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O concerto de Abdullah Ibrahim

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A arte é o destino dos homens

Abdullah Ibrahim tocou no passado dia 23 em Lisboa. Foi um concerto de solo piano.

O músico tem 82 anos e mostrou alguma dificuldade de locomoção ao chegar e ao partir. No entanto, os seus dedos pareceram-me ainda mais hábeis do que é costume sentir nos discos, de estúdio ou ao vivo. Retenho sobretudo a limpidez da interpretação de «The mountain», na primeira parte do concerto. Que não foi bem a primeira parte, pois, segundo o programa, o espectáculo estava previsto para demorar uma hora. E assim aconteceu. Após um longo (de uma hora, justamente) medley que juntou vários temas antigos e recentes (sobretudo do último álbum «The song is my story»), e que é suposto ter incluído – como é quase obrigatório no jazz – alguma «improvisação» na ligação entre os temas, o compositor terminou. Foi então que, perante os aplausos, decidiu tocar um «encore» de cerca de meia-hora.

No programa principal (primeira hora), receio que a assistência tenha ficado um pouco frustrada, por a presença dos temas mais conhecidos, e mais melodiosos, não ter sido tão relevante quanto o hipoteticamente esperado. O que talvez explique algum desconforto que se traduziu nas habituais tosses, funga-funga, mexidas nas carteiras de senhora e até toques de telemóvel. Não teve a intensidade que já ouvi noutros sítios, mas continua a ser essa a razão que leva o Keith Jarrett a apenas gostar de fazer os seus concertos de improviso no Japão, onde encontra a disciplina e o respeito que entende suficientes para o bom funcionamento da coisa. Ibrahim não se incomodou muito e lá continuou imperturbável, misturando os temas com a tal improvisação que o não é, uma vez que os vários trechos previstos estavam devidamente alinhados (no caso de Jarrett, já poderemos falar de verdadeira improvisação), e a que eu chamaria «variações» entre peças. Mas, voltando ao que dizia atrás, estas «variações» e os temas mais recentes, mais dissonantes ou experimentais (também do álbum «Senzo»), podem ter impedido uma adesão imediata.

No entanto, o programa principal foi sóbrio, calmo, muito bem interpretado e, de vez em quando, de dimensão maior, sobretudo na parte final (na conclusão), com uma interpretação lindíssima, extremamente depurada e controlada de silêncios, de «The wedding».

O Vergílio Ferreira dizia que havia escritores que admirava e outros que amava. Entre os que amava sem admirar, referia Augusto Gil. E o mesmo se passa um pouco comigo em relação ao Ibrahim. Por um lado, não o admiro como outros, não só por apresentar uma supremacia excessiva da mão direita, anulando a sedutora hipótese de complexidade do contraponto, como por ter exagerado, na minha opinião, a repetição permanente de temas em múltiplos discos diferentes (às vezes, dando-lhes outros nomes), criando uma sensação menos agradável de «déjà vu». Porém, é um compositor que eu amo. E o concerto de dia 23 foi, para mim, a confirmação do facto. Consegui, em vários momentos – e apesar dos ruidinhos envolventes –, a profundidade desejada de comunhão e de encantamento. Sobretudo no encore. Onde, lá está, voltou ao lugar onde foi mais feliz e produziu um momento raro de beleza. Começou de forma brilhante (com um «staccato» muito intrusivo) com uma peça que penso ter sido «Joan – Cape Town flower», continuou com uma segunda versão de «The wedding», agora mais envolvente por via de um trabalho mais elaborado da mão esquerda, e terminou com uma interpretação absolutamente notável de «Mindif», quase sinfónica ao jeito da versão do álbum «African suite».

Foi um momento comovente. E eu comovido fiquei, como é meu hábito, perante a por vezes tão inesperada como desmesurada beleza da arte e a decorrente grandeza, quase inverosímil de tão rara, que os seres humanos estão – apesar de acabar de ler, no «Expresso curto», que metade dos mortos de Alepo são crianças – destinados a atingir.