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O vírus e a vacina

E se Donald Trump não for, afinal, o vírus, mas sim a vacina para o populismo?

A entrada de Donald Trump na Casa Branca conseguiu exceder todas as expectativas: tanto as daqueles que esperavam o pior de um Presidente que, na campanha eleitoral, tinha dinamitado todas as regras e convenções, como as dos que, de forma benévola, acreditavam que ele iria mudar o discurso mal jurasse defender a Constituição dos Estados Unidos da América. Não é fácil, portanto, procurar ser otimista nos dias que correm. Pode tornar-se até irritante, segundo algumas opiniões. Mas a verdade é que até a Ciência tem encontrado provas concludentes sobre a relação entre a nossa atitude perante a vida e a nossa saúde e o envelhecimento. E se podemos ser céticos em relação à força do otimismo, a realidade é que nunca ninguém conseguiu provar que o pessimismo tenha contribuído, só por si, para o progresso e o bem-estar.


Façamos, então, um exercício otimista, com base numa hipótese que também pode ser considerada, mas que vai ao contrário do pessimismo geral: e se Donald Trump não for, afinal, o vírus, mas sim a vacina para o populismo?


De uma forma simplista, sabemos que as vacinas são criadas a partir dos próprios vírus que vão combater, originando os anticorpos necessários a tornar o organismo imune.


Este vírus do populismo pode parecer agora surpreendente, mas não é novo. Muito do que Donald Trump tem dito e prometido nos últimos dias, já tinha sido ouvido noutras paragens. O vírus já andava a ser espalhado. A única diferença, é que aquilo que Viktor Orban tem dito e feito na Hungria pouco impacto alcança para lá das suas fronteiras (onde também tem erguido uns muros). Nas Filipinas, Rodrigo Duterte já produziu algumas declarações que nem lembrariam a Trump, mas ninguém saiu à rua, por esse mundo fora, em marchas contra ele. E se há mais de duas décadas o apelido Le Pen tem vindo a ganhar adeptos, apesar da rejeição dos partidos do sistema, a verdade é que nunca alguém assim chamado teve oportunidade de demonstrar, realmente, como pretende exercer o seu poder.

Agora, com Donald Trump tudo é diferente. Porque é tudo público, mediático, viral. E vai ser assim, ninguém duvide, todos os dias durante os próximos anos, independentemente da discussão sobre a verdade, as fake-news, a interpretação dos factos ou as mentiras a que agora se chamam pós-verdade. A sua atuação, enquanto Presidente, vai ser a mais escrutinada da História. E não apenas nos EUA, mas sim em todo o mundo, já que decidiu (por estratégia eleitoral ou por convicção, vá-se lá saber) afrontar a ordem estabelecida no planeta, criada e assente precisamente no país que agora dirige. Ou seja, vai ter de enfrentar não só um país profundamente dividido – como não se via desde os tempos da guerra do Vietname 
– mas também um planeta inteiro que tenta perceber o que acontecerá com esta mudança de estratégia americana ou, no caso da China e da Rússia, aproveitar até para ocupar o seu lugar no concerto das nações e do comércio global. 


Por norma, é preciso ter sempre respeito pelo líder da nação mais poderosa (mesmo que Trump, aparentemente, queira refrear a pulsão imperialista que fez doutrina na política externa americana). Mas a probabilidade de muita coisa correr mal é elevada. E é aí que o vírus se pode transformar em vacina.

Uma nota final sobre a entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa à SIC e os seus alegados “ataques” a Passos Coelho, que parecem ter enfurecido tanta gente e feito soltar um coro de críticas sobre o Presidente, absolutamente inédito neste seu primeiro ano de mandato. O que Marcelo fez foi, isso sim, um exercício de liberdade e, em simultâneo, uma declaração de independência: depois dos “reparos” públicos ao líder do PSD, ele passou a ter, aos olhos da opinião pública, toda a justificação moral e política para, no futuro, poder criticar também o líder do Governo. É isso, aliás, que se espera de um Presidente – ter o direito (o dever) de dizer livremente e em consciência o que pensa sobre governo e oposição, acima de quaisquer jogadas políticas ou conspirações obscuras. A discussão política, em Portugal, não tem que andar continuamente a copiar o pior dos debates sobre a arbitragem no futebol.

(Artigo publicado na VISÃo 1247, de 26 de janeiro de 2017)