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O homem que sonhava ser Deus

O dinheiro é poder e o poder é dinheiro. Daí a ser o banqueiro do regime foi um pulo. Tomar conta do regime outro. Só que ser Espírito Santo e o Dono Disto Tudo não lhe chegava, Ricardo Salgado queria mais

Foi Thomas Jefferson quem disse que a maior ameaça para a liberdade não são os exércitos, mas os banqueiros. A história recente de Portugal pode estar prestes a atestar isso mesmo, se se confirmarem as recentes suspeitas da investigação no processo Operação Marquês: o primeiro-ministro e o banqueiro mais importante do País estariam em conluio criminoso num caso que envolvia corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Os últimos anos têm sido generosos em atirar-nos às pazadas casos que superam a mais inverosímil ficção hollywoodesca: será possível que a mais importante figura ativa do Estado e a mais importante figura do poder económico possam ter feito um todo-poderoso acordo de vilões?

Ricardo Salgado, constituído arguido no final de janeiro no âmbito deste processo, é a cereja no topo do bolo de uma investigação que indicava que o Grupo Espírito Santo estaria na origem de mais de 17,4 milhões de euros recebidos por Carlos Santos Silva na qualidade de testa de ferro de José Sócrates. Mais um caso a juntar-se à longa lista de suspeitas e acusações perante as quais Salgado terá de responder, nomeadamente no âmbito dos processos Monte Branco e da falência do grupo Espírito Santo.

Olhando agora para trás, não é nada que seja absolutamente inimaginável. Sempre foi evidente que a parada de Ricardo Salgado era altíssima. Ele queria chegar ao céu. Foi assim que nasceu e se consolidou a sua ligação com a Portugal Telecom, a Ongoing, a Mota-Engil e a EDP. Ele queria controlar as grandes operações financeiras e ter um pé em todos os principais negócios para estar onde estava o "big money". Afinal, o dinheiro é poder e o poder é dinheiro. Daí a ser o banqueiro do regime foi um pulo. Tomar conta do regime, outro.

Ser Espírito Santo e o Dono Disto Tudo não lhe chegava, Ricardo Salgado queria mais, queria ser Deus. Mesmo que para isso tivesse de corromper um primeiro-ministro e responsáveis da maior empresa do País, suspeita agora a investigação.

Como a VISÃO dá conta nesta edição, estimam os procuradores que foram mais de 90 milhões de euros as transferências feitas pelo GES para responsáveis políticos, em Portugal e no Brasil, administradores da Portugal Telecom e até para o próprio Ricardo Salgado, entre 2006 e 2012.

A confirmar-se esta tese, primeiro na acusação até 17 de março, a data-limite para esta peça processual, e depois em julgamento até prova em contrário, Ricardo Salgado e José Sócrates gozam da sua legítima presunção de inocência, este caso obrigará a que se revisite a história financeira e política do País e perceber como se chegou aqui. O Santo caiu com estrondo e levou atrás de si prejuízos de vários milhares de milhões de euros (a conta ainda está por fazer e parte dela vai sair do meu e do seu bolso) e a reputação da classe política é legítimo perguntar quantos outros contratos públicos possam ter sido feitos ao serviço de interesses privados.

Mas mais do que perguntar, impõe-se saber as respostas: Como é que se deixou engordar um monstro deste tamanho à vista de todos? E como é que monstros deste tamanho escaparam nos intervalos da chuva dos sistemas de controlo, supervisão e investigação? Algo vai mesmo muito mal no reino de Portugal.

PS: Há quinze dias, dei conta neste espaço da história de um pedófilo confesso à solta há um ano sem acusação. Uma semana depois da publicação da crónica, finalmente ela apareceu. Justiça que tarda não é justa e a que anda a reboque da cobertura mediática também não.

(Texto publicado na edição 1252 de 2 de março da revista VISÃO)