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Uma campanha triste

Ironicamente, foi o deputado do PAN a criar mau ambiente. Os debates estavam mornos mas foi com André Silva que as coisas aqueceram. O deputado do PAN contribuiu para o aquecimento global da campanha

Ilustração: João Fazenda

O ambiente de cordialidade que neste momento se vive na política portuguesa é extremamente irritante. A campanha tem poucas alfinetadas, os debates são mornos, a gritaria escasseia. O que se passa? Onde estão as insinuações maldosas da minha infância, os insultos soezes a que me habituaram, as acusações pérfidas de que eu tanto gostava? De repente, toda a gente se respeita, o que é lamentável. Para encontrar alguma impertinência é preciso procurar nos cartazes dos pequenos partidos. O PS, que só não sabe se vai ganhar por muitos ou por mesmo, mesmo muitos, não precisa de fazer grandes ataques a ninguém. O PSD, que nunca teve divergências significativas com o PS, neste momento tem ainda menos.

O PCP e o Bloco participaram na solução governativa, pelo que não será inteligente criticar muito o governo, e também não é cristão atacar a oposição, dado o estado em que ela se encontra. E o CDS, depois de ter experimentado sem sucesso a agressividade, está agora a experimentar uma postura mais conciliadora.

Também sem sucesso. Mas é justo registar a pequena mudança que se verificou no debate entre Rui Rio e André Silva. Ironicamente, foi o deputado do PAN a criar mau ambiente. Os debates estavam mornos mas foi com André Silva que as coisas aqueceram. O deputado do PAN contribuiu para o aquecimento global da campanha. A estratégia do PAN é, como não podia deixar de ser, inspirada na Natureza: assim como certos predadores atraem a presa para o seu ambiente, para facilitar o ataque, também o PAN atrai os adversários para a área que domina, com o mesmo objetivo. Rui Rio pareceu apanhado de surpresa.

Sabia que o PAN só fala do clima e, provavelmente, ia preparado para uma conversa muito agradável e amena, como as que temos nos elevadores. “Hoje está mais fresquinho do que ontem.” É verdade, a gente já não distingue o verão do inverno.” “Pronto, vizinho, até amanhã. Saúde.” Uma coisa deste tipo. Até porque somos todos a favor do planeta. Mas André Silva conseguiu estabelecer um pequeno campeonato, que lidera, para ver quem gosta mais da Natureza. Pessoalmente, estou mal classificado. Eu sempre fui um amante da Natureza. Mas depois a minha mulher descobriu tudo.

(Crónica publicada na VISÃO 1384 de 12 de setembro)

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