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Reformar a idade da reforma

Às vezes, um idoso falece, e é pena. É pena deixarmos de poder usá-lo no mercado de trabalho. Talvez consigamos mudar essa circunstância infeliz se pudermos guardá-lo para peças

Ilustração: João Fazenda

A proposta de aumentar a idade da reforma para 69 anos parece-me pecar por defeito. Às vezes, diz-se que a nossa sociedade trata mal os idosos, mas não é verdade. Há coisa melhor que se possa dar a uma pessoa do que um emprego? Aumentar a idade da reforma é tratar os idosos com respeito e atenção, o mesmo respeito e atenção que se dá a uma bisnaga de dentífrico que já tem pouca pasta lá dentro. Significa que valorizamos o investimento feito e não queremos desperdiçar um produto que ainda tem valor. Trata-se de espremer a energia das pessoas até à última gota. “Ainda há aqui um bocadinho de força de trabalho”, dizemos, enquanto apertamos os velhotes.

A minha proposta é que a idade da reforma aumente para os 150 anos. Em primeiro lugar, é um modo de a sociedade encorajar as pessoas a durarem mais tempo. Além disso, retarda o prazer da reforma, que é uma estratégia recomendada por todos os terapeutas sexuais. Aproveita a sabedoria e a experiência destes trabalhadores, que nestas idades têm mais paciência e disponibilidade. Podem dedicar-se mais ao trabalho, sobretudo se os bisnetos lhes forem levar o farnel à empresa, à fábrica ou ao campo. São pessoas organizadas e habituadas a respeitar horários, porque têm hora certa para tomar o comprimido da tensão, o do colesterol, etc. Deitam-se cedo e levantam-se mais cedo ainda, pelo que têm tempo para ir a várias consultas médicas ainda antes do horário de expediente.

Como sociedade, creio que podemos inclusivamente ir um pouco mais longe. Às vezes, um idoso falece, e é pena. É pena deixarmos de poder usá-lo no mercado de trabalho. Talvez consigamos mudar essa circunstância infeliz se pudermos guardá-lo para peças. Um trabalhador de 150 anos que morra com um fígado ainda em estado razoável pode fornecê-lo a um trabalhador cinco ou 10 anos mais novo. É um modo de, ainda que através de uma víscera, o trabalhador falecido poder continuar a contribuir para o progresso económico do País. Dirão que sou um sonhador, mas se aquele fígado continuar a descontar para a Segurança Social, depois de três ou quatro transplantes para trabalhadores mais novos poderá desfrutar de uma merecida e digna reforma, na companhia dos que mais ama, dentro de um boião de formol.

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