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É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos mas não esquecer que ela é careca

Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais. Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo

Ilustração: Susa Monteiro

Andei agora uma série de dias no estrangeiro e o que mais me surpreendeu foi não ter visto uma única pessoa de iphone na mão, a carregar nas teclas, alheada do mundo. Eu como todos os dias fora, num restaurante aqui perto, vou e venho a pé, cruzo-me com gente na rua, passo por uma paragem de autocarro e é extraordinário o que Portugal mudou. Por exemplo o que mais me aborrecia, nos sítios onde almoçava e jantava, eram os guinchos de meninas e meninos a correrem entre as mesas, enlouquecendo todo o mundo sob o olhar desvelado ou ausente dos pais. Não é que as crianças se tenham tornado bem educadas, isso seria pedir demais aos lusitanos, é que em lugar de gritarem, incomodarem e empurrarem os vizinhos estão caladinhas ao lado dos adultos, cada uma com o seu iphone, a carregarem nas teclas num autismo absoluto, concentradas num jogo qualquer. Como os pais não conversam com elas ou entre si, ocupados a comerem, de olhos no prato

(se calhar existem iphones 
escondidos no puré)

completamente sozinhos, 
tenho a sensação de estar, com o bacalhau à Brás em frente, num silêncio de capela. A mesma coisa nos transportes, a mesma coisa nas esplanadas, a mesma coisa nas paragens de autocarro

(há semanas, ao passar por uma delas, vi sete pessoas sete à espera, todas de olhos baixos, a picarem o seu quadradinho de plástico com o indicador, alheadas do universo. Não somos um país, somos um enorme convento de carmelitas autistas em silenciosa comunicação com o seu écranzinho que os põe em contacto com um estranho universo inexistente, cheio de palavras e imagens irreais. Os humanos já não falam: dialogam em silêncio com o nada, isto é com o que pensam ser os outros e o mundo, trocando banalidades arrasadoras com criaturas e acontecimentos tão fantasmáticos quanto elas. Não se relacionam entre si: relacionam-se com silhuetas vazias, interessam-se por acontecimentos ocos, os afectos transformam-se em siglas, a ternura em bjs sem carne, meia dúzia de consoantes e de k estratégicos substituem os sentimentos e as emoções. Os corpos transformam-se em silhuetas, a partilha em frases feitas, o amor no supermercado do face book onde as pessoas se apaixonam por criaturas irreais, ou seja fotografias minúsculas e ideias sem carne, encharcando os iphones de lugares comuns patetas nos quais se sente o enorme peso de uma solidão irremediável. Tenho muito dó desses infelizes fantasmas procurando desesperadamente outros infelizes fantasmas na esperança de uma relação fantasmática que, ao fim e ao cabo, não é possível porque não se pode amar uma ausência sem espessura de gente. O poeta Fernando Pessoa, por exemplo, parece-me não uma criatura mas um nada falante. Não é ao artista que me refiro agora, é ao homem que tentava existir através da bebida na esperança de obter, por intermédio de um substituto do leite materno, a densidade carnal que não tinha e, portanto, os seus escritos não respiram. Fingem que respiram, num sofrimento imenso. As criaturas dos iphones não pensam, não lhes interessa pensar, interessa-lhes existir no vazio, relacionando-se com vazios tão brancos quanto os deles, procurando desesperadamente bjs sem substância. Conversam com ninguéns em diálogos de uma pobreza afectiva absoluta que é o único anteparo de que são capazes para tentarem lutar contra a depressão, porque ao princípio não era o Verbo, era a Depressão, e as nossas almas tão sozinhas, tão pobres. O que queremos de facto, o que esperamos ainda é encontrar um modo de nos acharmos menos desamparados, menos indefesos, menos perdidos, e esperamos, como crianças que esqueceram o caminho para casa, que um bj nos aponte o caminho. E não aponta porque nenhum bj se transforma em beijo, é uma metamorfose impossível. Toma o meu bj, dá-me o teu bj em troca. E ficamos cada um com o bj do outro na palma a pensar

– O que faço eu com isto?

enquanto as duas letras se dissolvem ou se evaporam num écranzinho que não responde. 
Na fila dos automóveis de regresso a casa ao fim do dia vemos as pessoas sentadas no carro, olhando fixamente em frente, imóveis e sérias. Se repararmos nos olhos delas estão todas mortas atrás dos olhos. Não faz mal: o iphone está aqui no bolso; em chegando a casa ligo-o e encontro outros desgraçados, tão defuntos quanto eu, à espera de um colo que não existe. Há uma ausência apenas e lá ao fundo, na cozinha, uma torneira que não veda bem a pingar no lava-loiças o ritmo angustiado do nosso desespero. Talvez um bj ajude um bocadinho a torná-lo suportável: é que somos tão pobres que nos contentamos com uma côdeazita de nada. E amanhã encontraremos na fronha algumas migalhas que sobraram. Se as metermos na boca têm um gosto a lágrimas.

(Crónica publicada na VISÃO 1319 de 14 de junho)