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A falta de clareza em Madrid faz-nos perder força nas negociações internacionais

Victor Ângelo

Estão reunidos os elementos para uma tempestade perfeita em Espanha. À falência de setores importantes da economia juntam-se a catástrofe social, a fragilidade que resulta do desemprego generalizado, a debilidade do sistema bancário, mais a dívida soberana, iminente, insustentável e complexa, bem como a ameaça de confrontação constitucional com a Catalunha. No olho deste furacão, está um primeiro-ministro nebuloso, que ninguém entende. Para uns, Mariano Rajoy é um político enfatuado mas oco, um indeciso que prefere adiar os problemas em vez de os resolver. Para outros, tratar-se-á de um dirigente hábil, que tem sabido jogar com as contradições europeias, enquanto procura encontrar soluções através dos mercados, sem ter que se submeter aos ditames que um pedido de resgate implicaria. Quem sabe qual é o Rajoy autêntico? A verdade é que a situação espanhola é hoje dos assuntos mais falados nos corredores das instituições europeias e que mais apreensão suscita. Bem como a atuação do primeiro-ministro, que provoca notas de sinais contrários.

Para o casal jovem, que vi recentemente numa localidade da Andaluzia a alimentar os filhos com arroz branco e um molho estranho, para tornar tragável a miséria do quotidiano, a tempestade já chegou. O facto de o seu país estar constantemente nos grandes títulos dos jornais da Europa não abre nenhuma janela de esperança. A capacidade de imaginar um futuro diferente, a esperança, é uma das vítimas esquecidas das crises profundas. A luta desesperada pelo dia a dia faz emergir o rancor e o desespero que, por sua vez, atrofiam a imaginação. 

Para nós, os vizinhos do lado, a falta de clareza em Madrid faz-nos perder força nas negociações internacionais. Visto do Norte da Europa, Portugal acaba mais ou menos metido no mesmo saco: uma Península Ibérica à beira de uma catástrofe multiforme, hesitante e incapaz de entender a imensidão dos desafios que tem pela frente. Ou seja, um espaço, no conjunto europeu, que convém submeter a um tratamento de choque. Nestas circunstâncias, quem pensa que é possível renegociar os termos do nosso programa de ajustamento não tem em conta que, do lado dos países da União que representam as economias mais fortes, deixou de haver disponibilidade política para tal. Para este grupo, as alternativas que nos restam são claras: ou se cumpre o programa, tal como está acordado, e então haverá financiamento externo; ou se deixa de cumprir e instala-se a bancarrota, que levará, sem dúvida, à saída do euro. 

Perante isto, pensemos para além do acordo financeiro e para além da Europa. Não chega dizer que Portugal não é a Espanha, que temos um programa que está a ser cumprido, que existirá rumo... É preciso, em simultâneo, mostrar uma estratégia de revitalização da economia nacional, capaz de atrair investimentos externos, de diversificar e modernizar o tecido produtivo e de criar emprego. Uma estratégia que terá de ser fundamentada num compromisso político e social o mais amplo possível. Haverá, igualmente, que evitar os excessos de imprevisibilidade e de instabilidade. Acima de tudo, será necessário revigorar o diálogo político e sindical, no quadro da democracia parlamentar e das instituições de concertação. No momento atual, falar da hipótese de um Governo de salvação nacional é um erro. Esta expressão faz soar campainhas de alarme. Sem contar que, se Portugal não é como a Espanha nem como a Grécia, também não é como a Itália de Mário Monti.