar de deixarmos de fazer perguntas quando chegamos à idade adulta, não deixamos de nos interessar pelas respostas quando elas nos são apresentadas. É só uma questão de reacender a curiosidade perdida na infância. O meu pai costumava dizer: “O senso comum é uma outra forma de preconceito. Impede-nos de fazer perguntas.”

Onde é que ele ia buscar a energia para continuar a fazer perguntas e a procurar respostas?

Bem, isto é uma espécie de milagre, a forma como ele conseguiu manter a energia e a determinação, apesar do avançar daquela doença devastadora. Para conseguir trabalhar tinha de se esforçar imenso. Muito mais do que se imagina. A vida dele era difícil, com muita dor, sofrimento, procedimentos médicos... Tudo isto poderia ser muito frustrante. Mas mesmo assim ele tinha esta extraordinária capacidade de traçar um objetivo e fazer o que era preciso para o alcançar. Às vezes ficava a olhar para ele espantada. Não faço ideia de onde lhe vinha aquela energia.

O que surpreende, também, é que os livros dele estão cheios de toques de humor e de otimismo.

Sim, completamente! Este livro, em particular, tem uma mensagem que é esta: nós conseguimos. Podemos usar a inteligência artificial em nosso benefício, podemos compreender o universo, meter-nos numa nave espacial e ir até outro planeta. É um livro otimista e cheio de esperança no ser humano, na próxima geração. Dá grande destaque à importância da educação e do acesso universal a ela. A mensagem também é a de que devemos ver-nos como um só, um planeta, em vez de pensarmos em divisões, separações. Mostra ainda uma grande preocupação relativamente às alterações climáticas.

O que é que ele não fez e gostaria de ter feito?

Acho que era ir mesmo ao Espaço. A sua grande ambição era sair da atmosfera terrestre e ver o cosmos com os próprios olhos.