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O Bom Jesus da cidade

Histórias portuenses

Germano Silva

A imagem do Bom Jesus da Cidade existe e está hoje no cimo de um altar existente na sacristia da igreja dos Clérigos. Em tempos passados, foi alvo de grande devoção popular

Leio, em documentos do século XVI, que o cabido portucalense, ou seja, o conjunto dos cónegos da catedral do Porto, admoestaram a comunidade dos dominicanos, que tinham o seu convento no atual largo de S. Domingos, por causa de uma água “milagrosa“ que os religiosos vendiam em frasquinhos aos devotos e a que davam o nome de “água do Bom Jesus da Cidade”.

Para a época era coisa pouco vista: os senhores cónegos da ilustrada Sé, contra os influentes e poderosos padres dominicanos, os homens da oratória e da inquisição? Fomos tentar saber o que havia. E descobrimos uma curiosa história entretecida naquele breve espaço que fica entre a fé e a superstição.

Foi assim: na manhã do distante dia 17 de Maio de 1574, o sacristão da igreja do mosteiro de S. Domingos, mandou, para que fosse lavada, uma toalha de linho, que normalmente cingia o corpo de uma imagem de Cristo crucificado, existente no referido templo, a casa de uma devota moradora na rua das Congostas, uma das principais artérias do burgo daquele tempo.

Em casa da tal devota havia uma menina, de seis para sete anos de idade, que nunca saia de casa porque sofrera de uma grave doença dos olhos que a cegou. Ouvindo dizer que, à casa em que vivia, havia chegado a toalha que cingia a imagem de Cristo da igreja de S. Domingos, pediu que lha colocassem na cabeça de modo a que lhe cobrisse também os olhos. Assim se fez e quando se removeu a toalha a menina gritou que havia recuperado a vista, que voltava a ver e o acontecimento foi tido como um milagre operado pela imagem do crucificado. Uns dias depois, do memorável acontecimento, dizem as crónicas, os frades retiraram do seu altar a cruz milagrosa e levaram-na em procissão pelas ruas da cidade ficando a imagem, a partir daí, a ser conhecida pelo Bom Jesus da Cidade.

Mas os dominicanos não se ficaram por celebrações e procissões. Logo a seguir puseram à venda, nas boticas (lojas) do mosteiro, umas garrafinhas com água que os próprios frades diziam ter determinadas virtudes curativas e a que davam o sugestivo nome de “água do Bom Jesus da cidade “

Ora foi contra este tipo de comércio religioso, digamos assim, que se levantou a voz ajuizada do cabido da Sé portucalense. Consideraram os cónegos que se andava a correr o risco de se misturar a devoção com a superstição e tudo com a bênção da classe eclesiástica…

Resta informar que a imagem do Bom Jesus da Cidade existe e está hoje no cimo de um altar existente na sacristia da igreja dos Clérigos. Em tempos passados, foi alvo de grande devoção popular.

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.