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Catarina Marcelino

Catarina Marcelino

CIDADANIA E IGUALDADE

O melhor que o homem pode ser

Gillette

Há um paradoxo no modelo masculino da sociedade patriarcal. Se por um lado são os homens que detêm o poder, por outro lado é-lhes permitido manter uma dimensão rapazola que lhes permite transgredir socialmente e ser aceite com normalidade

A Gillette, uma das principais marcas de produtos de barbear, lançou uma campanha que questiona os estereótipos masculinos tóxicos, nos comportamentos sociais e nas relações de género na sociedade, intitulada com o slogan “o melhor que o homem pode ser”.

Esta campanha, que também associa a marca ao movimento #metoo, tem sido alvo de grande polémica, havendo reações violentas de grande repúdio pela mensagem que transmite. Uma mensagem de que os homens não têm de ser violentos, não têm de assediar as mulheres e que esses comportamentos são modelos para os comportamentos dos homens no futuro, aliás a campanha termina com a frase “porque os rapazes de hoje serão os homens de amanhã”.

É muito interessante que uma marca líder de produtos masculinos e fortemente associados ao que significa ser homem, a barba, lance uma campanha com uma forte mensagem contra a masculinidade tóxica, como tem sido veiculado pelos meios de comunicação.

Hoje, no século XXI, apesar da força das representações do que significa, ao nível do simbólico, ser homem e ser mulher, com todos os estereótipos e símbolos que lhes estão associados e que nos condicionam numa sociedade patriarcal, onde os códigos e os interditos nos guiam ao longo da vida nas nossas identidades e comportamentos, há um movimento de questionamento que pode indiciar uma mudança de paradigma social que está fortemente instituído e consolidado desde o século XIX.

A par com o debate em torno desta campanha, em Portugal, após um início de ano trágico, com a morte de 10 mulheres e uma menina em pouco mais de um mês, vítimas de violência doméstica, o tema da campanha é trazido para o debate público.

Se é verdade que temos que agir de forma mais enérgica no combate a este flagelo no imediato, a justiça e as forças de segurança têm que ter melhor desempenho, mas também todas as instituições públicas que têm contacto com as vítimas. É preciso mais e melhor articulação para evitar mortes e sofrimento. Mas por outro lado é preciso apostar seriamente na prevenção primária da violência, na educação para a igualdade e os Direitos Humanos.

Esta aposta vai no sentido de como se diz na campanha da Gillette, transformar o comportamento masculino agressivo, porque os rapazes de hoje são os homens de amanhã.

A verdade é que a idade média de agressores e vítimas que entram no sistema se situa entre os 40 e os 50 anos. Sabemos que a violência não é, na esmagadora maioria dos casos, um fenómeno que surge de um dia para o outro no seio das famílias e dos casais. A violência surge cedo, surge na idade do namoro, quando a aprendizagem das relações de intimidade se inicia e os rapazes e raparigas assumem papéis de namorado e namorada nas relações.

Este é um momento fundamental para intervir, para educar contra violência, mas aquilo que são os papéis sociais de género, ou seja, o momento em que se constroem papéis e expectativas em relação ao que é ser homem e mulher na sociedade, tem que se iniciar no pré-escolar, desmistificando estereótipos.

A frase “boys will be boys”, “rapazes serão sempre rapazes” tem que ser desmistificada e alterada. Não podemos continuar a cultivar uma sociedade onde os comportamentos masculinos são infantilizados e por isso desculpabilizados.

É confrangedor o papel masculino e paterno em séries de desenhos animados americanos como “Os Simpsons”, “O Incrível Mundo de Gumball” ou o “American Dad”, onde as personagens masculinas são infantilizadas e ridicularizadas pela sua atitude e incapacidade de resolver qualquer problema.

Estes papéis masculinos dos desenhos animados passam mensagens subliminares de modelos masculinos, em que os homens podem ser assim e serão sempre desculpabilizados, porque no fundo serão sempre rapazes.

Esta imagem masculina contrasta com o papel do homem que exerce o poder e que é dominante nas relações socias. Diria que há um paradoxo no modelo masculino da sociedade patriarcal. Se por um lado são os homens que detêm o poder, por outro lado é-lhes permitido manter uma dimensão rapazola que lhes permite transgredir socialmente e ser aceite com normalidade.

É desta realidade que o anúncio publicitário da Gillette nos fala, da necessidade de tornar a masculinidade mais responsável, no sentido que os rapazes devem crescer, tornarem-se homens, abandonando o lado infantil e, de forma responsável, contribuir para uma sociedade onde haja menos violência e onde homens e mulheres, sejam responsáveis pela construção de um mundo mais justo e mais igual.

Catarina Marcelino

Catarina Marcelino

CIDADANIA E IGUALDADE

Nasceu no Montijo. Licenciou-se em Antropologia pelo ISCTE. Construiu o seu percurso de ativismo cívico e político através de experiências de voluntariado na AMI, Comunidade Vida e Paz, na Liga Portuguesa Contra a Sida e como dirigente das Mulheres Socialistas. Trabalhou em Câmaras Municipais, foi Adjunta do Secretário de Estado da Segurança Social e Presidente da CITE. Foi Secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade e é Deputada à Assembleia da República pelo Partido Socialista.