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Aqueles bonecos azuis

Boca do Inferno

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A mesma multinacional que nos impede de chamar estrumpfes a uns bonecos cujo nome original se assemelha imenso a estrumpfes, permite que os espanhóis continuem a dar-lhes a ignóbil designação de pitufos

Ricardo Araújo Pereira

O tempo, esse grande escultor, bem podia estar quieto. Que esculpa o que está informe ainda se admite, mas que se ponha a cinzelar o que já havia sido esculpido parece exagero. Nada do que conhecemos na infância persiste. A casa onde crescemos parece muito mais pequena se a visitamos agora. Certos refrigerantes são hoje indiscerníveis de WC Pato. Acertar com uma peça de fruta demasiado madura na testa de um idoso vai deixando de ter graça à medida a que vamos ficando idosos. São as mais lindas memórias da meninice que vão perdendo o sentido e o sabor. Eu, que fico aborrecido se me mudam de sítio as chaves do carro, gostaria que o tempo fizesse o favor de parar de me mexer na infância.

Quando não é o tempo são as multinacionais. Que, em geral, são um pouco mais poderosas que o tempo. Uma delas resolveu agora decretar que os bonecos a que sempre chamámos estrumpfes passem a chamar-se smurfs. Eu não sei se uma rosa teria igual beleza e o mesmo cheiro se não se chamasse rosa, mas tenho a certeza de que os estrumpfes são menos estrumpfes se se chamarem smurfs. A multinacional argumenta que quis uniformizar o nome dos bonecos dentro de cada língua. No Brasil eram smurfs, cá eram estrumpfes. Para que a multinacional não tenha de gastar dinheiro a mudar o rótulo dos produtos que manda para ambos os países, foi tudo corrido a smurfs. É uma espécie de acordo ortográfico especificamente aplicado aos estrumpfes. Um acordo estrumpfáfico.

Uma injustiça e um escândalo, digo eu. Os proprietários dos estrumpfes pensaram que, em tempos de crise económico-financeira, a sua decisão passaria em claro, mas enganaram-se: eu nunca deixei que o essencial me desviasse a atenção daquilo que é verdadeiramente acessório. E milhares de pessoas que, tal como eu, têm pouco que fazer, não deixarão de fazer ouvir a sua indignação. A mesma multinacional que nos impede de chamar estrumpfes a uns bonecos cujo nome original se assemelha imenso a estrumpfes, permite que os espanhóis continuem a dar-lhes a ignóbil designação de pitufos. Pitufos, notem bem! Mais: na Catalunha, os pitufos chamam-se barrufets. Barrufets! Os estrumpfes, que são obrigados a ter o mesmo nome em Portugal e no Brasil, em Espanha podem ter dois nomes diferentes. E nomes tão estúpidos como pitufos e barrufets. Não, multinacionais: não me vergarão. Nem vocês nem o tempo. Os estrumpfes serão sempre estrupmfes! E o Capri Sonne não sabe a abrasivo sanitário de eficácia comprovada na remoção do calcário da sanita. Aquilo é laranja. Laranja!