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Se governar; não beba

Quando o Katrina destruiu Nova Orleães, disseram que se tratava de um castigo divino aos homossexuais daquele Estado. Ora, desta vez, Deus atacou no Texas, povoado sobretudo por caubóis, que não são cá dados a mariquices

João Fazenda

Quando soube que o Texas ia ser acometido por um furação destruidor, Donald Trump procedeu como qualquer grande líder: foi imediatamente escrever no Twitter. 
A mensagem dizia: “Chuvadas HISTÓRICAS em Houston e por todo o Texas. Cheias sem precedentes e vem aí mais chuva. O espírito do povo é incrível. Obrigado!” Três coisas saltam à vista: 1. Trump é um daqueles 
PATUSCOS que escrevem ALGUMAS palavras em MAIÚSCULAS no meio DO texto; 2. Trump tem dificuldades com o conceito de tom; 3. Trump agradece, como se fosse um favor pessoal, que o povo do Texas esteja a tentar salvar-se como pode. Gostaria de analisar todos estes pontos detalhadamente.

Quanto ao primeiro, deve registar-se que se trata de mais uma falha de carácter de Donald Trump, a juntar às já conhecidas – e não é das menores. Ao longo do tempo, os membros do Partido Republicano foram abandonando Trump por vagas: uns abandonaram-no mal ele abriu a boca; outros deram o benefício da dúvida até saírem umas gravações sobre o tratamento que ele dava às mulheres; outros esperaram um pouco mas não aguentaram mais quando ele disse que havia gente mesmo impecável na manifestação nazi. Agora que se SABE que ele faz ESTA brincadeira PARVA e extremamente IRRITANTE com as palavras, não se imagina quem possa continuar ao lado de um homem destes.

A propósito do segundo ponto, é interessante notar que o tweet parece ter sido concebido por aqueles maduros que vão contemplar vagalhões para o pontão quando há tempestade. Mais do que preocupação, Trump parece exprimir profunda admiração pelo fenómeno natural. São chuvas históricas – e não vão ficar por aqui. É um fenómeno sem precedentes e temos a sorte de estar cá para o contemplar. Realmente, a natureza tem coisas giras.

O terceiro ponto indica que o presidente dos Estados Unidos da América é aquilo que se costuma designar por “buéda fixe”. Obrigadão, malta. Força aí. Tenho visto pessoal a nadar com muito estilo, nesse dilúvio. Está a dar gosto ver. Continuem. Aquele abraço. Cumps.
Apesar de interessante, a mensagem de Trump não me deixa esquecer a ausência de um tipo especial de apreciador de furacões: aqueles fanáticos religiosos que costumam fazer uma interpretação moral dos fenómenos da natureza. Quando o Katrina destruiu Nova Orleães, disseram que se tratava de um castigo divino aos homossexuais daquele Estado. Ora, desta vez, Deus atacou no Texas, povoado sobretudo por caubóis, que não são cá dados a mariquices – apesar do que sugere o filme O Segredo de Brokeback Mountain, que é eminentemente uma obra de ficção científica. Além disso, Trump acabou de aprovar a proibição da entrada de transsexuais na tropa. 
Talvez Deus não receba o Diário da República.

(Crónica publicada na VISÃO 1278, de 31 de agosto)