Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

A doença e o espírito, ou o caminho de uma demonização social

Getty Images

O horizonte dos exorcismos é, de facto, um mundo teológico levado ao limite: não é por acaso que é no final de um exorcismo por si efectuado que Jesus tem uma das suas afirmações mais duras nesta separação entre o bem e o mal

Vai longe o excecional ensaio de Susan Sontag sobre “A Doença enquanto Metáfora”, esse brilhante texto redigido durante a recuperação de uma doença grave e prolongada da autora. Hoje, muito tempo depois de a esse texto se terem vindo juntar as indagações sempre demolidoras de Foucault, a doença é já objeto num horizonte onde a ideia de degradação, física ou mental, se cruza com a de pecado e a de culpa, de eleição ou de possessão.

Cruzei-me com os horizontes teóricos de Sontag após a lecionação de um curso breve sobre exorcismos, e da subsequente escrita de um pequeno texto sobre o mesmo tema. Percebi como fomos, durante milénios, educados a ver a doença, não só como uma falha, mas mesmo como uma demonstração de uma qualquer natureza demoníaca em nós.

Ter uma verruga no nariz, como tão tipicamente apontamos às bruxas, era a marca de que uma mulher estava possuída por um demónio, tendo-se a ele entregue ou sido conquistada - era seu agente e ator. Uma malformação ou a cegueira, simplesmente, era sinónimo de pacto demoníaco, e mesmo quando no século XIX se quis encontrar uma forma de mostrar uma criança a mentir, foi pela deformação do narizito do seu pequeno que Jepetto percebia o engano.

Para muitos dos movimentos religiosos nascidos nos Estado Unidos da América no séc. XIX e início do séc. XX, o mundo está em constante luta entre o bem e o mal, numa visão maniqueísta levada ao extremo. E o horizonte dos exorcismos é, de facto, um mundo teológico levado ao limite: não é por acaso que é no final de um exorcismo por si efectuado, que Jesus tem uma das suas afirmações mais duras nesta separação entre o bem e o mal. Diz o Jesus em Mateus 12.30: “ Quem não é comigo é contra mim” – estamos muito longe do Jesus que é amor e perdão, mas o contexto é o de um exorcismo.

As igrejas neopentecostais, nascidas já nos últimos quarenta anos, levam esta forma maniqueísta de ver o mundo, o equilíbrio entre caos e ordem ou entre dons do Espírito Santo e a possessão demoníaca, ao limite do espetáculo e da fidelização dos seus membros. Nas suas teologias é frequente encontrarmos a justificação de todos os males dos indivíduos através de duas razões: ou porque não têm fé, ou porque, não tendo fé, estão possuídos pelo demónio. Neste segundo caso, é uma “doença espiritual” o que para esse quadro religioso está em causa.

Assim, é frequente que estas igrejas apresentem ritos semanais de exorcismo. Num contexto cénico altamente elaborado, onde muitas vezes estão presentes elementos de uma clara hipnose colectiva, os pastores realizam, à frente de toda a audiência, exorcismos em catadupa, provando aos seus crentes que, de facto, uma boa parte da humanidade está possuída.

Nestes Rituais de Descarrego a oração é o meio que leva a que os demónios se exteriorizem, assim como o toque sacralizado do próprio Pastor que percorre todos os presentes em busca de possuídos.

Em muitas entrevistas, intervenções e escritos de Edir Macedo, assim como muitos outros líderes de igrejas do modelo semelhante, a doença, enquanto alteração fisiológica, é causada por um problema espiritual. A cura, o centro cada vez mais recorrente neste modelo de igrejas (neo-iurds), surge fortemente associada à junção entre a leitura do que é espiritual, isto é, demoníaco, e a superação da doença.

Já longe de Sontag, a doença deixa de ser, aqui, uma metáfora e já é o centro de uma pastoral, de uma relação de dependência criada entre a igreja e os seus membros. No momento em que toda a envolvente pode ser demoníaca, a fobia do que não demonstra a suposta presença de Deus resulta na afirmação do medo, da separação face à sociedade, na demonização de tudo e de todos os que não são “crentes”.

ASSINE AQUI E GANHE UM SACO. Ao assinar está a apoiar o jornalismo independente e de qualidade – essencial para a defesa dos valores democráticos em Portugal

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.