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João Barros, CEO da Venian: “Os dias dos engenheiros baratos estão contados”

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João Barros, CEO da Venian

Lucilia Monteiro

A tecnológica criada entre Porto e Aveiro vai a todo o gás. Dentro de três a quatro anos pode ter um papel fundamental na gestão dos carros autónomos. A VISÃO falou com um dos seus fundadores, João Barros, 41 anos. E o resultado foi uma conversa sobre a aventura que será o futuro, a magia de fazer acontecer, mas também do efeito negro da disrupção tecnológica nas economias tradicionais.

Com mais de cem patentes registadas, a Veniam está na mira de todos os fabricantes mundiais de automóveis autónomos. Formalmente, a sede é em Silicon Valley, California, Estados Unidos, mas o centro de investigação é no Porto. Estão a dar cartas nos transportes e na mobilidade, não só dentro de portas, mas sobretudo fora: Singapura, Nova Iorque e Michigan são apenas alguns exemplos. É uma startup portuguesa, com certeza, pois é cá que os cerca de 25 milhões de euros de financiamento estrangeiro são aplicados.

Como é que começou esta aventura e como surgiu a ideia. Sei que resultou de uma colaboração entre o João Barros, da Universidade do Porto, com Susana Sargento, da Universidade de Aveiro, mas como é que tudo começou?

A Veniam é uma spin off da universidade de Aveiro, do Porto e do Instituto de Telecomunicações. Começou com projetos de investigação na área dos veículos em rede. Éramos os dois engenheiros eletrotécnicos e professores universitários e já colaborávamos há alguns anos. Em 2011 sabíamos que tínhamos uma tecnologia muito disruptiva, éramos os primeiros do mundo a montar redes de veículos, ligando-os uns aos outros, com acesso á internet e a captar grandes quantidades de dados. Tanto dados acerca dos veículos e das frotas, como da própria cidade.

Como nasce essa colaboração?

Eu e a Susana estivemos juntos também no programa Carnegie Mellon Portugal, uma das parcerias internacionais que o governo português fez com as universidades americanas. Isso moldou a nossa visão. Por um lado, permitiu-nos ver que, em algumas áreas do conhecimento, Portugal é tão bom como as melhores universidades dos Estados Unidos, conseguimos ver que o que fazíamos era de facto relevante; por outro lado, vimos que os americanos eram muito melhor a transformar o conhecimento universitário em produtos, serviços e negócios. Fiquei com uma vontade enorme de aprender e a única maneira de aprender era fazer.

E então fizeram...

Quando, em 2011, a economia foi por água abaixo, houve cortes enormes nas universidade e os nossos estudantes começaram a querer emigrar e a deixar de fazer ciência e tecnologia em Portugal, senti que era muito importante fazermos alguma coisa. Pelo Natal de 2011, fiz um jantar em minha casa e convidei alunos de doutoramente e pos doc. Estava toda a gente tão em baixo que disse: ‘ok, em 2012, vamos pegar nas tecnologias fantásticas que desenvolveram em laboratório e vamos levar para o mercado. Não faço a mínima ideia de como isso se faz, mas em janeiro começamos’. Entretanto, tinhamos conhecido dois empreendedores americanos, a Robin Chase e o Roy Russel, atrave´s do MIT Portugal, e fui a Aveiro, falar com a Susana: ‘Que dizes de montarmos uma start up?’. Ela disse logo que sim.

"Estamos na crista da onda do que será o futuro da mobilidade"

Arrancaram cá e foram depois para os EUA?

Exatamente. Arrancamos em Aveiro e depois abrimos no Porto. Mais tarde, concentramos tudo no Porto (na UPTEC) e fizemos também um acordo de licenciamento de tecnologia com a universidade, que nos deu as primeiras patentes para o início da empresa. Cinco anos depois levantamos 30 milhões de dólares de capital de risco, a maior parte vem de Silicon Valley, na Califórnia. Os nossos maiores acionistas são dos Estados Unidos. Temos investidores famosos, como a True Ventures, que fez a fit bit [pulseiras que medem a atividade corporal]. E multinacionais como a Verizon, a Cisco, a Orange, Yamaha (Japão), e a Liberty Global. E angels investors como a Cane. Hoje, estamos a desenvolver a plataforma de comunicação para veículos autónomos. Estamos na crista da onda do que será o futuro da mobilidade.

Começaram por fazer exatamente o quê?

Começamos por colocar pequenos dispositivos em autocarros, camiões de lixo, táxis, que permitiam aos veículos comunicar uns com os outros e com a internet. Criamos redes em malha. Tipicamente, comunicámos através da rede dos telemóveis, em que cada telemóvel está ligado a uma torre, que pertence a uma operadora. Mas os nossos dispositivos não se ligam diretamente uns com os outros. O que é revolucionário na Veniam é que os veículos agora ligam-se uns aos outros e formam, eles próprios, uma rede de telecomunicações.

Ajuda a gerir a rede de transportes?

Sim, imagine que os autocarros sabem a que velocidade é que vão em determinadas partes do trajeto. Podem propagar essa informação e, quando tenho os dados da velocidade media de todos os autocarros na cidade, sei qual é o congestionamento das vias, onde há filas de trânsito e onde posso andar.

E essa informação é importante para quem?

Para quem gere o serviço de transportes, para a polícia, para as cidades, para quem tem de estabelecer um negócio e saber se vai colocar uma loja em determinada rua onde passam muitas ou poucas pessoas. Conseguimos, através da informação que os veículos recolhem, enquanto sensores urbanos, criar grandes quantidades de dados que são úteis para muita, muita gente.

E esses dados estão já a ser utilizados?

O Centro de Operações do Porto recebe os nossos dados. O mesmo acontece em Singapura, onde já estamos e temos escritório. Temos também uma rede de veículos a funcionar, no Michigan, e agora também em Silicon Valley, nos EUA.

Este foi um ano importante para a Veniam?

Muito, porque conseguimos os primeiros clientes na área automóvel e estamos agora a um passo de ter a tecnologia da Veniam nos veículos que saem da fábrica lá para 2020 / 2021. Isto está em ritmo acelerado, até porque estão a entrar biliões e biliões de dólares neste setor, muito motivados pela Uber, pela Lift, por empresas que prestam serviços de mobilidade. E pelos avanços nos veículos autónomos, onde estou convencido que Portugal pode ter um papel importante a desempenhar.

Os tais carros sem condutor que qualquer terrorista pode armadilhar?

Penso que não. O que acontece com os carros autónomos é que eles vão ser sujeitos a normas muito, muito apertadas de cibersegurança. Isso é algo em que a Veniam também está a trabalhar. Além disso, vamos ter muito menos veículos a circular e a probabilidade de haver acidentes vai diminuir fortemente. No balanço final vamos constatar que os veículos autónomos vão contribuir de forma dramática para a melhoria da qualidade de vida das cidades e da mobilidade. E vão mitigar os efeitos das alterações climáticas, que são o maior problema neste momento.

Por serem elétricos?

E por fazerem parte da infraestrutura. O veículo autónomo vai ser muito mais do que um carro que se guia a si próprio. Vai fazer parte da infraestrutura da cidade, tal e qual como os elevadores fazem parte dos edifícios. Ninguém tem uma paixão por guiar numa fila de transito ás 7 da manhã para ir para o trabalho. Os veículos autónomos trazem a promessa de resolver esse problema e de devolver tempo de vida às pessoas. Isto vai acontecer muito depressa, até porque do ponto de vista económico...

Isso é mesmo cenário de ficção cientifica

Mas estamos a ver a acontecer. Neste momento, em São Francisco, onde passo uma grande parte do meu tempo, vemos que todos estão a deixar o carro em casa e apanham a Uber até para irem para o trabalho. Saio de casa, o carro está à minha espera à porta, entro, estou em rede com o meu smartphone, sei quando ele chega, sei quando vou chegar ao destino.

"No futuro, as pessoas vão deixar de comprar carro"

Isso não pode ser dado por uma boa rede de transportes públicos?

Não exatamente. Não é tão previsível, obriga-me a ir a determinadas paragens, não é on demand, obriga-me a reorganizar a minha vida. Estamos a falar de um serviço que é tão simples como abrir a torneira. Um ponto importante é que isto muda completamente os modelos de negócio para os fabricantes de automóveis, para os fornecedores de serviços... Porque eu não quero saber nem a marca nem o aspeto do carro. Hoje, vendem-se milhões de carros e tem de ser um produto apelativo para os consumidores, que compram um e é uma fatia enorme do seu investimento e do seu crédito. No futuro, as pessoas vão deixar de comprar carro. E os fabricantes vão vender milhões de carros a empresas que vão fornecer serviços de mobilidade ou eles próprios fornecem esse serviço. A Ford, a Daimler, a Renaut já entraram nesse negócio. E os requisitos para esses veículos terão de ser completamente diferentes: terão de estar a andar o dia todo na cidade, vão ser mais parecidos com autocarros, vão ter de dar uma experiência às pessoas e vão ter de estar em rede, porque precisam de muitos dados para poderem prestar um serviço de qualidade e precisam de suportar o tráfego de internet e tudo o mais que as pessoas vão gerar quando não estão a guiar. E com isso chegamos a um momento em que todas estas grandes empresas estão conscientes da necessidade de mover enormes quantidades de dados dos veículos para a cloud. E é exatamente isso que a Veniam faz. E já estamos a provar que isso é possível com os autocarros e os camiões de hoje. E estamos a fazer com os carros autónomos.

Inventaram um hotspot capaz de ligar esses veículos entre si?

Certo. A plataforma da Veniam é essencialmente de software, os protocolos e os sistemas de comunicação que permitem aos veículos trocar grandes quantidades de dados uns com os outros e com a internet. Para esse software correr, colocamos uns pequenos dispositivos nos autocarros, nos camiões, mas, no futuro, já estarão integrados no veículo. Com isso, os veículos transformam-se em hotspot wifi e, portanto, qualquer um pode ligar-se com o seu smarphone ao veículo e aceder à internet. À medida que vai andando, o veículo vai ligando a outros, a pontos de acesso, às torres das redes de telemóveis. É como estar em casa ou no escritório, essa é a magia da plataforma de Veniam.

É magia, mas há sempre um lado mais escuro. Estão a recolher montes de dados e, mais uma vez, dá a sensação de que vamos estar ainda mais vigiados

Mas são essencialmente dados físicos, dados dos sensores. Por exemplo, se tenho acesso aos acelerómetros dos carro consigo detetar buracos na estrada, qual a qualidade do pavimento, se está ou não molhado. Estas informações permitem depois ter uma visão global da cidade, nomeadamente da qualidade da infraestrutura. Quando tenho acesso ao termómetro dentro do carro ou a pressão do ar e agrego essa informação toda estou a transformar os carros em miniestações de meteorologia, e consigo ter uma análise micro climática da cidade, o que é importante, nomeadamente para os seguros. Não recolhemos dados pessoais, nem sabemos quem são os utilizadores. Mas conseguimos contar quantas estão no autocarro, quantas entram e saem numa paragem e, com isto, determinar o fluxo de pessoas.

Mas o que vocês inventaram pode recolher outro tipo de dados, mais pessoais?

Certo. De qualquer forma ainda é pálido comparado com o que as pessoas estão a partilhar no facebook ou no seu smartphone. O nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida das pessoas, com dados que tem a ver com a vida nas cidades e com os sistemas de mobilidade. Neste momento, somos a empresa no mundo que tem um maior numero de veículos que falam entre si diariamente. Somos a empresa que tem a maior variedade, todo o tipo de carros, camiões, camionetas...

Quantos?

Em Portugal, temos à volta de 500, no Porto temos todos os autocarros dos STCP, camiões do lixo. O porto de Leixões está em rede com a nossa tecnologia. Já fizemos também um piloto com a Metro do Porto. As coisas estão a avançar muito bem. O Porto foi fulcral porque sempre foi o nosso laboratório vivo, onde testamos e desenvolvemos as nossas tecnologias. Foi muito importante termos uma montra tecnológica à escala de uma cidade. Também fico feliz porque o Porto hoje faz parte do mapa das smartcities a nível mundial

Já faz?

Sem dúvida. A Wired Magazine fez um documentário em que escolheu cinco smartcities no mundo e o Porto foi uma delas. Também já fomos distinguidos pela Comissão Europeia. A CNBC também nos pôs entre as 50 maiores. Se for a ver, a taxa de utilização media de um carro é de 5%. Ou seja, o carro vai para o trabalho de manhã e vem do trabalho à noite. A maior parte do tempo está parado. Enquanto sociedade, não sei como conseguimos viver com 1200 milhões de veículos no mundo que estão parados.

"É importante continuar a apostar nas humanidades e nas artes, para conseguirmos navegar essas disrupções"

Há uma palavra chave quando se fala da Veniam: que é um negócio disruptivo. Geralmente significa que há uma disrupção da economia e que destrói um certo conceito de distribuição de riqueza. Vemos o que está a acontecer com a uber, a google ou o facebook.

Não escondo que temos muito a corrigir no nosso modelo económico e é muito importante fazermos essa reflexão e vermos como podemos atacar problemas como a desigualdade social ou o envelhecimento da população, que contribui ainda mais para esse desequilíbrio económico do que as disrupções tecnológicas. Tenho profunda convicção, como cientista ou empresário, que a ciência e tecnologia são parte da solução e não do problema. Através da internet e das tecnologias de informação e comunicação, nomeadamente do telemóvel, conseguimos tirar perto de 400 milhões de pessoas da pobreza em países em vias de desenvolvimento, que hoje utilizam o telemóvel para acelerar os seus pequenos negócios. A fonte das desigualdades não é a tecnologia, mas a mesma de sempre: a ganância humana. É uma pena. Mas vejo hoje os nossos jovens engenheiros muito mais idealistas dos que os da minha geração.

Há sempre um verso e um reverso na disrupção

Totalmente. Mas também se criam muitos empregos novos. Quando fizemos a transição dos cavalos para os carros, precisávamos de pessoas para limpar as ruas, de quem tratasse e pusesse as ferraduras, todas essas profissões desapareceram. O mesmo quando fizemos a transição para a eletricidade, deixamos a economia de carvão e as cidades passaram a estar muito mais limpas. Estas revoluções tecnológicas têm sistematicamente trazido melhorias enormes e aumentam a qualidade de vida e a longevidade das pessoas. Agora, e só para falar da disrupção: estas revoluções não acontecem de forma linear, a máquina começa a acelerar e há um efeito...

... disruptivo...

A tal disrupção. E há, sem duvida, pessoas cujas vidas são abaladas fortemente. Ou por via financeira, ou porque já estão numa idade em que não conseguem acompanhar, ou porque a economia dá uns soluços

A revolução tecnológica anda de tal forma acelerada que não há capacidade das economias se adaptarem

A aceleração é enorme. Há uma boa razão para isso: o nível de educação das pessoas aumentou imenso. Nunca houve tanta gente a trabalhar em ciência e tecnologia ou no conhecimento. Isso tem é de ser também acompanhado pelas ciências sociais e humanas. É importante continuar a apostar nas humanidades e nas artes, precisamente para conseguirmos garantir que esse lado humano consiga navegar essas disrupções. Dito isto, temos de ter consciência que, por detrás da ciência e tecnologia há capital, e que as regras do mundo financeiro, neste momento, ainda estão completamente desajustadas relativamente à economia real e á forma como as nossas sociedades devem crescer de uma forma saudável.

A Veniam é uma empresa portuguesa que tem escritórios na América, ou uma empresa americana com escritório no Porto?

Neste momento, 80% da equipa da Veniam está no Porto e vamos continuar a aumentar muito o nosso centro de engenharia e desenvolvimento. A maior parte do capital dos nossos investidores tem sido gasto em Portugal e, portanto, somos um exemplo de investimento direto estrangeiro, que, desde janeiro 2013, já vai na ordem dos 30 milhões de dólares – 25 milhões de euros.

E por quanto está avaliada?

A nossa avaliação muda semanalmente. Atualmente temos um portefólio de 100 patentes, 24 já foram aceites e temos tido uma taxa de aceitação de 100%, o que também é invulgar na nossa área. Vai haver uma guerra de patentes à volta do veículo autónomo tal e qual como houve no smarphone entre a Apple e a Samsung. O mercado está híper aquecido nesta área.

Esta empresa tem cinco anos. Quando é que prevê que possa dizer que está a ganhar dinheiro?

Provavelmente nunca (risos). Veja o caso da Uber, ou da Amazon, ou da Google. Meço o impacto da empresa no efeito positivo que tem na vida de centenas de milhares de pessoas. Temos 780 mil utilizadores que beneficiam hoje da nossa tecnologia diariamente.

Mas os investidores também não vêm isto só como um ato filantrópico, pois não?

Não. Mas há duas maneiras de os investidores recuperarem o seu investimento. Uma é a empresa ir para a bolsa e assim capitalizar-se, porque tem um modelo de negócio que funciona, gera receitas e cria valor. A outra, é a empresa ser comprada por outra grande empresa, em que esta vai ser capaz de pegar em tudo que era tecnologia, talento e propriedade intelectual e ter um modelo de negocio viável. Pelo caminho, muitas falham. Mas outras criam valor suficiente não só para os investidores, como para a sociedade, que justifica o investimento.

Qual vai ser o caminho da Veniam?

A nossa estratégia é criar uma empresa muito relevante que tenha um impacto muito positivo no mundo. Temos um modelo de negócio sustentável e que nos torna rentáveis em determinada altura. Mas não faz sentido colocar a rentabilidade como primordial, porque a natureza da disrupção tecnológica faz com que o retorno seja a 10 anos e não daqui a dois ou três. Importante é que todas as semanas fazemos progressos.

A nossa principal mais valia é termos bons engenheiros a preços low cost?

Não. A nossa principal mais valia é termos um país onde encontramos pessoas que têm humildade, resiliência e capacidade de comunicar com os outros acima da media. Encontro virtudes em Portugal que se perderam há muito noutras sociedades, nomeadamente na americana. O que nos falta muitas vezes é autoestima, autoconfiança e audácia. Quando combinamos a audácia e a autoestima dos empreendedores americanos com a humildade, a capacidade de entrega e espírito de sacrifício dos portugueses conseguimos fazer coisas fantásticas. Os dias dos engenheiros baratos estão contados, os salários aqui no Porto aumentam a um ritmo monumental e vão continuar a aumentar. Portugal tem de continuar a apostar, mas de forma redobrada ou triplicada na educação, no ensino superior, na ciência e tecnologia e na formação de quadros altamente qualificados. É uma vergonha que haja tão poucos empresários que digam isto. A outra grande vantagem do país é ser pequeno e termos uma infraestrutura fantástica: fibra ótica por todo o lado, boas estradas, bons aeroportos, bons portos.

Há alguma coisa que em Portugal esteja a ser mal feito para acolher as start up e precise de ser alterado?

Há. É preciso uma alteração urgente: a forma como as participações nas empresas, nomeadamente ao nível das stock options está regulado. Nos Estados Unidos, as mais-valias são taxadas a uma taxa de juro baixa e aqui são à taxa do IRS. O valor que as pessoas atribuem às participações nas empresas acaba por ser muito reduzido, porque sabem que os impostos vão buscar quase tudo. Isto seria fácil de regular e seria uma forma de incentivar ainda mais empreendedorismo. Todas as pessoas que trabalham na Veniam têm stock options desde o primeiro dia. Oferecemos como parte do pacote remuneratório, eles podem ou não exercer essa opção. São todos acionistas ou potenciais acionistas e tem uma parte do bolo que a empresa vier a dar no futuro.

Qual foi a maior dificuldade que a Veniam sentiu até hoje?

O ciclo de vendas. Todas estas empresas de transportes, automóveis e telecomunicações têm ciclos de compras e aquisições muito longos. As compras têm um sistema complexo e têm de passar por vários níveis de certificação. Daí também a necessidade de levantar muito capital. Alguns destes contratos demoram um ano a fechar, é a natureza do negocio.

Quais são os vossos principais concorrentes?

Todas as soluções baseadas em redes celulares. Ou seja, existem pequenos dispositivos que se colocam no veículo e o transformam num hot spot wifi. Só que é muito mais caro, porque é através da rede celular e só faz uma unica coisa, cada dispositivo só tem um único uso: a via verde para as portagens, outro para obter dados do veiculo, outro para criar um hot spot wifi. Quem gere frotas detesta ter de gerir cinco ou seis dispositivos diferentes. E geralmente estas soluções não evoluem, sempre que quero adicionar mais funcionalidades tenho de colocar novo dispositivo. A solução da Veniam é uma solução por software, multiúsos e utiliza todas as redes – de wifi, celular e entre os veículos – e evolui, porque estamos permanentemente a atualizar.