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Como o ritual para procurar o “par perfeito” chegou ao que é hoje?

Sociedade

D.R.

O Tinder grita-nos “match!” E os reality shows andam obcecados por aquele momento em que as borboletas no estômago indicam a presença de uma “alma gémea”. Como chegámos aqui?

Rosa Ruela

Rosa Ruela

*

Jornalista

“Rapaz sério, com vida estável, procura rapariga meiga, séria, com boa apresentação, idade entre 20 e 39 anos, para amizade ou futuro compromisso. 96…….” O anúncio apareceu recentemente numa série de árvores na Avenida Almirante Reis, despertando a curiosidade de quem passava. O que teria levado um homem a espalhar o seu número de telemóvel numa rua de Lisboa? Seria um romântico inveterado, ingénuo ao ponto de se pôr a jeito para ser gozado com mensagens e chamadas de falsas pretendentes? Já lhe teria respondido entretanto alguma rapariga interessada em ser sua amiga ou mesmo algo mais?

Quando Luís Miguel atende o telefone e ouve ao que vamos, sai-lhe um daqueles suspiros profundos de quem se vai prestar a custo para responder. “Eu explico, quero explicar”, começa por dizer, na sua voz triste mas decidida. Não viu os papéis que imaginámos amorosamente colados, um a um. Mora a uma hora de carro da capital, no distrito de Santarém, que fique claro que não se prestou àquilo, nem nunca irá à procura das tais árvores, embora se reveja na frase “rapaz sério procura rapariga meiga...”. Afinal, foi ele quem a escreveu.

Três semanas antes de lhe telefonarmos, colocara um anúncio num jornal diário, crente de que seria uma boa saída para a sua solidão. Aos 40 anos, via-se quase sempre num dia a dia casa-trabalho-casa, com raras oportunidades para socializar. É dono de uma pequena empresa onde não trabalham mulheres, os amigos já estão todos casados. “Chega ao final do dia ou ao fim de semana e lá vão à vida deles”, acha natural.

Ele próprio casou-se uma vez, “demasiado cedo” e com uma pessoa “má de mais”, diz hoje. Aos 23, estava divorciado e nos anos seguintes nunca acertaria no jackpot. “Saía com malta amiga, às vezes achava que me tinha apaixonado, mas parece que queria uma mulher especial.” Nos últimos tempos, nem as redes sociais o ajudaram. “No Facebook as pessoas mentem muito, não é? Dizem que são uma coisa e afinal são outra, é que nem as fotografias são verdadeiras.” Uma perda de tempo, concluiu.

O anúncio num jornal seria a sua melhor aposta, mas calhou um trio de homens (nunca soube se em conluio) decidir divertir-se à sua custa. Foram incontáveis as SMS de puro gozo, as mais assanhadas vindas de uma Ana de mentirinha, num assédio tal que o deixou desencantado com o ser humano. Um encontro combinado com uma rapariga que lhe telefonou de viva voz – marcou hora para tomarem café num centro comercial em Lisboa e acabou por nunca aparecer – seria a estocada final. Agora que o seu anúncio apareceu replicado e pespegado em troncos de árvores, Luís Miguel está em pousio, cético quanto à hipótese de encontrar um match perfeito.

“Parece que nunca soube escolher”, diz ele e ouvimos dizer também aos candidatos do programa de televisão Casados à Primeira Vista, da SIC e apresentado por Diana Chaves como “uma nova maneira de encontrar o amor”. Neste formato que tem causado polémica em todo o mundo, um neuropsicólogo, um psicólogo e dois coaches juntam os pares que só se conhecem no dia do casamento. Depois da lua de mel, os casais são acompanhados ao longo de oito semanas pela equipa de especialistas que os ajudará a limar as arestas das relações, com melhor ou pior resultado. “Quem me dera tê-los sempre comigo em casa, a dizerem-me ‘Não é assim que se fala’”, confessou a apresentadora no lançamento do programa.

Perseguir um ideal

Ana Carvalheira, professora e investigadora do ISPA – Instituto Universitário, em Lisboa, acredita que o Casados… vai ser um êxito. “O formato favorece o romantismo, e as mulheres e alguns homens estão cheios de ideais românticos (que por acaso lhes atrapalham a vida)”, nota. A psicóloga só não está convencida de que os especialistas sejam capazes de fazer o match com entrevistas e testes de personalidade. “Vão descartar as incompatibilidades, o que já não é mau – por exemplo, não se junta uma pessoa obsessiva com uma flexível ou uma dependente com uma autónoma, mas há outras variáveis na equação, a atração sobretudo.”

O facto de durante o processo haver uma idealização do outro pode jogar a favor do programa, ressalva a mesma psicóloga. “Os concorrentes pensam: ‘Uns senhores muito bons vão encontrar a pessoa ideal para mim, só pode correr bem’. Ou seja, estão predispostos a apaixonar-se. Parecem os casamentos arranjados, mas com uma produção muito melhor, fica tudo com um carácter um bocado mágico, o que facilita imenso.”

Não passa, afinal, de uma ideia “ilusória” de correspondência, de almas gémeas, defende Jorge Gravanito, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. “A vida não é nada disso”, insurge-se. “Nós acabamos por nos relacionar no conflito, e é esse desencontro que promove o encontro. Quando andamos só à procura do ideal, só encontramos desilusões, é o horror do espelho. Mas as pessoas procuram soluções mágicas, fogem daquilo que dá trabalho, e não há nada que dê mais trabalho do que o relacionamento amoroso, porque é o menos óbvio. O amor não pode vir pela facilidade nem pela fama. É por isso que sou contra este tipo de programas. São tóxicos, não fazem bem nem a quem vê. Não vamos diabolizar, são uma expressão do estado das coisas, mas levam à vulgarização, à destruição simbólica do casamento.”

Na era do algoritmo

Rui Sousa não conhece Luís Miguel, mas, mais do que aconselhá-lo a candidatar-se ao Casados…, aposta que o site Felizes.pt, que criou no final de 2014, com três antigos colegas da universidade, pode acabar com a sua solidão involuntária. Na altura em que decidiram avançar com esta comunidade virtual, os quatro eram sub-30 e, embora quase todos tivessem namorada, viam a dificuldade com que muitos dos amigos se debatiam para encontrar uma.

Talvez por ser engenheiro informático, Rui estava mais atento à fraca oferta na internet. Descartadas as aplicações, por só funcionarem no telemóvel, olhou para o mercado e sentiu que se encontrava dominado pelos sites de encontros internacionais. “Eles não tinham nada que ver com a nossa realidade”, sublinha. “Nós acreditámos que o povo português era romântico e que existia uma faixa etária mais velha a precisar de um site como o Felizes.”

O tempo dar-lhes-ia razão. Quatro anos depois, têm 100 mil pessoas registadas, com uma média de 38 anos. A faixa etária mais ativa é a dos 30-50 anos, mas aceita-se a partir dos 18, sendo que os muito jovens são filtrados com mais cuidado. “Só entram pessoas que procuram um relacionamento sério e romântico”, justifica Rui. “Os mais novos podem estar no gozo ou à procura de um relacionamento de uma noite. Todos os perfis são validados manualmente e instigamos as pessoas a denunciar.”

Se um dia Luís Miguel se inscrever no Felizes.pt (a troco de um mínimo de €23,90 por mês e um máximo de €47,90 por semestre), vai descobrir que primeiro as pessoas conversam e conhecem-se, e só depois trocam fotografias e se encontram ou não. “Crescemos na geração em que havia o mIRC”, lembra Rui, hoje com 33 anos. “No nosso site, também podem passar horas a conversar sem nunca terem visto nem tocado o outro. Isto faz um bypass, salta a fase de julgarmos o outro pela aparência. E é tão fácil descartarmos alguém que não é perfeito! Mas depois de conhecermos as suas qualidades, já pode haver empatia.”

Falta escrever que também existe a vertente match making no site – clica-se em “Cupido” e um filho virtual de Vénus e de Marte dispara com o seu arco no coração de alguém supostamente compatível, fazendo pontaria com a ajuda de um algoritmo e de um teste de personalidade. No entanto, não é nada que substitua a conversa, frisa Rui. “Tentar o match making com base em questionários é reduzir o amor a uma questão matemática.”

“Se alguém te convida a sair por mensagem escrita, pede-lhe que te ligue; se não acontecer, a pessoa não merece ter um encontro contigo”, aconselha o psicólogo e coach americano John Kim aos que se queixam de desencanto e cansaço de fazer conhecimentos através da internet.

É aqui que entra na equação o medo de sermos rejeitados, lembra Balolas Carvalho, 26 anos, com três relacionamentos de longa duração na bagagem. Como outros millennials, a jornalista vive bem solteira e admite que as redes e apps aceleram o processo de aproximação: “Podes trocar olhares com um rapaz mais do que uma vez e ele não ir ao teu encontro; se tiver um match contigo, há menos risco de rejeição e embaraço.” Não é propriamente romântico, mas “a maioria das pessoas não quer sentir-se vulnerável”, admite.

A tecnologia cansa

Para Ana Carvalheira, que anda há anos a estudar as relações interpessoais na internet, é sobretudo o imediatismo que ajuda a explicar o atual estado das coisas. “As pessoas querem tudo para agora”, lembra. Mais: são consumistas ao nível das relações amorosas, querem experimentar um amor atrás do outro. “Todas estas apps vieram favorecer a experiência. É logo ‘Venha outro!’”
Quanto à correspondência perfeita, a psicóloga não tem ilusões: “O match só existe no Tinder [na expressão It’s a Match!], só dá tendinites nos dedos, mais nada. Na vida real, há investimento. Tem de haver atração, claro, e se houver um estado de paixão, melhor ainda. Mas não existe um match. É preciso as pessoas investirem e não ficarem num processo de individualização que as retira da relação. ‘O outro é para encaixar em mim, tem de gostar de literatura americana, etc.’. Ora isto não é a chave e a fechadura.”

Há, porém, quem ainda acredite que sim, sabe Liliana Paiva, coordenadora-geral da agência matrimonial Amore Nostrum. “As pessoas pagam para terem uma pessoa feita à medida, mas no primeiro contacto percebem que isso não existe. Faz parte do nosso trabalho, enquanto psicólogos, adaptar as expectativas à realidade.” A Amore Nostrum nasceu há 15 anos, no Porto, pela mão de um estudante de Psicologia que um dia olhou para uma página de anúncios e deu por si a encontrar afinidades. Hoje, através dos seus escritórios em sete cidades, a agência tem mais de 20 mil pessoas na sua base de dados, livres e à procura de relacionamentos sérios.

Ali, tudo começa com uma consulta presencial, em que um psicólogo faz o levantamento das características físicas, psicológicas, sociais e emocionais do cliente. “O objetivo é conhecê-lo bem e o tipo de pessoa que quer conhecer”, diz Liliana Paiva, “só depois aplicamos uma bateria de testes de personalidade e revemos a sua vida passada.” Recolhida a informação, fazem-se, então, os testes de compatibilidade. “As máquinas não nos dizem tudo”, adverte a psicóloga. “Para a nossa taxa de sucesso de 85% é muito importante o facto de conhecermos todos os clientes presencialmente.”

As apps – um terreno que já foi fértil e agora se apresenta cada vez mais seco – são todo um outro mundo. “Quem vê suprida a necessidade de sexo não se cansa”, nota Rita Sepúlveda, doutoranda em Ciências da Comunicação, no ISCTE-IUL e no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL), mas quem pretende um compromisso “descreve a app como abrasiva e geradora de desgaste”. Razões não faltam: raramente se lê o texto de perfil, boa parte dos matches não resulta sequer em conversa, quanto mais em encontro. “Se chega à etapa do ‘vamos beber café’, pode evoluir para algo mais ou simplesmente não voltar a haver novo encontro”, elucida a investigadora, que tem em curso um questionário online anónimo dirigido a utilizadores de plataformas de encontros.

Maria (nome fictício), 42 anos, solteira e motivada para conhecer pessoas fora do seu meio profissional, reconhece gostar de passar logo ao encontro. “É difícil ser original em sites de engate; as perguntas e respostas não variam e depressa se passa do que parece interessante para o descartável.” Cansa-a isso e “o facto de ser um meio defensivo, cada um em sua casa, ligado, a brincar aos sentimentos, sem saber o que quer”.

Mesmo que não haja cansaço, ele instala-se à medida que se progride no tempo. “Apaguei as apps porque andava numa roda-viva e desinteressei-me”, conta Duarte, 54 anos, atualmente numa nova relação. Quando se separou, há três anos, as aplicações ajudaram-no a “sair do estado de devastação”. Nessa sua “segunda adolescência”, teve um caso durante uns meses e ganhou algumas amigas. A coisa progredia da app para a rede social, seguia-se o chat e o encontro, até que um dia chegou o tédio.

Está nas estatísticas: “O cansaço acontece ao fim de três meses”, concluiu a investigadora americana Clarissa Silva, especialista em comportamento e autora do blogue You’re Just A Dumbass (“você é só um parvo”), ao inquirir 500 utilizadores de apps de encontros, entre os 25 e os 40 anos. “Ao fim de nove meses, 65% disseram que parecia um trabalho a tempo inteiro.”

Com sorte, as pessoas estão rapi-damente a sugerir encontrarem-se IRL (in real life) – na vida real, traduza-se para quem nunca andou à procura do match perfeito no mundo virtual. Ou então, a cair no extremo oposto, deixando o destino amoroso nas mãos dos especialistas, como antigamente se deixava nas mãos dos pais e das conveniências. O que quer que resulte...

* com Clara Soares