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Não percebi bem, mas acho que não aconteceu nada

Boca do Inferno

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Afnal, o ex-ministro das Finanças falhou mais metas e objectivos do que se pensava: tentou demitir-se várias vezes mas só atingiu o objectivo à terceira

Ricardo Araújo Pereira

No momento em que escrevo, Maria Luís Albuquerque vai a caminho de Belém, para ser empossada ministra das Finanças pelo Presidente da República, depois de Vítor Gaspar ter apresentado uma carta de demissão que podemos dividir em quatro partes fundamentais: uma primeira em que o ex-ministro elabora um pequeno historial dos seus pedidos de demissão, uma segunda em que explica as razões do presente pedido de demissão, uma terceira em que faz um balanço do seu mandato (especialmente dos momentos em que não estava a pedir a demissão), e uma conclusão em que faz algumas considerações genéricas sobre liderança e se despede com muita amizade.

A primeira parte fornece uma curiosidade divertida. Afinal, o ex-ministro das Finanças falhou mais metas e objectivos do que se pensava: tentou demitir-se várias vezes mas só atingiu o objectivo à terceira. No miolo da carta, Gaspar reconhece que não cumpriu as metas do memorando relativamente ao défice e à dívida, que os níveis de desemprego são muito graves, que a procura interna e a receita fiscal sofreram quebras fortes e que a repetição dos desvios minou a sua credibilidade. E depois lamenta não ter tido apoio suficiente para dar continuidade ao trabalho que produziu estes resultados.

Parece aquela anedota que Woody Allen conta no Annie Hall: duas velhas estão hospedadas numa estância de montanha e diz uma: "A comida aqui é péssima." Diz a outra: "Pois é. E as doses são tão pequeninas..." O ex-ministro das Finanças tem a mesma angústia: correu tudo muito mal, e ainda por cima só durou dois anos. Não estão reunidas as condições para continuar o péssimo trabalho, e por isso mais vale sair.

Sobretudo porque, segundo ele, o Governo fica mais coeso após a sua saída.

Mas agora, no momento em que escrevo este parágrafo, Paulo Portas demitiu-se.

Diacho. Mais uma previsão de Gaspar que falhou. Parece que Portas discorda da escolha da nova ministra. Não gostava do ministro anterior e também não aprecia esta. É uma pessoa difícil de agradar no que toca a ministros das Finanças. De acordo com um comunicado que acaba de ser emitido, Portas diz estar a obedecer à sua consciência consciência essa que, algo surpreendentemente, alega ainda possuir e por isso parece inevitável que o Governo caia.

No entanto, no momento em que escrevo este parágrafo, Cavaco está mesmo a empossar uma ministra que, ao que tudo indica, dentro de dez minutos será demissionária. Pode ser um dos mandatos mais curtos da história, mas quanto mais pequenos forem os mandatos, menos atreitos são à instabilidade e eu consigo ver agora mesmo, na cara do Presidente da República, enquanto empossa um novo membro de um Governo que está a perder ministros à razão de um por dia, que ele preza a estabilidade acima de tudo. Vamos ver se a estabilidade política resiste a esta demissão de Paulo Portas, que tem um significado claríssimo.

Entretanto, no momento em que escrevo este parágrafo, Passos Coelho faz uma comunicação ao País, dizendo que não percebeu bem o significado da demissão de Paulo Portas, e que precisa de um esclarecimento.

Confesso que esta sucessão de ocorrências também me baralhou um bocadinho.

Portugal cansa muito.