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Ronaldo: a jovem ordinária, os chauvinistas e a nostalgia dos soutiens queimados

Rita Ferro Rodrigues e respectivas groupies estarão reunidas a organizar os preparativos de uma festa do soutien queimado, a ocorrer em breve numa praça perto de si – ou não

- Até agora ainda não falaram de dinheiro. Mas está para vir

- Ok

40 minutos depois...

- 950 mil dólares

- É esse o valor?

- Essa é a primeira proposta: dá 660 mil euros. Não vamos aceitar. As negociações continuam

- Isso não é muito?

- Acho que é. Acho que fechamos o acordo por menos. Tem de ser menos

- Ok.

Terá sido desta forma que Cristiano Ronaldo e o seu advogado negociaram o silêncio de Kathryn Mayorga, a bela morena que acusou o jogador de violação num hotel de Las Vegas, em Junho de 2009. Esta troca de sms consta da investigação publicada pela Der Spiegel, uma respeitável revista alemã que não é conhecida pela divulgação de “fake news”.

Há duas maneiras de perceber este caso:

1 - Ver os programas matinais de TV e ler o que alguns comentadores de “referência” têm escrito sobre o assunto – e concluir espontaneamente que estamos perante uma conspiração universal para manchar a reputação do nosso menino de ouro;

2 - Investir uns minutos a ler o artigo da Der Spiegel (disponível na internet) - e rapidamente perceber que este escândalo vai muito além de uma festarola inocente numa suíte de um hotel de luxo em que uma vedeta da bola se enrolou com uma jovem ansiosa por um carimbo de luxo na sua caderneta de conquistas.

Não faço ideia se Ronaldo violou Kathryn. O que sei é o que todos sabem. E neste momento já há muitas coisas que se sabem. Que o encontro aconteceu (há fotos na discoteca). Que o casal se juntou na suíte de Ronaldo (foi o próprio que o admitiu). Que o jogador português se envolveu sexualmente com a agora professora, então com 25 anos. Que, nessa mesma noite, kathryn apresentou uma queixa contra Ronaldo por agressões sexuais, tendo feito exames médicos em que foram identificadas lesões anais. Que o jogador português, na negociação do acordo de confidencialidade, terá admitido que a jovem resistiu, mas que “se mostrou disponível” - e que, finalmente, Ronaldo aceitou pagar 375 mil dólares pelo silêncio de Kathryn.

Isto é o que sabemos. E estas são algumas das coisas que, a propósito do assunto, se andam a dizer por aí: Maya, sempre um poço de sabedoria popular, sentenciou na CMTV que “quem vai à guerra, vai para a guerra”. Dá vontade de perguntar à tia Maya se quando vai para a cama (ou para o chão ou para outra superfície que julgue aprazível) com alguém transporta consigo uma falcata e uma longa espada para o que der e vier. Outra figura proeminente (José Cabrita Saraiva, diretor-adjunto do jornal I), escreveu uma crónica que reputo de bastante robusta, em que afirma que o facto de a rapariga ter acompanhado Ronaldo até ao quarto torna uma acusação por violação “pouco consistente”. A noção de “consistência” de Cabrita Saraiva estará talvez a precisar de ir à revisão, uma vez que apresenta sintomas de grande rodagem.

Outros e outras escreveram e disseram muitas coisas, quase todas regadas com generosas doses de machismo ou com tiradas massivas de chauvinismo bacoco, como se qualquer mulher que aceita um convívio com um homem num quarto de hotel fosse uma ordinária compulsiva que se obviamente se presta a um vastíssimo cardápio de agressões sexuais – com a violação anal à cabeça, naturalmente.

Quem não disse nem escreveu nada digno de relevo foram as senhoras das Capazes, sempre tão rápidas e sagazes a acender a fogueira da inquisição sexista por dá cá aquela palha, e agora refugiadas num silêncio cujo ruído se consegue escutar no jacuzzi da suíte do hotel onde a violação terá (sublinho o “terá”) ocorrido. Não percamos, porém, a esperança: seguramente que neste preciso instante Rita Ferro Rodrigues e respectivas groupies estarão reunidas a organizar os preparativos de uma festa do soutien queimado, a ocorrer em breve numa praça perto de si – ou não.

Uma violação é uma violação, não tem estatuto ou nacionalidade. E se a polícia norte-americana provar – sublinho o “se” - que Ronaldo violou Kathryn, o jogador português deve ser julgado e condenado como qualquer pulha anónimo que tenha feito o mesmo.