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Admirável facebook novo

Boca do Inferno

Ilustração: João Fazenda

Se os utilizadores do Facebook passam a poder manifestar opiniões negativas numa rede social, receio que em breve tenhamos azedume, maledicência e até ressentimento na internet. Não sei se aguento

Temo que a decisão, recentemente anunciada pelo criador do Facebook, de introduzir um botão que diz "Não Gosto" possa trazer uma mudança drástica ao mundo. Se os utilizadores passam a poder manifestar opiniões negativas numa rede social, receio que em breve tenhamos azedume, maledicência e até ressentimento na internet. Não sei se aguento. A internet, outrora berço da cordialidade e da sensatez, pode transformar-se num antro de agressividade e violência verbal. É pena.

Há dois ou três anos, Mark Zuckerberg rejeitou criar um botão deste género porque, segundo disse, haver pessoas que dizem que não gostam de alguma coisa não é bom para o mundo. Entretanto, parece ter mudado de ideias e chegado a duas conclusões novas, ambas acertadas: a primeira é que manifestar desapreço por alguma coisa é, em princípio, indiferente para o mundo; a segunda é que o mundo se está borrifando para os botões do Facebook. Provavelmente por isso, os utilizadores vão agora poder exprimir repulsa carregando num botão. Creio, no entanto, que continua a haver demasiadas emoções para tão poucos botões. Neste momento, os utilizadores podem dizer apenas se gostam ou não gostam de determinada publicação. Mas há vários quadrantes emocionais que os actuais botões não cobrem. Determinada publicação talvez peça um botão chamado "Considero Apenas Razoável". É difícil imaginar que publicação pudesse ser essa, até porque há historial de textos que, contendo apenas a expressão "Bom dia", recolhem dezenas de "Gostos". E publicações extremamente desagradáveis talvez requeressem um botão chamado "Abomino".

Por outro lado, certas publicações resistem a qualificação feita por botões. Um utilizador do Facebook pode desejar manifestar a sua opinião sobre a fotografia de umas pernas nuas com o mar em fundo (e, em princípio, deseja) mas talvez não encontre um botão que exprima toda a complexidade do seu pensamento. Pode, inclusivamente, ter de recorrer a métodos antiquados de expressão tais como a enunciação de um raciocínio. O utilizador do Facebook pode gostar de fotografias de pernas nuas com o mar em fundo (e, em princípio, gosta), mas não gostar desta. Nesse sentido, os botões que dizem "Gosto" e "Não Gosto" acabam por não conseguir captar a subtileza desta opinião. Mais: fazem falta botões de comentário a outros botões. Um utilizador deve ter o direito de não gostar de um "Gosto". Ou de gostar de um "Não Gosto". É fundamental corrigir estas limitações à liberdade de expressão via botões.